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- Eleições Presidenciais
A partir de quando é que deixámos de ter critérios na escolha de um candidato para Presidente da República? Mais um mandato completo, mais uma eleição. No próximo dia 18 de janeiro, os portugueses enfrentam um desafio não tão simples quanto aparenta ser. Os eleitores não só têm a oportunidade de eleger o Presidente da República, como podem decidir um novo rumo e uma nova “cultura política “no nosso país. Portugal, país do Fado e de típicas praias. País de arte, de cultura, de desporto e de grandes navegadores. A nossa pátria habita, sim, na madrugada “inteira e limpa”, emergida e resplandecida na democracia que coloriu um silêncio que assombrava há muito uma sociedade. Esta ausência de cor não está presa aos livros de História. Verifica-se na disseminação de fake news , nos discursos populistas e na população, que amedrontada, deixa de se expressar. É neste perigo que nos ameaça, que sabemos que “o que faz falta é avisar a malta” sobre as eleições de 2026. Estas eleições assemelham-se particularmente às presidenciais de 1986. Uma grande polarização entre a esquerda (encabeçada pelo Dr. Mário Soares) e a direita (protagonizada por Diogo Freitas do Amaral). Um medo absurdo de voltar ao passado sombrio, que requer a união de todos os democratas. Contudo, nenhum candidato à esquerda é Mário Soares do século XXI, e nenhum candidato à direita apresenta a transparência de Freitas do Amaral. Nos dias de hoje, da esquerda à direita, o catálogo de opções, ainda que vasto, não agrada à maioria, na medida em que as facções políticas tradicionais têm vindo a perder a sua identidade ao longo dos anos. Para o eleitorado de direita são várias as opções, desde ao líder do CHEGA, André Ventura, ao cabeça de lista das passadas europeias pela IL, João Cotrim de Figueiredo, ao candidato mais tradicional apoiado pelo Partido Social Democrata e pelo CDS-PP, Luís Marques Mendes. Para além disso, encontramos um candidato que se situa “ao centro”: “entre a social-democracia e o socialismo”, o Almirante Gouveia e Melo. Embora a esquerda tenha perdido força nas últimas legislativas, não tardou em fazer a sua habitual divisão, como fizera também em 86 entre Zenha e Soares. Nestas presidenciais encontramos, essencialmente, quatro candidatos que se situam à esquerda no espectro político: desde António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido socialista; António Filipe, ex-presidente de mesa da Assembleia da República; Catarina Martins ex-líder do Bloco de esquerda e Jorge Pinto, deputado pelo Livre. Quando me deparei com a lista de dez candidatos à Presidência da República, tive de decidir não o melhor candidato, mas o que tem menos falhas, o que me leva a questionar “A partir de que momento é que deixou de haver critérios, definidos socialmente, para a candidatura a Presidente da República?” Inicialmente, apercebi-me que uma das características que mais se tem vindo a perder na esfera política é o espírito de “sentido de estado” . Um Presidente zela por todos, independentemente de serem ricos, pobres, mulheres, homens, do litoral ou do interior. Ao Presidente acresce-lhe a responsabilidade de representar diplomaticamente o nosso país, chefiando as forças armadas, mediando as guerras políticas e a “cultura de trincheiras” , que se instaurou no país. Por essa razão, excluo automaticamente André Ventura, pelas suas posições intransigentes perante o Presidente angolano e o Presidente brasileiro; Catarina Martins e António Filipe por se afastarem do modelo de valores europeus que residem na nossa Constituição da República e Jorge Pinto, por ainda não ter experiência mediadora suficiente para um cargo de tamanha importância. Deste modo sobram de maneira geral quatro candidatos que se vão aproximando do centro democrático: Almirante Gouveia e Melo, João Cotrim de Figueiredo, Luís Marques Mendes e, por fim, António José Seguro. No último debate realizado, entre Luís Marques Mendes e Almirante Gouveia e Melo, apercebi-me exatamente dos dois modelos de presidente que Portugal não deve eleger para assegurar a estabilidade. Por um lado, o candidato da continuidade : que ainda que experiente, viveu toda a sua vida na política ou no lobbying e que admite proceder de forma semelhante a Marcelo Rebelo de Sousa em casos futuros (Luís Marques Mendes) e por outro, o candidato da rutura , que com o seu espírito colérico e intempestivo acredita que a mudança em Portugal se faz fora do sistema e não com o melhor que o sistema tem. Com isto, da esquerda à direita existem dois candidatos que se destacam pela sua singularidade. Em primeiro lugar, João Cotrim de Figueiredo que embora muito ideológico, é um candidato prático e terra-a-terra, crescendo imenso através do seu marketing brilhante que conquista os mais jovens nas redes sociais. Porém, a Cotrim falta-lhe a empatia e a defesa do elevador social que carecem no seu discurso ainda muito liberal. O ex-líder da IL é certamente ambicioso e trabalhador, mas ainda é preciso mais para se ser Presidente. E é por isto que António José Seguro, ainda que seja conotado por muitos como “mais um herdeiro do Partido socialista” , é exatamente o meu modelo de político . Pautado pelo humanismo, pela seriedade e pela transparência, Seguro é figura humilde, que não tem medo de defender convictamente a justiça social, mas de forma coerente e acima de tudo responsável . Realço, então, o seu “sentido de estado” , principalmente na Troika, onde sacrificou os interesses do eleitorado do Partido socialista, para garantir a credibilidade do nosso país. Deste modo, Seguro é verdadeiramente um candidato abrangente, apoiado pelo partido que o formou, por figuras mais à esquerda e por alguns eleitores de centro-direita, onde me enquadro. E por essa razão, é necessária a união de todos os democratas, da esquerda à direita, em torno desta candidatura. Isto é fulcral porque o passado conta-nos que a hegemonia de um partido em todos os órgãos de soberania origina ausências no escrutínio e no progresso social. Por isso, na dúvida prefiro jogar pelo seguro a arriscar e dar um tiro no escuro e ter o azar de votar num fator de instabilidade, num compassivo com radicalismos ou num candidato que serve um partido e não os portugueses. Desta forma, não devemos meter os ovos todos no mesmo cesto, já que quem sofrerá não será o cesto, mas quem lá colocou os ovos.
