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  • O sonho de um caloirinho

    O calor de agosto é exuberante e este ano parece até infernal. Soube que entrei na minha primeira opção e que vou ser o primeiro da minha família a frequentar o ensino superior. Vou sair da minha terrinha do interior num autocarro interminável, ou até atravessar o Atlântico, para estudar na capital. Deixo a minha família para trás e trago comigo apenas sonhos e aspirações de ser mais do que os meus pais conseguiram ser. Encontrei um quarto a 40 minutos da faculdade e os meus pais vão ter de dar metade do salário deles para pagar a renda. Mas tudo isto vale a pena. Vou formar-me, arranjar um bom emprego e retribuir tudo o que os meus pais fizeram por mim.  Almoço sempre em casa porque a refeição social está cada vez mais cara. Mas tudo bem, isto constrói independência. Estudo, cozinho, lavo a roupa e limpo a casa como todos os meus colegas.  Evito gastar dinheiro em coisas desnecessárias. Ninguém precisa de comer três refeições por dia para ser saudável e, quiçá, consigo poupar cinco euros da minha mesada para marcar uma consulta nos serviços de psicologia da faculdade.  Adoro Lisboa e a minha rotina. Só tenho de fazer tudo e mais alguma coisa: ter boas notas, construir um bom currículo e orgulhar os meus pais que nunca tiveram esta oportunidade. Não faço mais do que todos os meus colegas. Bom… menos aqueles que chegam a casa e já têm o jantar feito, a roupa lavada e uma mesada igual ao salário do meu agregado familiar. Mas tudo certo. Tenho uma oportunidade e acredito na meritocracia. Só tenho de me esforçar.  Recebo uma chamada de casa. A rede é instável, mas com as saudades que tenho só quero ouvir a voz deles. O meu pai, entre cortes e ruídos, diz-me que precisamos de falar.  Automaticamente penso que alguém está doente ou que algo correu mal. Mas não.  Ele diz-me que o que eu achava que tinha ganho com o meu esforço e com o sacrifício dos meus pais me vai ser tirado. É demasiado caro. A renda, as despesas, as propinas descongeladas. Os meus pais não aguentam e não lhes posso pedir mais.  Regresso a casa. Com uma chamada e uma medida do governo acabou o sonho de um caloirinho.

