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  • sobre a gala lex

    Mais um ano mais uma gala, menos uma noite de estudo, mais 50€ para fora da mala. Os mesmo sentam se “aleatoriamente” nas mesmas mesas com formato diferente, as cadeiras vazias de estarem todos em pé, elogiam-se os vestidos sem saber quem é. Sempre as mesmas queixas: “Pouca comida”, “má música”, todos falam mas ninguém muda. Chegamos todos arranjados sem saber se é o sítio certo, devido ao ar duvidável e de Lisboa não estar por perto. Os professores sorriem e elogiam, mas há algo peculiar em sorrir para quem me vai chumbar. Os prémios são entregues, muitos discordam, outros saltam e outros nem votam. E de volta à faculdade surge uma nova guerra, quem consegue uber e quem fica à espera. Deitados na cama criticamos até o luar, mas no fundo sabemos para o ano vamos voltar.

  • Nova Alegoria - greve, outra vez.

    Querida academia – a  intelligentsia  da NOVA decidiu que a greve é um embaraço para o Estado de Direito. Bem haja! A aceitação é o primeiro passo. Baixem a cabeça por respeito. Porquê? Não sabem? É que, humildemente, caminham entre nós constitucionalistas, brilhantes como diamantes, com a bravura de... questionar a própria questão!Cale-se a miséria. A desigualdade. A violência sistémica. Os senhores estão a falar agora! E o que os senhores querem falar é precisamente sobre tudo aquilo que conquistámos no pós-Salazar: transportes públicos, habitação, educação, aborto, lei da paridade... O Estado tem é que ter (e ser!) um valor líquido — algo que se esprema facilmente entre punhos fechados. Acabou-se o tempo em que o teu Direito prevalece sobre o meu direito de questioná-lo.Acabou-se o materialismo histórico que fundamenta a tua Constituição.Acabou-se tudo! (dizer  chega  é pouco chique entre nós, sociais-democratas) Nasceu uma nova  intelligentsia : uma que goza com os Paulos Otários da Escola Clássica enquanto se deita à sombra do eucalipto Cristas. Uma que brilha com a internacionalização do Direito — opcionalmente em inglês.  Gens  humanista ... contamos tão penosamente todos os palestinianos mortos, ansiando chegar ao número que preencha o tipo de genocídio. Os nossos códigos não se moldam às convicções partidárias do intérprete – por mera admissão do dogma, claro.Ilustre academia, Virgem Maria! Parteira de todos os especialistas de direito nos OCS privados! Rogai por nós... Camaradas, até Jesus teve dúvidas na cruz... E eu? Eu pensei que a NOVA Law, ali em Campolide, era uma instituição minimamente focada na adaptabilidade.Aliás — para quê a nova alcunha?  As estigmas pulsam nas mãos. E com o pus, borbulha o pressentimento de que esta tal "adaptabilidade" é guiada por interesses que pouco têm a ver com os dos alunos.  Por que razão os mesmos que escreveram leis de despejo, cortes salariais e privatizações são agora os que nos explicam o que é justiça, cidadania e Estado de Direito?Por que é que os mesmos professores que nos deram aulas online durante uma peste se recusam agora a fazê-lo por causa de um regulamento inflexível?Por que é que o professor que questiona a palavra “trabalhadores” nas aulas de Direito Constitucional é o mesmo que nega serviços mínimos no tribunal arbitral? É a razão da causa ou a causa da razão, senhores?  Não haverá algo mais português do que uma greve da CP? Talvez o segredo esteja no nome:  grève des trains!   Public transportation kaput! Prioridades? Nestes termos não se questionam.  Afinal, nós só estamos a pedir um link de zoom... e eles? Um salário que chegue ao fim do mês.  Honremos, pois, todos os académicos de honra.Porque no silêncio, a ideologia torna-se método.

