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O sonho de um caloirinho

O calor de agosto é exuberante e este ano parece até infernal. Soube que entrei na minha primeira opção e que vou ser o primeiro da minha família a frequentar o ensino superior.

Vou sair da minha terrinha do interior num autocarro interminável, ou até atravessar o Atlântico, para estudar na capital. Deixo a minha família para trás e trago comigo apenas sonhos e aspirações de ser mais do que os meus pais conseguiram ser.

Encontrei um quarto a 40 minutos da faculdade e os meus pais vão ter de dar metade do salário deles para pagar a renda. Mas tudo isto vale a pena. Vou formar-me, arranjar um bom emprego e retribuir tudo o que os meus pais fizeram por mim. 

Almoço sempre em casa porque a refeição social está cada vez mais cara. Mas tudo bem, isto constrói independência. Estudo, cozinho, lavo a roupa e limpo a casa como todos os meus colegas. 

Evito gastar dinheiro em coisas desnecessárias. Ninguém precisa de comer três refeições por dia para ser saudável e, quiçá, consigo poupar cinco euros da minha mesada para marcar uma consulta nos serviços de psicologia da faculdade. 

Adoro Lisboa e a minha rotina. Só tenho de fazer tudo e mais alguma coisa: ter boas notas, construir um bom currículo e orgulhar os meus pais que nunca tiveram esta oportunidade. Não faço mais do que todos os meus colegas. Bom… menos aqueles que chegam a casa e já têm o jantar feito, a roupa lavada e uma mesada igual ao salário do meu agregado familiar. Mas tudo certo. Tenho uma oportunidade e acredito na meritocracia. Só tenho de me esforçar. 

Recebo uma chamada de casa. A rede é instável, mas com as saudades que tenho só quero ouvir a voz deles. O meu pai, entre cortes e ruídos, diz-me que precisamos de falar. 

Automaticamente penso que alguém está doente ou que algo correu mal. Mas não. 

Ele diz-me que o que eu achava que tinha ganho com o meu esforço e com o sacrifício dos meus pais me vai ser tirado. É demasiado caro. A renda, as despesas, as propinas descongeladas. Os meus pais não aguentam e não lhes posso pedir mais. 

Regresso a casa. Com uma chamada e uma medida do governo acabou o sonho de um caloirinho.


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