  • I have a dog in me… and it’s killing me

    Eu amo como um cão.  - I'm not your pet. I never liked you. I don't care about you. I won't wait for you. I bite. - Mas é mentira. Eu sou um bom cão. Não sou selvagem.  - I'm not a violent dog Apenas procuro o incondicional amor de um dono, de uma trela que me abrace o pescoço. Desesperada por uma festa na barriga, por alguém que me dê uma casa e me ponha comida na taça. Acho deveras triste. Amar como um cão e desejar ser amada como um gato.  - I bet on losing (dogs) owners Cresço cansada. Exausta e drenada desta corrida. Cansada de saltitar com a cauda a abanar para a porta quando te oiço chegar e ser recebida com o mínimo dos interesses. Exausta de correr por campos, de fazer passeios longos, caçar pardais e de te trazer pequenos presentes, para que possas ver o quão boa e atenciosa eu sou. Drenada de esperar sentada para sentires tanto a minha falta como eu sinto tua, para decorares cada movimento, cada interação, cada gosto meu como eu faço por ti.  Pensas em mim? Pensas em mim quando não ocupamos o mesmo espaço, quando não respiramos o mesmo ar, quando não nos prendemos num beijo. Pensas em mim? Na minha presença? No meu riso? Ou apenas desejas passar a mão pelo meu pelo?  Olho para ti como um deus, com a alma embebida em divino, cavo a terra sôfrega à procura de sinais do universo, pois é isso que as pequenas coincidências têm de ser: sinais de que talvez sejas tu o meu dono, finalmente.  Não faz mal que nunca me alimentes o suficiente para eu ficar saciada, que não me dês água que chegue para que eu possa matar a sede, que não brinques comigo se eu não vier ter contigo com uma bola entre dentes.  Amanhã será um novo dia e a qualquer altura poderás melhorar e dar-me o que eu preciso, e tudo o que eu tenho de fazer para receber o que mereço…é esperar. E eu não me importo de esperar. E enquanto espero eu faço todos os truques. Dou a pata, rebolo, sento e finjo de morta, perguntando-me quanto mais tempo até deixar de fingir, até ser consumida por completo por esta procura gananciosa. Faço todos os truques até os que vão para lá dos meus desejos e ponho sempre a língua de fora quando me é pedido. Uma carícia e um elogio solto preenchem o vazio no meu peito.  Será que um dia apenas serei lembrada pelos meus truques? Depositarei eu todo o meu valor nisto? Será que isso basta?  Por favor diz-me que basta eu não sei mais o que fazer.  Se eu fizer mais truques ficas mais um pouco?  Não faz mal. Não faz mal se me chutares. Não faz mal se me pisares. Não faz mal se me tocares. Não faz mal se me gritares. Podes depositar em mim todas as tuas frustrações. Se precisares de um tempo podes pedir. Se não estiveres bem, eu faço o esforço pelos dois. Não tens de te preocupar em pôr comida na minha taça. Estas migalhas bastam. Eu não vou a lado nenhum.  Eu não vou a lado nenhum… - I am the losing dog. The runt of the litter - Este vazio, dobra-me, assombra-me e sufoca-me. Eu sou tão boa. Por favor, eu sou tão boa. Deixa-me provar. Deixa-me provar que mereço. Que mereço mais do que uma ocasional festa na barriga, uma ocasional palavra de carinho, que mereço devoção, esforço e bondade. Por favor. Por favor, escolhe-me. Da ninhada escolhe-me a mim. Não precisa de ser para sempre. Se te cansares podes me devolver e voltar quando quiseres. Por favor, só te peço um pouco. Escolhe-me durante um tempo, por favor. Talvez assim eu saberei que sou suficiente. Por favor, Deus, deixa-me sentir que sou suficiente.  Oh meu deus, como eu estou cansada. Oh meu deus, como não aguento mais ser sôfrega. Eu não consigo mais seguir este caminho. Eu não consigo mais ser um cão. Dói-me tanto. Esta sombra que eu carrego no peito queima e sutura qualquer ferida.  Por favor solta-me desta amarra, desta armadilha que me quebra os ossos e me arranca a carne.  Eu quero morder. Eu quero latir. Eu não quero ser um ser dependente dos meus truques, da minha pelagem lustrosa, do meu cio.  Por favor. Por favor solta-me, que este desespero não me deixa respirar.  Livra-me desta forma, deixa-me viver em duas patas. Eu não quero ser um cão. Um cão que em qualquer vulto vê um dono. Nada importa. Nada importa sobre o meu dono. O seu nome. Como é. Só importa que me queira. Que estupidez, que doença, que humilhação. Eu recuso-me. Recuso-me a continuar esta corrida. Acabou. Dei a minha última volta, procurei o meu último sinal, comi pouco pela última vez nesta taça, não voltarei a rebolar e a dar a pata.  Exijo a mim, a mim e a mais ninguém, que me deixe ser suficiente, que viva por mim e não à espera de um dono que não me mereça, pois esta vida apenas a mim me pertence. Eu que mato a minha sede, eu que como até estar satisfeita, eu que afago os meus próprios cabelos, eu que me amo tanto, não irei raspar o fundo de um tacho tentando que alguém seja melhor por mim, não irei deixar a porta aberta para que possam retirar da minha mesa sem nada deixar, não me irei sentar quieta a aceitar as migalhas finais, não irei esperar que alguém me deseje intensamente, pois neste mundo inteiro não haverá ninguém que me irá desejar ou me completar tanto como eu. Aqui abdico desta dor, abdico desta busca, abdico desta necessidade.  Abato este cão que vive atrelado ao meu peito, tremendo no frio, implorando por uma mão quente. Não serei eu conhecida por viver esperando que alguém venha e me leve a passear, mas serei conhecida por caminhar erguida contemplando o meu caminho, banhando-me na minha companhia e se alguém digno desta se quiser juntar, será bem-vindo a partilhar comigo os meus passos.  Aqui foi abatido este rafeiro carente, doente por amor, desesperado por um dono.  I have the dog in me...but now I will set it free.