- Flor Girino
No dia 20 de novembro de 2025, o Jur.nal encontrou-se na Padaria Portuguesa do Cais de Sodré com Lucas Calheiros, vocalista e guitarrista principal dos Flor Girino. A banda, ainda emergente mas já marcada por um imaginário próprio, refletiu sobre o seu percurso, as metamorfoses que os definem e a forma como convertem esses estados liminares em música. Quem são os Flor Girino? Tudo começou em 2020/2021, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), quando Lucas Calheiros conheceu Matilde Ho “Mati”, futura baterista. A ideia de tocarem juntos ganhou forma ao convidarem Bruno para o baixo e, pouco depois, Tony para a guitarra. Com o tempo, a formação foi mudando: Bruno foi substituído por Gabriel Cerutti e “Jaca”, sem guitarra para esquerdinos, passou para o teclado, aprendendo à medida que se integrava na banda. Com Tony ainda na guitarra, estrearam as primeiras músicas em concertos na FLUL e depois em bares de Lisboa e das Caldas da Rainha, onde começaram a consolidar o quarteto que viria a ser a formação atual dos Flor Girino. Antes de Flor Girino, passaram por nomes como “Petricor” - o aroma causado pela chuva - e “21 Gramas” - uma referência ao filme sobre o peso da alma. Porém, esses nomes acabaram por ser descartados. Assim, na preparação do seu primeiro concerto, recorreram a um gerador de palavras que concebeu opções como Flor Girino, Pose Colapso, Trigo Côncavo e Perfume Cinza - e o resto já se sabe. Unir flor e girino - delicadeza e viscosidade, luz e transfiguração - foi involuntariamente perfeito. Cada membro encontrou um reflexo pessoal: natureza, sustentabilidade, ruralidade e descontinuidade. Por conseguinte, este antagonismo entre graciosidade e grotesco percorre letras, sonoridades e atmosferas, moldando o paradigma artístico da banda: crescer na lama para florescer. Influências artísticas Ainda que brotem do solo do rock , os Flor Girino nadam num charco sonoro onde a palavra género chega sempre tarde demais. Lucas descreve a banda como rock alternativo “por falta de melhor”, mas vê nesse rótulo apenas uma antecâmara para um território mais mutante. A sua música alterna euforia e nostalgia, dissolve-se em momentos sublimes e irrompe em explosões súbitas, como se cada faixa atravessasse várias fases de uma mutação interna. Se tivessem de escolher referências, talvez falassem de um rock alternativo contaminado por impulsos progressivos, por um psicadelismo frenético e por um glam primordial que ecoa Bowie. No entanto, tudo isto continua a ser apenas superfície - a corrente subterrânea do seu trabalho é a versatilidade: camadas que se enrolam umas nas outras, atmosferas densas em espiral e composições que se constroem mais ao nível da sensação intuitiva do que da estrutura formal. Essa pluralidade estética nasce também da mistura de interesses de cada membro. Lucas e “Mati” partilham a admiração pelos Smashing Pumpkins; Lucas junta-lhe o shoegaze , o rock alternativo com influência punk e indie rock dos anos 2000. “Mati” traz ecos de soul , R&B e blues ; Cerutti injeta a energia abrasiva do pop‑punk brasileiro; e “Jaca” cruza referências de indie pop , indie rock dos anos 2000, eletrónica e videojogos, inteligíveis nas texturas melódicas nos teclados. Esta disparidade de referências musicais acaba por trazer maior força criativa - em vez de um estilo único, a banda cria um ecossistema sonoro incomparável. Além da música, há um imaginário conceptual inerente: cinema, literatura, poesia e filosofia alimentam o seu universo. Ecos de David Lynch, William Burroughs, António Maria Lisboa, Mário Cesariny e Schopenhauer (entre outros) percorrem silenciosamente o seu trabalho, insinuando-se nas escolhas de forma, ritmo e sensação, como sombras que se alongam. Do surrealismo, bebem a liberdade de narrativas oníricas; do grotesco, o gosto pela ferida simbólica e a capacidade de transformar o corpo e o sensorial em metáfora; da filosofia, a perceção de que a realidade se desdobra sempre em camadas de ilusão. A exploração estética dos Flor Girino também vive na relação entre música e imagem. Lucas explica que a banda sempre procurou “transferir o universo das letras e do som para o visual”, criando um microcosmos próprio onde o etéreo, a estranheza e a intensidade coexistem como uma mesma língua. Esse fio condutor atravessa capas, videoclipes e ambientes sonoros: as capas dos primeiros singles surgiram a partir de fotografias manipuladas pela própria banda, enquanto a capa do álbum e dos singles integrantes deste foram concebidos em colaboração com Pedro Ho, irmão de “Mati”. Processo criativo Criar dentro dos Flor Girino implica vulnerabilidade - mas também uma espécie de disciplina afetiva. A banda compõe num regime de experimentação fluida e contínua, onde cada membro traz impulsos que nem sempre encaixam à primeira. Às vezes o ensaio é um puzzle; outras, uma colisão. Mas o vínculo entre os quatro permite que esse processo, potencialmente fraturante, se transforme num lugar de construção. “Temos a sorte de sermos muito amigos”, diz Lucas. É essa amizade que permite negociar ideias difíceis, abandonar partes de músicas que adoravam e distinguir entre aquilo que funciona para a banda a tocar e aquilo que funciona para o ouvinte a ouvir. Destaca-se a faixa “Avião 4512”, que originalmente tinha doze minutos e foi reduzida para metade. O surrealismo das letras nasce frequentemente de estados inconscientes. Como explica Lucas: “Às vezes escrevemos e só depois percebemos que descrevemos algo que estávamos a sentir”. O processo de composição é, assim, quase biológico, com a música e as palavras a crescer como organismos vivos. E é nesse interstício - entre sonho, charco e febre - que se articula a coerência estética e narrativa do projeto. Singles Antes de Charcolepsia , o grupo foi descobrindo o seu território através de singles que funcionaram como ensaios de identidade: “Corvos” foi o seu primeiro lançamento - entretanto retirado do Spotify para futura regravação, “melhor executada e melhor produzida”, como sublinha Lucas, que faz ainda questão de agradecer a Sara Silva, “a pessoa sem a qual teria sido impossível lançarmos música pela primeira vez” -, onde já se pressentia o fascínio pela viscosidade imagética e pela resistência bruta. Seguiu-se “Lixívia”, composta por Lucas ainda antes da existência da banda e cuja versão original permanece disponível no SoundCloud - uma dissolução elegíaca, onde tudo parece ruir por dentro. “Cálcio” adensa esse delírio: lógicas ordenhadas até à exaustão, metais que minguam ao calor e materiais que se confundem como num sonho químico em combustão. “Praia Dançante”, “Grilo Grávido” e “Fonte de Gesso”, lançados antes mas incorporados no álbum, acenderam os primeiros vestígios da narrativa incandescentemente ácida que consolidaria Charcolepsia . Cada um