  • O dérbi dos dérbis: uma cidade pintada a dois tons

    Na última semana o nosso país parou. Nos meios de comunicação e redes sociais de toda a espécie debatia-se este tema por horas a fio, conversas de café, de elevador, entre família e amigos passavam,  irremediavelmente, este assunto a pente fino. Não era o apagão, nem o início da campanha eleitoral. Era o dérbi decisivo - o dérbi do século , apelidado por alguns - jogado entre Benfica e Sporting no passado sábado, que não saía da cabeça nem das bocas dos mais ou menos entusiasta pela bola. Durante uma semana, Portugal, em particular a cidade de Lisboa, entrou numa antecipação asfixiante que se prolongou desde o fim da jornada anterior até às 17h59 do derradeiro dia. Arrisco-me a dizer que se tratou de um fenómeno sociológico de histeria coletiva, e, em simultâneo, um evento desportivo quase sem precedentes, uma vez que as duas equipas chegavam a este jogo em igualdade pontual quando apenas restavam duas jornadas para o fim do campeonato, com o bónus de que qualquer uma delas poderia sagrar-se campeã nacional naquele mesmo final de tarde. A acrescer à rivalidade histórica entre águia e leões, estava montado o cenário idílico para o pandemónio. É um lugar comum do futebol, mas vou-me socorrer dele, citando uma frase atribuída ao treinador italiano Arrigo Sacchi: “O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes da vida”. Falo da minha experiência, ainda que apenas de um dos lados da barricada, de que naquele dia vivenciava-se um verdadeiro sentimento de comoção e união. Apesar dos problemas da mais diversa índole que assolam as gentes no seu dia-a-dia, naquela tarde fizeram questão de se deslocar ao estádio, inclusive muitas e muitas horas antes do apito inicial, e de apoiar aqueles rapazes que envergam camisolas vermelhas vivas. Estavam ali para algo maior do que elas mesmas, para algo que é um elemento de ligação imediata entre os mais díspares indivíduos. E não há como negá-lo, o futebol em Portugal é mais do que um simples desporto, particularmente entre os 3 Grandes, é um fenómeno económico e cultural, que move multidões e incendeia paixões. Tanto antes, como já depois de a bola começar a rolar, para além da comoção, sentia-se um clima de esperança no ar, misturada com alguma ansiedade - aqueles 90 minutos representavam a batalha decisiva numa guerra que já vai longa. No pré-jogo, escutavam-se por toda a parte cânticos de incentivo à equipa, talvez uns decibéis acima do habitual, cachecóis e bandeiras eram agitados, talvez com mais genica do que noutras partidas. Milhares de pessoas concentraram-se nas imediações da Luz para receber a equipa. O ambiente frenético transferiu-se para o interior do estádio, e mesmo quando o resultado era desfavorável aos homens de vermelho, toda aquela multidão não se calou, compelindo os seus a lutar pelo resultado. E quando, aos 63 minutos, Kerem Aktürkoğlu, o Harry Potter turco, marcou o golo que deu a igualdade e que recolocou as águias na corrida para o título, o recinto ia colapsando.  O empate a uma bola manteve-se até ao fim da partida, e, por conseguinte, também a igualdade pontual entre as duas formações, empurrando a decisão final para a última jornada. De nada valeram as estruturas montadas na rotunda do Marquês de Pombal, nem os cortes à circulação em pontos estratégicos da cidade. Porém, com este resultado, o Benfica deixou de depender apenas de si próprio para vencer o título. Resta a esperança de triunfar em Braga e esperar que o Sporting tropece frente ao Vitória. Quanto ao Sporting, face ao 1x0 alcançado no dérbi da primeira volta, está a uma vitória de alcançar o bicampeonato, feito que lhe escapa há 70 anos. The last dance , para ambas as equipas,   joga-se, mais uma vez, no sábado pelas 18h. Ao início da noite, Lisboa ficará pintada com os tons de um destes clubes.  Para quem sente falta de um dérbi lisboeta, ou para aqueles que não têm problemas ao nível do sistema cardiovascular ou do nervoso (ou ambos), não precisa de aguardar muito para ter repetição da dose. No dia 25 deste mês, o Estádio Nacional será colorido de vermelho e verde para a final da Taça de Portugal, a “prova rainha”. Águias e leões bem podem começar a emitir cheques-saúde aos seus adeptos, porque este final de época está impróprio para cardíacos.