  • O Direito nunca será democrático

    Sempre achei curiosa a mentira sobre a independência dos tribunais. Não é mentira a noção de os tribunais serem órgãos com autonomia, mas retirar-se, dessa autonomia, esta ideia tão reiterada – de que os juízes são, de alguma forma, meros tecnocratas, e aplicadores da lei – é tão autoevidente que parece ridículo esta ter nascido de todo. Veja-se o exemplo mais direto, mas também o mais perigoso – é o parlamento que elege 10, em 13, dos juízes do Tribunal Constitucional. Os restantes são escolhidos pelos juízes eleitos pelo parlamento. Estas são as figuras que, durante os próximos anos, e com consequências na escala das décadas, irão definir, e redefinir, conceitos como liberdade , igualdade , soberania , e casamento  (para os que se importam com isso). Assim, o Tribunal Constitucional nada mais é que uma extensão da soberania política do parlamento, e, indiretamente, também são uma extensão do executivo, que, com o parlamento certo, por ele atua, e do poder do povo, que irá configurar o parlamento que os irá eleger.  Por isso, é forçoso concluir que os juízes são políticos de toga. Mas não temos de ir tão alto. Todos os tribunais são tribunais constitucionais, e todos têm, nas suas mãos, definições políticas para balizar. No processo penal, cabe ao juiz, pela sua vontade e opiniões, controlar a vida de todos os criminosos. E, na escola, podemos ensinar artigos, e princípios, e procedimentos, mas não podemos nunca ensinar um jurista a ser bondoso com o seu poder. Podemos ensinar-lhe o princípio da liberdade, mas não o podemos ensinar a querer saber sobre liberdade. Damos-lhe as ferramentas, e, se assim quiser, poderá matar, desde que com a fundamentação certa. O Estado Moderno de Direito, mais do que uma infraestrutura democrática, requer uma classe jurídica dirigente, insulada do restante mundo, que aí chegou, por uma mistura de estudo meritoso e herança corrupta, cuja palavra é valorizada pela restante sociedade porque assim se convenciona, e cuja interpretação das palavras, das doutrinas, ininteligíveis ao comum dos mortais, poderá alterar radicalmente a ordem do mundo. Nós não somos, nem uma aristocracia, nem do povo. Nós somos a continuação do clero. E é por isso que nunca seremos democratas.  A expressão máxima da Democracia no Direito seria a guilhotina. E temos de fazer paz, e guerra, com este facto. De que somos políticos disfarçados, e que com este poder podemos ser santos, ou diabos. Nós vemos nos Estados Unidos o que acontece quando fingimos demasiado tempo de que os juízes são neutros, e não políticos a serem criticados e atacados, como qualquer outro político. O Supremo americano é, atualmente, um dos pilares fundamentais desse fascismo, e da destruição desse Estado de Direito. Foram os doutores da lei que entregaram, de mão beijada, ao presidente americano, imunidade legal. Entre o respeito à lei e o mal, os diabos escolherão sempre o mal. Os santos que empreguem a lei como a arma que é, e a arremessem de volta, em nome do bem.