destes singles ganhou corpo visual, contando com videoclipes disponíveis no YouTube - peças que, funcionando como extensões sensoriais do universo da banda, montam o puzzle flor-giriniano. Álbum - Charco plepsia Lançado dia 14 de março de 2025, Charcolepsia é um mergulho no inconsciente, uma exploração de imagens absurdas e sensações físicas que atravessam o corpo e a alma. O título - um trocadilho em “charco” e “narcolepsia” - materializa a intenção de criar um universo onde o ouvinte oscila entre vigília e sonho, num estado de consciência incerto. As músicas transitam entre violência imagética, poesia surreal e momentos instrumentais contemplativos. Como explica Lucas, “há uma narrativa, mas não necessariamente linear - é como se alguém apagasse e acordasse em certos tipos de momentos, sem decidir em que tempo da sua consciência está”. Faixas como “Espião” e “Riachos”, que separam ou silenciam a voz, mostram a importância do silêncio na experiência do álbum, permitindo ao ouvinte escolher como se aproxima da música e reforçando a dimensão quase pós-vida de algumas composições, destacando-se “180 (e cinco)”. O álbum traz várias inspirações literárias e contemplativas, sublinhando-se, por exemplo, “Avião 4512”, fortemente inspirado em Alice no País das Maravilhas , que incorpora frases quase literais como “Londres é a capital de Paris”. A faixa aborda a sensação de impostor na própria vida e a experiência de queda constante - um reflexo da dificuldade de “aterrar” na existência -, havendo ao longo da faixa a sensação paradoxal de queda e aceleração. “Espião”, por sua vez, é baseado num hexagrama do I Ching , reforçando a temática da vulnerabilidade e do sentimento de deslocamento. A exploração de conceitos filosóficos também marca Charcolepsia . Em “Véu de Maya”, refletem sobre ideias e ilusões da realidade, inspirada por Schopenhauer e pelo hinduísmo, mas trabalhada como matéria poética. No que toca às letras, algumas nascem de experiências concretas: a segunda parte de “Grilo Grávido”, por exemplo, surgiu quando “Jaca” pisou um ancinho, espetando-se no pé, episódio que inspirou o verso final da faixa; já outras emergem do fascínio pelo sombrio e sensorial, metaforizando-se sensações de fragmentação (primeira parte de “Grilo Grávido”) e sufoco (“Chuva Ácida”), entre tantas outras. Esta fusão real-imaginário reforça a hibridez surrealista do álbum, levando o ouvinte a uma viagem psicadélica pela mente e sonho. A condição de artistas emergentes em Portugal Ser artista emergente em Portugal exige navegar entre oportunidades dispersas e limitações estruturais. Lisboa oferece uma audiência recetiva e apoio significativo, mas os espaços para atuação vão-se tornando cada vez mais escassos. Lucas refere: “Alguns dos que têm mais recursos dão menos valor às bandas emergentes, enquanto outros com menos meios cuidam mais do evento e da escolha dos artistas”. No contexto destas dificuldades, os Flor Girino procuram manter a sua coerência artística, um equilíbrio entre experimentação e identidade própria, onde cada decisão - musical ou estética - reflete a sua maneira singular de abordar a criação, com pequenas fissuras que desafiam convenções e expectativas. A banda reconhece que estar presente neste contexto lhes permite, de forma natural, apontar para dissonâncias ou injustiças que observam - não como último manifesto, mas como consequência do lugar que ocupam. Palco e Futuro O palco é para os Flor Girino onde a sua música se materializa e se transmuta em êxtase coletiva. Vários concertos marcaram a banda, como a atuação de estreia do Arraial do Instituto Superior Técnico (IST) em 2024, e a abertura para os Ornatos Violeta nas festas de Oeiras do ano passado, um concerto que exigiu adaptação e um novo rigor na preparação do espetáculo. Esse cuidado com a performance tem sido acompanhado por um registo visual crescente: além dos videoclipes, a banda documenta também o seu percurso ao vivo - como no vlog e no vídeo do concerto com os Ornatos -, disponível no YouTube. Quanto ao futuro, os Flor Girino pretendem expandir-se e experimentar mais, explorando estruturas musicais menos convencionais e novos formatos de composição. Já trabalham em faixas novas e entraram no processo de gravação, ainda sem definir se o próximo lançamento será um conjunto de singles , um EP ou um novo álbum. O que permanece constante é a vontade de continuar a desafiar-se - de distorcer, metamorfosear e sinestesiar. No imediato, a banda sobe ao palco do Tokyo Lisboa no dia 17 de janeiro, numa noite partilhada com Folívora, Lesma, Pangeia e Prisão Platão. Para quem quiser seguir de perto este projeto em curso - e entrar num universo onde o delírio se torna linguagem - as novidades da banda continuam a surgir nos seus palcos e plataformas - Instagram e Spotify -, onde os Flor Girino vão deixando rasto do que está por vir. Fotografias: Flor Girino
- Prisão Platão
No dia 9 de novembro de 2025, o Jur.nal esteve no Quiosque dos Coruchéus com os Prisão Platão. Entre pulsão, rutura e construção coletiva, a banda emergente lisboeta falou sobre a sua formação, a sua ética criativa e o lançamento iminente do seu EP, ponto de ignição de um projeto simultaneamente introspetivo e interativo. Quem são os Prisão Platão? A banda surgiu em 2021, a partir de aproximações sucessivas e de um contacto constante com a música ao vivo. O núcleo inicial - Francisco Gallis “Fran” (voz, guitarra e composição) e Tiago Lisboa “Lisboa” (baixo) - deu-se na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT), num contexto ainda marcado por experiências paralelas na guitarra e na bateria. Mais tarde o grupo consolidou a sua identidade e ajustou a formação, com Gonçalo Gamas “Gamas” na bateria e Francisco Adónis “Adónis” como guitarrista principal. O nome Prisão Platão ressoa como um riff imaculável: duas palavras em P, rimadas, simétricas em sílabas e letras, pulsando música por si só, com ecos inerentes de rock português na génese. O seu paradigma, ainda assim, reside em deixar o significado à deriva na maresia de interpretações dos ouvintes. Influências artísticas Prisão Platão apresenta-se como uma banda de rock alternativo, marcada por impulsos de funk , post-punk e new wave - não como etiquetas fixas, mas como matérias de fricção estilística. No contexto do rock português, a associação aos Ornatos Violeta surge de forma quase inevitável. Foi a partir desse imaginário - e, em particular, do verso da canção “Punk Moda Funk”, “o punk moda funk um dia vai voltar” - que surgiu a questão sobre se essa ideia de retorno atravessaria a música do grupo. A sua resposta foi clara: para eles, esse regresso não está por cumprir - a sua força motriz reside na procura de um novo funk , atravessado por uma base mais rock e por uma urgência contemporânea. Emergem ainda referências como The