  • Desde pequena, sempre quis o poder de parar o tempo

    A minha avó sempre teve a mania de tirar mil e um fotografias. Conservava tanto o mais importante aniversário como o mais banal jardim num flash. Preservava tanto a nossa família como meros desconhecidos num clique. O que era necessário era eternizar a essência de quem amava. Por fim, reunia todas as valorosas memórias num álbum meticulosamente escolhido. Acho que esta foi a herança mais bonita que ela me deixou: o hábito de capturar quem amamos numa fotografia. Conservei fotos das minhas preciosas bonecas, dos meus queridos brinquedos e das visitas de estudo, tal e qual a minha avó fazia, queria que aqueles momentos e aquelas pessoas ficassem assim para sempre. No entanto, o mágico flash não foi suficiente para resistir ao intransigente tempo que levou consigo tudo o que eu queria eternizar. Quis manter as minhas barbies, mas já nem sei em que contentor de doações as abandonei. Quis guardar a minha blusa favorita, mas as traças consumiram-na por completo.  Quis recordar para sempre as velas do meu sétimo aniversário, mas o sol derreteu-as  Quis eternizar a minha avó, mas já nem me lembro da sua voz. Quis parar o tempo, mas não há nada mais certo do que a sua inexorável passagem.

  • Kinetic Rebirth

    What is it? I honestly, and deeply, in Marianas Trench depths of longing, wish I could understand. I wish I could see, but the reality’s reflection seems as blurred as a river in a Monet painting, and my eyes are as damaged as astigmatism could corrupt them. I wish I could know what it is, almost as I wish I could know me. What am I. And why that thing that I don’t know what it is impacted me so acutely - and with such a precise aim, perfectly embedding the core of my heart, summoning an echo of Dahmer’s old habits (and I bet the rational hyenas are craving the satisfaction of their hunger with my heart), as if it thrived in the Slayer’s repentless  philosophy. That must have something to do with me, right? It has to. If it breaks me, even just a little, even if it is only a nano fragment of mine - of my body, of my soul, of my own aura - that is demoralized, it must be because something, in me, in my kinda way; in my own essence of existence; in my own anatomical proportions’ organization; in the way that my own blood travels inside me; in the way my own heart pumps both willing to start moving and inertia; in the way my own tear ducts rain me salt, and in the way my own dust of stars is organized in and through me, in order for it to be me, collapses with. It must be that. It has to be that - or else, what would it be in order to exist fractures? That is the only explanation that sustains my ache - celestial collisions; multilateral collisions, from every possible angle and of every kind of nature, impregnated in any possible cogitated sense - atoms, blood, metal, screams, euphony, symphony, tears, and light, all intrinsically, transcendentally, combined and collided, dancing altogether, in a so smooth harmony, personifying the own concept of coalescence. They look almost indistinguishable. And as they keep on increasing their speed; their transitions; their tension; their coordination; their complexion; their complexity, and as they stretch their Shakespearean act, almost until there is nothing more to stretch; almost reaching Icarus desired destiny, they just can’t take it anymore. They reach their own limit - and explode. And I guess that, even if there is any other possible explanation for my feelings, I don’t want to accept another. I don’t even want to acknowledge the possibility for there to be any other key for my transcendental puzzle. Because I do want to believe in collisions. I want to believe that, as stars and gas in a galaxy move, and sometimes collapse, blowing up, and then create a whole new universe, I myself sometimes let my emotions and thoughts indulge in an energetic overflow, to the point that they rip apart, in order to new emotions, or new interpretations of those emotions be born. If we are made of atoms, why couldn’t this explanation be considered sufficient?  Nothing is lost, everything is transformed , that’s what I’ve used to hear. I will believe in it; I want to believe in it. I want to believe that each collision is beautiful and it has its own magical dust; its own mesmerizing light; and its own secret of motion, all embedded in their own well constructed maze of extra mundane nature. I want to believe that each collision was meant to be, in order for me to become a new better me .

  • Happening 2025: "A Esperança vê o que ainda não é"

    Utilizo deste meio para apresentar à comunidade académica da Nova School of Law  o Happening 2025.   Trata-se de uma proposta cultural promovida por universitários, provenientes de diversas faculdades, para todos os universitários, procurando dar luz àquilo que há de bom e interessante na cultura do nosso tempo.  O tema central deste Happening é a Esperança, sob o mote “A Esperança vê o que ainda não é”, excerto do célebre poeta francês Charles Péguy .  Como é que o homem pode manter a esperança nestes tempos de crescente incerteza na política mundial, nas guerras que se vêm a surgir e desenvolvimentos da Inteligência Artificial?   “A esperança é uma certeza no futuro em virtude de uma realidade presente”. Que pretensiosa realidade é esta que nos pode conceder algum tipo de certeza?  Estas e muitas outras perguntas são aquelas que o Happening procura, antes de responder, colocar da forma correta.  Os eventos do Happening começam já amanhã, dia 2 de maio e estendem-se até ao dia 9 de maio, sexta-feira da próxima semana. A proposta conta com um programa holístico e diverso, que inclui a apresentação da peça de teatro “À Espera de Godot”, de Samuel Beckett, a realização da exposição “O que me espanta é a Esperança, de Charles Péguy”, diversas conferências, com Rui Ramos, António Feijó, Nuno Crato e outros, um encontro com o renomado cantor português Samuel Úria e muito mais.  Podem verificar o programa através da página @ac.imprevisto  no Instagram.