  • Carta Aberta ao Ambientalismo Vazio

    Se esta é a ressonância da nossa geração, então precisamos urgentemente de afinar a frequência. Queremos ressoar com os jovens, mas o eco que fica é o da artificialidade e da apropriação oportunista do discurso ambiental. Perdoem desde já a raiva que provavelmente vai transparecer nesta minha partilha, mas há limites quando falamos da imagem dos meus pares, da minha Instituição, e, primordialmente, do futuro do nosso planeta. Já chega de reclamar em surdina de atos vazios e eticamente questionáveis, prejudiciais para causas que nos tocam a todos. Da hipocrisia do uso indiscriminado da inteligência artificial, das palavras vazias, do culto à personalidade do líder e da normalização da cultura das cunhas, ao ativismo vergado ao sistema e ao status quo: É altura de falar contra as ações que atentam à inteligência de quem acredita que o direito e o ativismo ainda podem mudar o mundo. Comecemos pelo mais simples. A defesa dos interesses do meio ambiente pura e simplesmente não se coaduna com o uso óbvio, indiscriminado e quase transparente de inteligência artificial, não apenas para a criação de legendas e artigos publicados por meios que se dizem respeitados como para a geração de imagens de forma constante. Os recursos naturais e hídricos gastos pintam de hipocrisia qualquer mensagem profunda que abstratamente estaria a ser partilhada. Contudo, esse conteúdo não existe. Porque de facto se somos lacaios do sistema, o ativismo torna-se muito rapidamente uma ferramenta de propaganda pessoal desprovida de impacto e ideias.  Quando os membros principais do culto escrevem textos e opiniões badalados que são apenas uma junção de buzz words em inglês, repetições poéticas, mas pouco impactantes, e a inexistência de uma qualquer ideia, torna-se difícil justificar a existência e a ocupação de espaço no limitado mundo da proteção ambiental nacional. Mencionar que “é urgente repensar o enquadramento legal [das ações de grupos ambientalistas como a climáximo]” sem identificar o enquadramento existente ou fazer uma proposta de alteração é somente vender palavras vazias numa análise a que nenhum professor de direito daria nota positiva. Mas está no melhor interesse dos ativistas que vivem no bolso das grandes corporações propor como medida para o futuro do ambientalismo nacional que os jovens “walk the walk” e “talk the talk” como se o inglês emprestasse seriedade a discursos repetidos e reciclados em vários podcasts. Falamos pelos jovens, e “subsidiamos a educação” porque gostamos de “acesso”, mas usamos IA para gerar imagens em vez de colaborar e dar espaço e voz a artistas que partilhem das alegadas cores ideológicas vendidas pelo culto de que falamos. Somos os jovens, mas não falamos de interseccionalidade, grupos económicos ou interesses políticos porque não queremos afastar os nossos patrocinadores, não queremos alienar o nosso futuro patrão. Mas sejamos honestos: ninguém esperava mais de um projeto que é, na prática, a imagem de capa da cultura de cunhas nacional Se nos despirmos dos receios que colocam nos bastidores o que tem sido dito e repetido por tantos de nós, há uma conclusão repetida: Há grupos que são nada mais, nada menos, do que uma plataforma de publicidade criada em torno do líder supremo “Fundador e Presidente” e dos seus lacaios numa desesperada tentativa de apanhar o comboio do maior lucro possível por menor competência. De que serve saber direito, concluir o curso com sucesso, pensar criticamente, quando é tão fácil fingir a competência que cabe tanto mais a outros?  Esta apropriação da educação, do ativismo e da justiça ambiental é um insulto à minha universidade, à formação jurídica que recebemos, e ao futuro que dizemos defender. Não podemos continuar a fingir. Se almejamos um Direito ao serviço da maioria, do planeta e da justiça intergeracional temos de romper com esta cultura de fachada. A mudança começa por dizermos, com clareza, o que muitos já pensam. Não se trata de negar a importância de iniciativas que queiram aproximar o Direito e o ativismo. Mas exige-se responsabilidade, exige-se que não se brinque. Que se critique de dentro, com seriedade, com conhecimento e com humildade.