Doors, David Bowie ou Velvet Underground, influências que pertencem sobretudo ao estilo individual, sendo a partir dos contrastes de géneros musicais que nasce a identidade sonora da banda: cada membro traz um repertório próprio, nem sempre inteligível à superfície, mas determinante na forma de evolução do projeto. O grupo, envolvido numa conjuntura em mutação estilística, concebe um som idiossincrático que, como reconhecem, acaba por “soar a Platão”. Processo Criativo Para os Prisão Platão criar é negociação constante - entre vontades, tempos e sensibilidades -, um exercício orgânico mas exigente que comparam a um “casamento poliamoroso entre quatro gajos extremamente hormonais e apaixonados por aquilo que fazem”. As suas canções nascem de uma necessidade interna, de músicas que gostariam de ouvir e que ainda não existem fora do seu universo. A composição arranca pelo som e energia, encaixando-se no que já existe, assumindo-se mais como extensão sensorial do que como chave interpretativa. A letra deixa o sentido sem dilucidação para que o ouvinte se debruce ativamente, o que amplifica a sua imersão sonora. A parte mais desafiante? O tempo que tudo leva: conciliar ritmos e visões enquanto a gaveta transborda de material novo, ansioso por sair, sendo nesse equilíbrio inquietante que o EP vindouro emerge com força - não como rutura total com os projetos anteriores, mas como a sua própria era. “O som evoluiu”, dizem, fundindo intenção, escrita e som num território único. Singles Até agora, o percurso da banda tem sido marcado por três singles lançados em 2023. “Novo Mundo” surge como ponto de viragem: em constante mutação, fixa-se na coexistência de perda, confronto com o desconhecido e reconstrução, num processo de resiliência e passagem. “Melodia Mordomia”, mais densa e poética, percorre críticas sociais e imagens ambíguas. Já “Funkomania” - pensada para o movimento - desloca-se para o corpo, afirmando-se em concerto como uma plena libertação coletiva que vibra em palco e plateia, sendo descrita como “uma música para a malta mexer, para dançar”. Surge ainda “Paciência”, uma das faixas mais antigas da coleção que, ainda não tendo edição oficial, é das mais reconhecidas ao vivo, ganhando um carácter quase ritual com a repetição incessante de “tem paciência”. “É um mantra”, explicam, “ uma frase dita vezes suficientes até se tornar verdade”. Hoje, a banda sente estes singles como marcas de uma era já finda. Nesse aspeto, confessam estarem “presos à era dos singles ” - uma etapa necessária que abriu caminho, mas agora eclipsada pela vastidão narrativa e conceitual do EP que lateja no horizonte. EP Descrito pela banda como a história do “lento caminhar da civilização à selva”, este projeto constitui o primeiro gesto verdadeiramente coeso dos Prisão Platão. Mais do que uma coleção de faixas, apresenta-se como um percurso narrativo conduzido por um sujeito poético único, cuja vida civil vai sendo progressivamente corroída - afastando-se da tecnologia e do quotidiano urbano - até entrar num estado de selvajaria, tanto concreta como metaforicamente. Esta narrativa desenvolve-se a partir de um ponto de vista assumidamente enviesado, sendo tudo filtrado pela experiência desse sujeito. O que permanece deliberadamente em aberto é a natureza dessa transição - será uma queda ou uma elevação? Uma perda irreversível ou um gesto de libertação? O EP não responde, expondo o conflito e deixando-o pulsar. Ao longo do disco, emergem temas como identidade, fragmentação, ausência e reconstrução. A selva funciona simultaneamente como metáfora interior e espaço possível, espelhando um processo de degradação gradual da identidade anterior. Não há uma rutura súbita, mas antes um desgaste contínuo - um deslocamento lento que transforma o quotidiano em estranheza. Musicalmente, o EP marca uma expansão clara do espectro da banda. Sem abandonar a base rock , os Prisão Platão abrem espaço ao experimentalismo, à dilatação de estruturas e a momentos em que o som se sobrepõe à forma tradicional da canção. Há faixas que se constroem pela tensão, outras pela acumulação, outras ainda pela suspensão, refletindo o próprio percurso instável do sujeito poético. No meio dessa expansão sonora, reaparece “Paciência”, surgindo desta vez em versão de estúdio, revista e “melhorada em certos aspetos”, segundo a própria banda. Essa ideia de transformação progressiva encontra eco também no plano visual. A capa do EP, concebida pelo Coletivo Triciclo , traduz graficamente essa passagem da ordem à degradação, acompanhando o imaginário do disco e reforçando a noção de percurso num estado cada vez mais selvagem. A condição de artistas emergentes em Portugal Enquanto banda emergente, o grupo identifica um panorama marcado por limitações estruturais: escassez de espaços para tocar, precariedade económica e um circuito cultural cada vez mais fechado sobre si próprio. Apontam, simultaneamente, para a existência de uma “bolha” que tende a afastar novos públicos da música independente, num contexto em que a descoberta é frequentemente suplantada pela reiteração algorítmica e pelo conforto do tributo. Nesse cenário, a música arrisca transformar-se em ruído de fundo - algo que se ouve “enquanto se faz qualquer coisa”, em vez de um gesto de escuta ativa. Como afirmam, haverá sempre dois tipos de pessoas: “aquelas que escolhem o Novo Mundo e as que não escolhem, ficando no antigo”. Neste contexto, criar assume-se como resistência. Cantar português, fora dos grandes circuitos e sem concessões fáceis torna-se num ato político e cultural; numa insistência na curiosidade, no risco e na provocação deliberada de consciência. Esta consciência não se traduz, no entanto, em mensagens fechadas ou moralizantes - os Prisão Platão preferem levantar questões, expor dissonâncias e estimular reflexão, reconhecendo sincronicamente a responsabilidade inerente ao acesso a um público. O sentido final da música escapa sempre ao controlo de quem os cria. Deste modo a música torna-se, entre exposição e apropriação, numa ligação contínua entre o artista, o ouvinte e os significados que dançam perpetuamente no imaginário interpretativo. Palco e futuro É em palco que os Prisão Platão sentem a sua música completar-se. O concerto é pensado como extensão da narrativa do EP, começando num registo mais contido e culminando numa revolução sensorial. A banda prepara-se para apresentar em breve este novo trabalho ao vivo, com o seu lançamento previsto para o início deste ano. O primeiro concerto de 2026 será dia 17 de janeiro no Tokyo Lisboa, numa noite organizada pelo próprio grupo e partilhada com Flor Girino, Folívora, Lesma e Pangeia. Para quem quiser debruçar-se no seu trajeto selvagem, a banda continua a deixar sinais nas plataformas digitais - Instagram , Spotify e YouTube . Fotografias: Prisão Platão.