  • O silêncio das gavetas

    Acredito piamente que somos todos feitos de gavetas organizadas em cômodas. Afinal de contas, onde guardaríamos as nossas memórias e emoções?  Pensem nestas gavetas e cómodas como um grande arquivo organizado por secções, temas, cores, anos, meses… Eu, por exemplo, tenho uma cómoda onde nas suas gavetas guardo aquilo que me aquece a alma: numa gaveta, o cachecol de abraços da minha melhor amiga, noutra gaveta, luvas que já não me servem tricotadas de beijos na face da minha mãe antes de me deixar no infantário e noutra ainda, uma camisola de lã forrada a “gosto de ti”s trocados aos longos dos anos. Noutra cómoda, guardo o que me traz frescura e leveza: numa gaveta, aquela concha pintada de risos e de pôr do sol, noutra, lenços de cabelo cheios de salpicos de gargalhadas descontroladas entre amigos numa esplanada e naquela guardo uma saia bordada com as primeiras flores de primavera a desabrocharem naquelas calmas tardes de meados de abril quando o Sol passa a ser mais permanente e começa-nos já a beijar as faces do rosto. Todas estas gavetas têm fragmentos de personalidade no seu conteúdo. Têm vida. Têm um bocadinho de mim. Volta e não volta, assim quando me apetece ser nostálgica, abro uma e lá vai ela: mal abro só uma esteirinha começa a libertar o seu sentimento, o seu ritmo melódico, uma das milhares de milhentas canções que correm no meu ser e soltam-se borboletas tingidas de sentimentos puros a refrescar uma sensação aconchegante no peito. E, assim, enche-se a sala rios de risinhos, de conversas arrastadas, de sessões de dança quando se achava que ninguém nos está a ver, de murmúrios doces carregados de nada… Todas estas cómodas e gavetas se encontram em exibição em mim. Ora, não fôssemos nós fruto de experiências, sentimentos e lembranças. Portanto, quem me conhece é porque já viu muito desta grande exposição. Seja porque já me viu a abrir gavetas, seja por fazer parte do conteúdo de X gaveta ou, para os mais sortudos, seja porque eu já os deixei espreitar para dentro de alguma gaveta. Mas desenganem-se se acham que isto tudo se trata de uma exposição pitoresca. Por entre as lindas e coloridas cómodas, existem outras não tão condizentes com a imagem se é que me entendem.  É que há gavetas que já não abro há anos. São aquelas ali que tento esconder no canto, aquelas nas cómodas de madeira cheias de mofo e a ranger. Não as abro, não porque me esqueça delas, mas porque sei demasiado bem o que lá está. Troféus de segundo lugar, um espelho partido, poemas nunca lidos pelos destinatários, palavras nunca ditas, pulseiras da amizade desfeitas, cartas de amor rasgadas, a carta do meu avô nunca lida, um metrónomo avariado que mais parece uma bomba em contagem decrescente...  Mas, contrariamente às outras, quando as abro, o espaço fica embebido em silêncio. Nada de festança, nada de rodopios, nada de música, nada de vibrante, nada de paz (antes tormenta), apenas e só silêncio. E o silêncio barulhento destas gavetas não é só o mero silêncio da sala, é mais denso e pesado. É o som abafado das palavras que não dissemos, das memórias que resistem mesmo sem serem tocadas, prontas a assombrar cada dia, hora, minuto, segundo daqueles momentos a sós. São vozes silenciosas e carregadas de remorsos, tristezas, vergonhas e até raivas imersas. Cada vez que passo por aquelas cómodas naquele canto, sinto um leve estremecer. É como se as gavetas quisessem falar, mas respeitassem a minha escolha de não ouvir.  Não é por isso que me deixam em paz. É nos supostos momentos de tranquilidade, só entre mim e eu, que as gavetas começam a esgoelar-se em silêncio. Deitada na cama, começo a ouvir os suplícios e o pesar. Choros mudos carregados de “Abre-me”, “não te esqueceste do que fizeste no dia…”, “Lembras-te da…, sim, essa mesma, a que te fez passar por…”, “esqueceste-te de mim?” Infelizmente não, não esqueci, é só que o pranto embatucado das gavetas torna-se em lágrimas gritantes minhas, martírios calados viram pedidos de piedade na minha consciência, e assim lá estou eu, a meter o dedo na ferida que teima em não sarar e a abrir uma perra gaveta de madeira sem cor e empoeirada, já inchada da humidade. “Mas então porque ainda tens estas cómodas?”, “Porque puro e simplesmente não despejas as suas gavetas?” Pelo mesmo motivo de manter as “boas” cómodas e gavetas: Guardamos as coisas com o propósito de voltar a sentir a memória e sensações que lhes estão associadas, o problema é que há umas que não requerem vontade de as reviver, mas sim coragem. Além disso, não interessa quanta as vezes as tento abandonar, elas voltam sempre como um espectro: silenciosas, muitas vezes invisíveis, mas sempre a relembrar-me de que estão lá! Por muito que as negue, por muito que fuja, por muito que as esconda, por muito que me faça de cega e muda, elas ali estão: naquele canto cheio de pó, pouco ensolarado com paredes comidas de bolor. É que eu já mudei de casa mil vezes, e nessas mil vezes deixei-as sempre na casa antiga, abandonei-as (tentei). Então como raio, sempre que chegava a casa nova e começava a desempacotar as minhas lindas cómodas e a montar as gavetas, lá estavam elas? Essas feias e velhas, cheias de nada e de tudo, silentes mas berrantes, esquecidas ou lembradas, aparentemente as mais leves mas ainda assim as mais pesadas? O que fazer então com estas cómodas, e sobretudo com as gavetas de interior sombrio e melancólico? Há dois caminhos: ou aceitamos a mobília triste ou aprendemos a restaurá-la. A verdade é que, com o passar do tempo e ousadia, se formos abrindo essas gavetas silenciosamente barulhentas com alguma regularidade, vamos ganhando uma nova perspetiva sobre o seu conteúdo: apercebemo-nos que o que lá está não é assim tão penoso como noutros tempos fora, ou seja, aquilo outrora lutuoso e penumbroso, com os certos tímidos raios de sol, ganha outra tonalidade, menos escura, menos funesta, menos angustiante, mais prometedora. Assim, a cada vez que se abre, remenda-se uma racha e um ego ferido; limam-se arestas e rancores; limpa-se as manchas de pó, bafio e mágoa; noutra vez, mudam-se os puxadores e as conceções e, o toque final, dá-se uma nova pintura em diversificados tons de esperança e cura.  Mas não se iludam. Não importa quantas restaurações façam, aquele canto permanecerá sempre com mobílias forradas a lamentações e mofo. Não importa quantas gavetas esvaziem e pintem, estarão lá outras carregadas de novos medos, inseguranças e tormentas.  Isto é a vida, eu acho. É tentar sempre melhorar e aperfeiçoar o nosso interior, por muito que as gavetas mudas teimem em gritar. E crescer talvez seja isso também: aprender a conviver com móveis cheios por dentro. E, de vez em quando, abrir uma gaveta, mesmo a medo, e encarar o que lá deixámos. É que há silêncios que só se quebram com paciência e bravura.