- Ata de Eleição da Direção de 2025/2026
No décimo segundo dia do mês de dezembro do ano de dois mil e vinte e cinco, pelas dezoito horas, deu-se início, na Sala dos Núcleos e por conferência online na plataforma Zoom, à reunião de eleição da nova Direção do núcleo autónomo de estudantes Jur.nal. Por motivos de incumprimento de quórum, foi realizada uma segunda reunião, meia hora depois. Estiveram fisicamente presentes a Diretora-adjunta cessante Lara Cândido, a Diretora-adjunta cessante e Representante da Nova Law Students’ Union Margarida Saramago (e redatora com capacidade de voto), a Coordenadora Maria Lopes e o membro da Redação Matilde Almeida. Também esteve presente a Margarida Pereira, enquanto segunda Representante da Nova Law Students’ Union (ainda que não fosse necessário). Na plataforma Zoom, estiveram presentes o Presidente da Mesa da Assembleia Geral Filipe Pedro, a Diretora-cessante Beatriz Rodrigues, bem como os seguintes membros da Redação: João Ferreira, Eva Gonçalves e Matilde Aranha. Havia apenas uma lista candidata, doravante designada por Lista A. A Lista A era composta por Lara Cândido (Diretora), Maria Lopes, Matilde Almeida e Matilde Aranha (Diretoras-Adjuntas). Posto isto, procedeu-se ao ato de eleição. Cumprindo o disposto no n.º 1 do artigo 34.º dos Estatutos do Jur.nal, tiveram capacidade de voto todos aqueles que, até à data, estavam há pelo menos um semestre no núcleo, tendo-se também considerado que os membros da Direção cessante tinham capacidade de voto, de acordo com o n.º 3 do mesmo artigo. Assim, tiveram legitimidade eleitoral todos os presentes, à exceção da Representante da Nova Law Students’ Union Margarida Pereira e do representante da MAG Filipe Pedro. Recorreu-se à plataforma Strawpoll para realizar a eleição, tendo-se garantido o anonimato do voto, com as seguintes opções: A favor, Contra, Abstenção. Os resultados foram os seguintes: A favor: 8 Contra: 0 Abstenção: 0 A Lista A foi eleita com 8 votos a favor, 0 votos contra e 0 abstenções. Nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião pelas dezoito horas e trinta e seis minutos, da qual se lavrou a presente a ata, ficando a nova Direção em gestão até que aquela seja lida e aprovada em Assembleia Geral dos Estudantes da NOVA School of Law. Lara Alexandra Oliveira Cândido Lisboa, 12 de Dezembro de 2025
- 10 factos curiosos sobre a ilha da Madeira
Agora, cerrado neste terraço, contemplo as nuvens, nuvens essas que não consigo alcançar. Não consigo ou não quero? Resta-me olhar para o chão, para o andar apressado dos caminhantes. Eu já fui assim, como eles, penso. Mas depressa relembro a razão da minha condição. Por isso, escrevo. Escrevo não para sentir, não para me entreter. A verdade é que eu não sei porque escrevo. Apenas sei que sempre que escrevo me evado. Me evado para longe, para as nuvens, pelo menos tento. Frustrado fico, e rapidamente torno a escrever, e de novo frustrado fico. E é assim que passo os meus dias, frustrado, a olhar para as nuvens, viajando nelas, perdido, desejando todas as vezes que seja eterna a viagem, mas nunca é. Não é porque eu não consigo ou porque não quero? Curioso que vem-me sempre esta pergunta à cabeça, mas a resposta é inexistente. A resposta é inexistente... Por isso é que escrevo. Escrevo não para deixar de existir. Não para me evadir, como achava. Mas sim para existir, existir neste mundo em que não consigo existir .
- Rendez-vous
Por vezes sou mais calada e não falo muito. Não digo muito. Mas tenho muito para te dizer, Amor. Hei de escrever sobre tudo, Amor. Ouvir o que tens sentido e transformá-lo em texto, Que a minha ternura nunca teve pretexto. O coração não dorme nem come, não vai às análises, o coração não gosta que lhe espetem agulhas e lhe tirem o sangue. O coração não gosta de ser dissecado, porque tem medo de laivos de vulnerabilidade. O coração esconde-se de eletrocardiogramas, porque sabe que a medicina moderna não o compreenderia. O meu coração apanha o comboio em hora de ponta, senta-se na paragem do autocarro e espera que o venham buscar. O coração encosta-se ao mar e dá-te beijos enquanto olha para ele, Amor. O coração faz malabarismos, faz o pino e o mortal para te ter, Amor. O coração poderia ganhar o salto em altura mas cair desastradamente depois de te ver. O coração vive embebido numa ressaca emocional em função constante, vive em café, paracetamol e cigarros, de vez em quando sofre uma descarga elétrica que o põe a trabalhar. O coração encosta-se agora às entrelinhas do que escrevo e respira, com medo de que o abandones, Amor. Hoje em dia tudo é sobre ti, Amor. E quando não é, é sobre a tua ausência. Todos escrevem sobre todos os sentimentos do mundo, para que todos se possam identificar com as palavras. Deixemos o coração descansar, Amor. Deixemo-lo ser apático e vagaroso sem se tornar errático. Deixemo-lo num interstício, que eu hei de voltar para o ir buscar. O coração vira rendez-vous da saudade. Divide e multiplica a sua substância, expande, contrai, parou, acabou. Não sei se depois de morrer ainda cá volto, por isso deixa-me amar enquanto posso. Deixa-me amar(-te), Amor, enquanto posso.