  • O Papa de todos todos todos

    “Na Igreja há espaço para todos. E, quando não houver, por favor façamos com que haja, mesmo para quem erra, para quem cai, para quem sente dificuldade. Todos, todos, todos.” Papa Francisco (durante as Jornadas Mundiais da Juventude de 2023) Depois do “ Habemus Papam ” de 2013, o mundo ficou a conhecer este homem: Jorge Mario Bergoglio. Escolheu para si Francisco, como Francisco de Assis, santo simples, que viveu na pobreza. Foi o sinal que era preciso.  Nos primeiros tempos, reconhecemos-lhe a humildade e a vontade em personificar uma igreja com menos ostentação, mais próxima ao cidadão comum: sem Prada  e sem palácios, mas com amor às conversas à mesa e ao futebol.  Antes de o ser, o Papa disse que queria uma Igreja com capacidade de “sair de si mesma e ir às periferias”, mas não posso deixar de frisar que o seu legado foi além disso. Iniciou conversas sobre migrantes, mulheres, divorciados e homossexuais. Esteve com outros líderes religiosos. Visitou zonas de guerra e pessoas vítimas dela. Foi verdadeiramente revolucionário numa era em que a revolução já é uma palavra gasta e banal, mas sempre com o coração na humanidade que, afinal de contas, representava.  Foi, acima de tudo, a personificação de uma ética de misericórdia e de tudo aquilo que a Igreja deve ser: um porto aos perdidos e uma semente de esperança e ternura a Deus. Mais do que isto, uma casa aberta – interna e externamente –, e não uma instituição austera e fechada sobre si mesma.   O seu pontificado será recordado por frases e gestos de amor à humanidade. Antes de ser Papa, era um homem – que desejou boa noite aos presentes desde aquela varanda, como quem vê um velho companheiro - com isso viveu e assim morreu.  Que o seu legado viva em todos nós! “Onde houver ódio, que eu leve o amor.Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.Onde houver discórdia, que eu leve a união.Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.Onde houver erro, que eu leve a verdade.Onde houver desespero, que eu leve a esperança.Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.Onde houver trevas, que eu leve a luz.” Oração de São Francisco

  • O fruto proibido

    Tens cara de quem me vai destruir a vida, arrancar o meu coração palpitante, brincar comigo como se fosse um berlinde escarlate e brilhante, e arrasar todas as certezas que já ousei ter. Mas certezas só tenho da morte. Vivo completamente perturbada por dúvidas, deixam-me paralisada e estagnada, penso na minha existência e que nada significo neste mundo, mas assim que entras, ostentando a tua certeza de ser, uma luz de clareza me atinge.  Quero que me destruas e tudo o que significo. Faz de mim o teu projeto mais voraz e, se acreditas que exista, extrai a minha alma até alcançares o tutano da minha essência. Acho que tua essência tem o aroma quente e radiante de laranja, enquanto a minha emana a frieza suave de baunilha. A nossa mistura improvável sabe tão bem, ainda mais porque é errada, as coisas erradas são as mais tentadoras. Talvez não seja hoje, nem amanhã, ou na próxima terça-feira, mas espero pelo dia em que sucumbiremos à nossa tentação.

  • Uma carta de amor nunca antes escrita, ao meu Rafa e à minha Luana

    4 de março  Uma carta de amor nunca antes escrita, ao meu Rafa e à minha Luana Há momentos em que o tempo para e abranda, enquanto eu faço o meu religioso caminho até aos braços do meu querido padrinho, que me deixa envolver no pequeno conforto (que foi crescendo ao longo do tempo) dos seus braços. Um calor humano que dura meros segundos, mas que me tira anos de desconforto, uma pequena rotina que não sei se estou pronta para deixar ir. Assim como duvido demasiadas vezes de quando passará a ser normal deixar de ouvir as insaciáveis histórias que abafam as vozes do caos do nosso bar com a doce e terna voz da pessoa que sempre conheci, e que agora também é casa.  Quando deixará de ser normal, ouvir a minha madrinha chegar e saber naquele momento que as próximas três horas não serão de aulas, mas sim, do pleno convívio reconfortante que ela sempre traz consigo e me diverte, enquanto eu, a deixo falar e tento aprender um pouco da sua essência para poder levar comigo para casa? Encontro-me algumas vezes, talvez demasiadas vezes, a pensar na forma díspar que estes dois seres têm de agir e viver que me reconforta, estranhamente, da mesma forma. Por vezes, encontro-me a observar o jeitinho peculiar que o meu padrinho tem de interagir com os outros, ou então o seu modo pleno de agir quando está verdadeiramente confortável.  Assim como, às vezes me deixo aquecer pelo toque quente e amoroso da minha doce madrinha, que em nada tem medo de mostrar carinho. Ou então, deixo-me vibrar e dissolver em risos quando a ouço do outro lado da linha a contar das mais célebres histórias de amor fracassado.  O que mais se pode dizer destas duas pessoas que tão rapidamente se moldaram no meu pequeno mosaico de personalidade? Que me deixaram ter uma voz no grande mundo deles e que me deixaram florescer sem questionar muitas vezes o que andava a fazer?  Que algumas vezes, foram ouvidos das minhas inúmeras incoerências e quando, mesmo que não entendessem, tantas vezes me tiraram aflições das costas? O que há mais a dizer quando me deito agora nesta cama e penso que no próximo ano não os vou ver com tanta frequência? Quando sei que por um facto que para o ano, os caloiros não vão ter nem metade da sorte que eu tive por conhecer estes dois que tanto me deram em tão, mas tão pouco tempo. E a verdade é que estes pequenos anseios, estes pequenos devaneios, não passam se não de pequenas preocupações que vêm deste amor e admiração que tenho por estes dois pequenos grandes seres, destes finalistas por quem muitas vezes anseio e desejo ter por perto.  E aconteça o que acontecer, sei que não será uma licenciatura que fará com que esta sensação incessante dentro deste meu pequeno coração, que fará com que estes laços de ouro se desvaneçam da minha mente.  À minha Lu e ao meu Rafa, que para além de padrinhos, são meus amigos.  Obrigada por darem o mundo até agora… e obrigada por saberem que continuarei a ser a pequena grande peste das vossas vidas.