- A poesia é toda igual
A poesia é toda igual Até quem diz não pensar Pensa em tal A poesia é toda igual Até se for peça fulcral E fizer o poeta voar Se for obra de jogral Ou tiver rima brutal Sobre as árvores do quintal Ou sobre o amor que quero cantar Mesmo tendo lição de moral A poesia é toda igual Sendo ela toda igual Que adianta rimar? É quase um ritual: Desenvolver o lobo frontal Talvez aumentar o capital Escrever algo para impressionar Brincar com a flexão verbal Ou venerar o que é sacral Seja uma obra humoral Uma epopeia narrar Pelo artista no hospital Ou pelo rico ilegal Temos que, afinal Não importa como acabar Na morte, toda ela é sepulcral A poesia é toda igual
- Sobre as Presidenciais
A melhor maneira de descrever o entusiasmo e o apoio que suscitam o Doutor Seguro, é comparando-os a um vampiro: anda, fala, até grita, pula e corre. Mas se lhe apertamos o pulso, não há batimento; se lhe abrimos a veia, não escorre pinga de sangue. Em janeiro, lá temos mais umas eleiçõezinhas. Que maçada. Ainda por cima, para o mais estranho de todos os cargos: a Presidência da República. Digo já: por mim, nem existia. A Chefia do Estado é da pertença exclusiva da Sereníssima Casa de Bragança, por herança histórica e direito divino. Infelizmente, há 115 anos, uma minoria jacobina achou que não era assim, que Portugal devia ser República, e impôs a dita cuja à força. O Estado Novo persistiu no erro. E quando chegou o regime dito “democrático”, o erro ganhou um manto de legalidade sacrossanta, incrustando-se entre os limites materiais de revisão do absurdo 288.º do folhetim constitucional. E assim vivemos neste paradoxo: o povo pode dizer quem quer para Presidente; só não pode é querer o Rei! Desgraçada lógica a dos constituintes… E por falar em desgraças, já viram os candidatos? Já vão em nove (!), todos diferentes, mas todos caducos. Façamos um sumário das peças, para realçar o horror. Comecemos pelos candidatos da extrema-esquerda, a Dra. Catarina Martins, o Doutor António Filipe e o Doutor Jorge Pinto. Sendo pessoas diferentes, desempenham o mesmo papel: representar um setor (temporariamente) moribundo da política portuguesa. É duro. Não lhes nego coragem. Mas deles não vai rezar a história: vão defender as barbaridades do costume; os da caravana vão ouvir e seguir caminho. Sem espigas. A seguir temos o Dr. Cotrim Figueiredo. Só vai a jogo porque sabe que vai perder. É um segredo mal-escondido que se houvesse uma sombra de hipótese de vencer, de ter de deixar a confortável vida de eurodeputado, com conta bem recheada e estadia em Bruxelas, nunca se meteria nesta alhada, nem mesmo por amor à camisola. Ou melhor, muito menos por amor à camisola! Por falar em candidatos que não querem ganhar, ei-lo: o Doutor André Ventura, man of the hour ! Aliás, não é que o Doutor Ventura não quer ganhar: ele reza todos os dias, ajoelhado no genuflexório do quarto, para levar uma abada na segunda volta! É que nem é pelo que podia acontecer ao país, que isso é-lhe indiferente – afinal de contas, ele é o político que em matéria de economia e finanças públicas defende, pela direita, todos os sonhos inconfessáveis da esquerda mais desvairada! -; é mesmo pelo que ia acontecer ao Chega. É que se o Doutor Ventura sai da liderança, o partido tem um grande sarilho. E se o Chega tem um grande sarilho, tremo de imaginar em que sitio os revoltados com os rotativos iriam depositar o seu furibundo voto “de protesto”. Depois temos o Doutor António José Seguro. A melhor maneira de descrever o entusiasmo e o apoio que suscitam o Doutor Seguro, é comparando-os a um vampiro: anda, fala, até grita, pula e corre. Mas se lhe apertamos o pulso, não há batimento; se lhe abrimos a veia, não escorre pinga de sangue. Há uns dias um comentador disse que os políticos decentes das democracias avançadas são mesmo assim, mortiços. A tese é boa, até porque, como é sabido, a Sra. Thatcher e o Sr. Churchill estiveram ao leme de uma nação do terceiro-mundo, em regime de transição… Por falar em leme, também temos na corrida o Sr. Almirante Gouveia e Melo. O seu capital político teve origem num facto absolutamente singular na política portuguesa dos últimos trinta anos: foi competente. Fez bem o seu trabalho. Por tão pouco, viu-se logo nele alguém desejável para a chefia do Estado. Se isto não diz tudo sobre a moderna política portuguesa, não sei o que mais dirá. O que sei é que com um capital político tão exíguo, não é de surpreender que as cada vez mais frequentes aparições façam deslizar o Sr. Almirante nas sondagens: de um ideal de ordem passou a ser apenas “mais um”. Por fim, temos o Dr. Marques Mendes. É o candidato que se ajusta ao Sr. Primeiro-Ministro. Como ele, farta-se de dizer platitudes. Também como ele, está sempre na posição de mudar de posição, conforme as conveniências. É o candidato da vacuidade política absoluta, muito ao gosto do PSD. Assim, não vale a pena alongar-me; deixo apenas uma pergunta: depois da ascensão de Ventura e da presidência de Marcelo, os portugueses vão mesmo dar poder a mais uma criatura da televisão e do comentariado? Como se vê, a safra de 2026 é francamente má. Mas condiz - com os tempos, com a elite, com o regime, e com o povo. Sim, com o povo. Nunca se esqueça que vivemos em democracia, e em democracia, o povo tem aquilo que merece.
- Guia turístico de Olivença: 10 coisas para ver em Olivença
Encontro-me perdido num sábado, ou será num domingo? Não sei. Apenas me recordo da sexta-feira passada. O que é que aconteceu na sexta-feira passada? O que devia ter acontecido. Encontro-me perdido num sábado, ou será num domingo? Não sei. Apenas me recordo da terça-feira passada, que me fez esquecer aquela sexta-feira. O que é que aconteceu na terça-feira passada? O que não devia ter acontecido. Nadei naquele mar azul, alegre e triste. Ainda bem que aconteceu, digo para mim mesmo. Perdi-me naquele mar azul, alegre e triste. Quem me dera que nunca tivesse acontecido, digo para mim mesmo. O que é que aconteceu na sexta-feira e na terça-feira passadas? Exatamente.
- Sinto um tsunami léxico em mim
Sinto um tsunami léxico em mim: As palavras, expressões e metáforas Sobrepõem-se e eu, sem âncora, Afogo-me neste oceano sem fim. Numa tentativa infrutífera de emergir, Deixo-me levar pela forte corrente - Transponho para o papel, desordenadamente Todas as ideias provenientes do seu surgir. E no momento em que sinto elevação, E capto os raios solares refratados, Retorno à penetrante e marítima escuridão. Para sempre assim eu hei de permanecer: Aprisionada nas profundezas dos meus intrincados Pensamentos; na minha maresia de ser.
- O império Mongol: a história de Gengis Khan
Tentado. Sinto-me tentado a abrir a janela e voar, perder-me no horizonte, ou então ficar aqui e andar. Mas não posso. Não consigo. Tentado. Sinto-me tentado a ser feliz, viver a vida, não pensar ou talvez não sentir. Mas não posso. Não consigo Tentado. Sinto-me tentado a largar tudo e dormir, ou talvez agarrar-me a tudo e viver. Mas não posso. Não consigo. Tentado. Sinto-me tentado.
- Concurso de Escrita 2025 - textos a concurso
Lê aqui os textos a concurso e vota no teu favorito através do link: https://strawpoll.com/NMnQNeJ3Yg6 Texto 1: Chocker How many pearls does it take To reverse all my stringy Mistakes? How many pearls shall I swallow To break free from my Troubles and sorrows? How many pearls have I had? There are none of them left in My stash; but I stirred and I roused from the tangles of lunacy, To unknot all the tethers that Throttled me brutally, And to lose all desire to swallow My pearly beads. Isso é para dizer que me parece equivocado afirmar que vale a pena estar vivo. Não basta apenas estar vivo - tem de se viver. Viver é um ato de amor. Amor este que te atinge como uma bala perdida em meio a um tiroteio. E os efeitos são catastróficos. Mortíferos. Sanguinários e absolutamente irresistíveis. A vida presta! Texto 2: 10 factos curiosos sobre a ilha da Madeira Agora, cerrado neste terraço, contemplo as nuvens, nuvens essas que não consigo alcançar. Não consigo ou não quero? Resta-me olhar para o chão, para o andar apressado dos caminhantes. Eu já fui assim, como eles, penso. Mas depressa relembro a razão da minha condição. Por isso, escrevo. Escrevo não para sentir, não para me entreter. A verdade é que eu não sei porque escrevo. Apenas sei que sempre que escrevo me evado. Me evado para longe, para as nuvens, pelo menos tento. Frustrado fico, e rapidamente torno a escrever, e de novo frustrado fico. E é assim que passo os meus dias, frustrado, a olhar para as nuvens, viajando nelas, perdido, desejando todas as vezes que seja eterna a viagem, mas nunca é. Não é porque eu não consigo ou porque não quero? Curioso que vem-me sempre esta pergunta à cabeça, mas a resposta é inexistente. A resposta é inexistente... Por isso é que escrevo. Escrevo não para deixar de existir. Não para me evadir, como achava. Mas sim para existir, existir neste mundo em que não consigo existir. Texto 3: O meu jardim é um cemitério O meu jardim é um cemitério de todas as flores que matei. De todas as vítimas inocentes dos golpes que nelas desferi antes que os seus espinhos me pudessem picar – o meu sangue por ninguém alguma deixarei derramar. De todas aquelas cujo caule cortei antes que pudessem florescer, impedindo que colorissem a paisagem de pedra cinzenta com as suas cores vivas e radiantes. Das suas irmãs, cujas pétalas fui condenando a uma morte lenta – arrancando-as uma por uma – por fim deixando que o vento as rasgasse definitivamente, levando-as para um paraíso longe de terras tão inférteis. No meu jardim jazem restos de raízes a quem nunca dei oportunidade que entrassem na minha terra para que dessa fizessem um lar só seu, onde acolheriam os mais saborosos frutos. Restos de troncos de árvores robustas – agora ocos e cobertos de musgo – deixadas ao abandono por uma jardineira tão pouco atenciosa que, no fundo – talvez por medo – não soube cuidar do que plantou. Hoje, o meu jardim já não é mais do que fantasmas de tudo o que poderia ter sido: cacos dos vasos em que poria as minhas plantinhas mais delicadas, folhas secas que me prometeram nunca cair, flores murchadas pelo ar agreste, ossadas de árvores arrancadas precocemente e túmulos de todos os frutos que enterrei antes que pudessem sequer nascer. Texto 4: "Uma mente clara é uma realidade perdida" Um deslize do grafite à direita é um erro cometido na realidade à esquerda. De repente, tudo parecia desalinhado. Está tudo errado. A realidade que alguma vez cogitei alcançar já não existe. A criança dentro de mim já não existe. O desenho ficou esquecido, a mente ficou esquecida, o gosto ficou esquecido, a felicidade ficou esquecida. O peso dos passos, o sentimento de ineficiência ficou, por sua vez, bastante conhecida. Já não me reconheço porque não há nada para reconhecer. Já não sou eu. A minha constante culpabilização foi algo que o papel já escreveu. Não precisou de tinta, na realidade ninguém a detinha. Uma vez o meu refúgio, para sempre um tempo perdido. Esta realidade não foi o que pedi. Esta dificuldade não foi o que pedi. O desenho morreu quando a alegria esmoreceu. Tentaste mais uma vez, em resposta o dia entristeceu. Querias continuar, mas o mundo te obrigou a abrandar. Na altura não compreendeste o porquê. Só assim conseguiste desenhar de novo. Só assim conseguiste ser tu de novo. Texto 5: Samba e Amor Capítulo 1 Dizem que Paris é a cidade do amor, mas foi Lisboa que me cativou. Não foi à primeira vista, nem num instante mágico — foi aos poucos, no modo como o sol se deita sobre os telhados e a cidade parece suspirar. Lisboa tem algo de imperfeito, de inacabado. E talvez seja exatamente isso que me encanta. As fachadas gastas, os azulejos partidos, o som distante do Tejo — tudo nela me lembra que a beleza também pode morar nas falhas. É uma cidade que nunca termina, sempre em construção, como eu, como ele, como nós. À noite, as luzes refletem-se nas calçadas e ele sorri, como se a própria cidade iluminasse os seus cabelos longos dourados. Os moradores fumam nas varandas, a lua cheia pousa nas janelas e o vento traz o cheiro do rio. É nesses momentos que percebo: Lisboa não me cativou sozinha. Foi ele, foi a forma como caminhámos juntos pelas ruas estreitas e tortas, como se a cidade nos observasse em silêncio. Lisboa guardou-nos assim: imperfeitos, inacabados, porém genuínos. Naquela noite de uma quinta-feira qualquer, o céu estava limpo e a lua cheia parecia rir lá de cima, como se soubesse o que estava prestes a acontecer. Assim que o sol se despede, é a lua quem assume o comando — chamando para si todos os apaixonados da cidade. E entre eles estávamos nós: dois loucos, dois amantes, dois sonhadores, duas