  • Louvor amargo ao platonismo

    Uma crítica magoada a Ricardo Reis e a todos os defensores da vida platónica. A todos os que preferem sonhar a viver. Imaginar em vez de sentir. A todos os que, como eu, são cobardes e têm medo de arriscar.   “Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.” Se passamos de qualquer forma, se a nossa existência é efémera e insignificante, porque não fazê-la valer? Viver é sentir cada momento, criar memórias fortes, marcantes, profundas! Porque havemos de nos abster, limitar, auto-sabotar, impedir-nos a nós mesmos de viver e sentir o que queremos? Não é racional, não é normal.   “Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro” Porquê ser menos se podemos ser mais? Porque é que “não”, se por dentro gritamos “sim”?! Não quero chegar ao fim e ter apenas para contar tudo aquilo que podia ter feito, mas não fiz. Não quero desperdiçar a minha existência a não fazer o que mais quero. Não consigo admirar à distância, não consigo sentir pela metade. Tenho de viver, sentir, aproveitar, correr, lutar, concretizar. O que é a vida sem ambição? O que são sonhos e objetivos se evitamos cumpri-los?   Ricardo, atiraste Lídia ao rio. Sufocaste-a e afogaste-te com ela. Prendeste-a na tua prisão.   Ricardo, não concordo contigo. Estou revoltada contigo. E estou revoltada comigo. Não concordo, mas entendo. Não é uma escolha, é uma maldição. Ou será o medo da dor no coração?   “Lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças.” Mas o tempo passa. Mas já não somos crianças. E o que sobra é a lembrança. Mas a lembrança de quê, se nada houve senão imaginação? Será uma memória vazia, incompleta, insatisfeita, verdadeiramente uma memória? Ou será ela uma mera aspiração, mera marca da nossa cobardia?   Nada disto é racional, nada disto parece normal. Mas afinal também eu sou platónica, também eu aprendi “Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas”. Também eu me prendo e me sufoco. Será isto medo ou maldição?   P.S. Este texto não é sobre amor. Este texto é sobre ter medo de viver.

  • Gato

    Os minutos passam, os passos aceleram e a indiferença torna-se um hábito. Afinal, os compromissos diários que não saem do sítio, que não sentirão a indiferença e a falta de afeto, não podem esperar mais dois minutos. Gastam palavras a anunciar ações sem qualquer perspectiva de concretização, afirmam que mostrar um pouco de afeto àqueles que nunca o sentiram antes, devia ser uma obrigação, talvez porque fique bem vestir a pele de alguém que se preocupa com tudo e todos, mas na rua todos olham e ninguém para. E ele, ali fica, parado, no seu canto habitual, a ver todos os movimentos, à espera que uma mão se estenda e deslize pelo seu pelo fora, tudo o que os seus olhos pedem é a empatia de alguém, uma mão quente que pouse sobre o seu pequeno corpo nas manhãs gélidas que se têm feito sentir. Ali fica ele, numa longa e talvez interminável espera, o gato laranja da Avenida Ressano Garcia.

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