crianças ingénuas a brincar com o destino. Apaixonados pela vida, pela música, por essa mistura improvável de bossa nova e jazz a ecoar pelas ruas de Lisboa — um toque de Brasil perdido na Europa. “A vida é uma loucura! Tudo começou com um simples convite para apreciar a beleza da mãe natureza.” - pensei. E, sem perceber, estávamos ali, rendidos a algo maior do que nós. Palavras não bastam para explicar o que Lisboa me faz sentir — esse tesão de viver que nasce do nada, como um incêndio que se acende dentro do peito. Talvez isto não leve a lugar nenhum, talvez acabe como tantas outras histórias que começam no impulso e morrem no silêncio. Mas uma coisa era certa: foi genuíno. Fui apenas uma louca escritora a partilhar a alma com outro louco. E que assim seja — que os loucos se encontrem, sempre. Porque “A noite pertence às putas, aos poetas e aos que morrem de amor” . Ao som do jazz, num bar de estilo antigo e atemporal — escondido numa rua discreta de Lisboa, um refúgio secreto, onde os cocktails são pequenos prazeres e a música envolve o espaço por completo, com álbuns inteiros a tocar do princípio ao fim, criando uma atmosfera íntima e atemporal — com as luzes baixas e o ar impregnado de desejo, estávamos nós dois, dois loucos, como se o mundo inteiro se resumisse àquele instante. Fazíamos amor por telepatia, sem tocar, apenas com o olhar, enquanto o vinho tinto escorria entre os lábios e o som do saxofone preenchia o silêncio. Cada nota parecia empurrar-nos mais fundo nesse jogo de provocações. Havia algo de hipnótico nele. Cada vez que os nossos olhos se cruzavam, eu sentia o corpo reagir — ele não me tocava, mas penetrava-me com o olhar. Penetrava-me os pensamentos, a mente, a respiração. Penetrava-me de um jeito que era quase físico, como se o corpo já não precisasse mover-se para sentir. Era uma invasão lenta. Ele atravessava-me por dentro, desmontando-me em silêncio, como quem lê um segredo que eu própria não sabia que guardava. E eu deixava. Deixava que ele me penetrasse com o olhar, com a presença, com o jeito de dizer nada e, ainda assim, dizer tudo. A partir desse momento, percebi que já me tinha rendido. Já não havia defesa possível. Seria tesão ou loucura? Talvez os dois. Os nossos corpos conversavam num idioma que ninguém mais entenderia. Um idioma feito de respirações, silêncios e desejos. Depois, num impulso quase infantil, fomos saborear aquelas delícias quentes e cheias de especiarias do Médio Oriente, o kebab , mordendo cada pedaço entre risadas e silêncios cúmplices, enquanto vagávamos pelas ruas, cruzando-nos com pessoas que acabavam de sair do trabalho e pareciam alheias à nossa pequena loucura. Ríamos das migalhas, da mistura entre o luxo e o improviso. Ele me olhava como se eu fosse um poema que ele ainda não sabia decifrar. Seguimos a pé até um parque não muito escondido, desses que parecem ter sido criados só para guardar segredos dos amantes. A cidade dormia, mas o mundo inteiro parecia acordado dentro de nós. Sentamos num banquinho e ficamos ali, falando sobre tudo — sobre a vida, o tempo, os medos, os sonhos, as coisas pequenas que ninguém mais entende. E de repente o silêncio entre uma frase e outra se tornou um convite. Foi ali que começamos a nos amar, devagar, entre beijos demorados e risadas idiotas, como duas crianças que acreditam que o amor pode durar para sempre. Ele tocava me como quem descobre uma canção antiga. E eu me deixei ser melodia. Era respiração ofegante, quase um murmúrio entrecortado pelo som da água a escorrer pela pele. A boca sabia a sal, a suor, a desejo. Havia algo de sagrado e profano naquele instante em que tudo se misturava — o calor do corpo, o sabor do outro, o delírio de tanto nos beijarmos. Fazíamos amor por telepatia, mais uma vez. Sem precisar de tocar, bastava o olhar, o pensamento, o simples gesto de respirar ao mesmo tempo. Era como se o chão, o mar e a lua se encontrassem em nós. Tudo pulsava no mesmo ritmo: a música, o corpo, o tempo. Era mania, era febre — essa coisa dele que me queimava por dentro. De tanto imaginar loucuras, já não sabíamos onde acabava o sonho e começava o real. Ele puxava-me pela cintura com uma urgência tranquila, como quem teme o fim, mas quer viver até ao limite. E então, por um segundo eterno, soubemos apenas isto: estávamos vivos. Nada mais importava. Nem o depois, nem o antes. Só o agora, esse instante suspenso onde o amor e o delírio se confundem. A caminho de casa, tocava Bossa Nova no carro. E ali estávamos nós, dois loucos a cantar desafinados pelas ruas de Lisboa, enquanto as luzes da autoestrada piscavam como estrelas elétricas no meio da noite. A cidade passava devagar pelas janelas e eu sentia aquela estranha e doce sensação de que tudo, por um breve instante, estava exatamente no lugar certo. Ele segurava o volante com uma calma quase ensaiada, e eu, encostada no banco, deixava a cabeça pender ligeiramente para o lado, observando a lua que nos seguia lá fora, cúmplice, curiosa, eterna testemunha dos amores que nascem do nada. Foi nesse instante que percebi que até o que parece inteiro tem as suas falhas: nas cidades, nas pessoas, no amor. Ninguém completa ninguém. Encontramo-nos, apenas isso, e durante um breve momento acreditamos que um beijo consegue segurar o infinito. Lisboa ensinou-me isso: que o bonito vive no intervalo, no quase, no agora. No que sentimos sem pensar demasiado, sem medo do depois. Talvez nunca mais nos cruzemos, talvez tenha sido só uma noite. Mas foi aquela noite — a que fica presa na memória como um perfume que não se quer lavar da pele. E se algum dia me perguntarem o que é o amor, direi que foi ele. Foi Lisboa. Foi a lua cheia a espreitar por entre prédios antigos, o jazz perdido num bar que nem sei nomear, a culinária do Médio Oriente partilhada às gargalhadas, a Bossa Nova a rodar no carro enquanto as nossas vozes desafinavam sem vergonha. Foi o silêncio confortável, o riso fácil, a sensação absurda de que o mundo parou só para nós dois. E naquele segundo, apenas naquele, tudo pareceu possível. Foi samba e amor…
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