  • A NOVA foi de ERASMUS à terra da falta de bom senso

    E levou na mala meia dúzia de ideais plastificados, uma vontade difusa de mudança e um  mapa onde o destino final é sempre o conforto.  Foi com ar de quem sabe muito e vive pouco, embriagada em certezas sobre sistemas que mal  compreende, e com uma língua afiada para criticar o mundo, mas incapaz de se cortar ao espelho.  Aqui, reclama-se da carga horária como se os corredores da universidade fossem minas  de carvão, mas mal aparece um professor que exige mais do que a média, que trata o ensino como  uma entrega humana e não um serviço de catering académico, que é imediatamente acusado de  ser vaidoso, antiquado ou opressor.  Não se quer aprender, quer-se passar. Quer-se um diploma com aplausos, currículos com tachos  e quotas sem espaços.   Se o professor exige, é arrogante, se não exige, é desleixado. E no fim, é sempre o sistema que  falha, nunca a preguiça do estudante.  Curioso também é o compromisso político.  Denuncia-se o racismo institucional com frases copiadas de artigos que nunca se leram até ao  fim. Grita-se contra o machismo, contra o classismo, contra o capitalismo, tudo com a confiança  de quem nunca teve de enfrentar verdadeiramente o que denuncia.   E, no entanto, os mesmos que aplaudem estas palavras são os que votam sempre nos mesmos, os  que se emocionam com o discurso bonito e esquecem o vazio por trás. Lutam com emojis.  Revoltam-se com partilhas. Mas, quando chega o momento de levantar a voz, de encarar um  colega, um professor, um dirigente, quando chega a hora de dizer: “Isto está errado” calam-se.  Calam-se por medo. Calam-se porque nunca o disseram antes. Porque, é mais fácil ser corajoso  num texto que começa com um “Desculpa, alguma coisa” do que perante algo que possa ser  verdadeiramente constrangedor.   Veneram a negligência, desde que ela venha com carisma. Acreditam em causas, desde  que não impliquem desconforto. E, se num domingo à noite quando o mundo lhes aparece no  ecrã, numa guerra, numa tragédia, num escândalo…sentem algo. Sentem, sim, mas sentem como  quem vê um filme triste. Comovem-se, mas não se movem. Suspiram, mas não agem. Sofrem  durante dois scrolls e depois voltam ao vídeo do cãozinho.  São rápidos a comentar o erro do árbitro, o VAR, o penálti mal marcado…aí há paixão,  há força, há convicção. Mas são lentos, muito lentos, quando se trata de enfrentar a mediocridade  real. E não é que não saibam falar. Sabem falar muito bem. Sabem indignar-se. Sabem citar.  Sabem teorizar. Só não sabem agir. Ou não querem. Porque a ação exige corpo. E o corpo, esse,  está colado à cadeira, à desculpa, ao medo de falhar.  E o moralismo académico não falta, condenam o consumo, a exploração, o trabalho  mecânico, com a solenidade de quem nunca pegou numa esfregona.   Há pena, sim…pena quase poética, por quem estuda e trabalha, mas nunca desejo de ser como  eles. Quer-se liberdade, quer-se autonomia, mas sem largar o cordão umbilical dourado da mesada  mensal. Vivem, por isso, esmagados por uma culpa vaga por ainda dependerem dos pais, mas  recusam, no seu estoicismo folgado, a rotina do operário, o suor do salário, o horário picado.  Porque isso, é indigno. Porque isso é outro mundo. E esquecem que esse mundo os espera… no  fim do curso, ou no fim da ilusão.  O mundo onde ninguém lhes vai perguntar o que pensam, mas sim o que sabem fazer. E ainda, criticam tudo, a estrutura, os professores, o curso, o país, o mundo… mas não  mexem uma vírgula do que podem mudar. Não exploram, não questionam a sério, não vão ver  com os próprios olhos. Falam de bolhas, mas nunca saem da sua. Falam de opressão, mas  recusam-se a cair. Porque cair exige coragem. E coragem, aqui, é o mesmo que dizer que te vais  candidatar a uma lista.   Aqui, prefere-se o sarcasmo à entrega. Prefere-se parecer lúcido a ser vulnerável. Prefere-se  criticar quem tenta do que tentar com medo de falhar.  Vivem numa bolha decorada a slogans, onde se repete a performance da consciência sem  nunca a sentir. Patos mimados num lago morno, com as penas bem arranjadas e o ego bem polido,  que preferem dar voltas em círculo do que arriscar o salto para o desconhecido. O desconhecido  assusta. O real assusta. O compromisso, por sinal, também assusta.  Não vivemos num jardim. Vivemos num palco. Num cenário pintado com luzes LED  onde as flores são compradas em centros comerciais e os protestos são feitos com likes. Aqui, ninguém quer ver, quer ser visto. Ninguém quer mudar, quer parecer transformador.   A NOVA não foi de ERASMUS. Fugiu de si. Fugiu da frustração que dói e preferiu a  revolta que entretém. E mesmo lá longe, entre conferências e selfies, o espelho vai junto. E ele ri se. Ri-se de quem grita por justiça, mas não a pratica no dia-a-dia. Ri-se de quem exige escuta,  mas não sabe ouvir.   E ri-se, acima de tudo, de quem sabe tudo sobre o mundo, menos sobre si.

  • Como lidar com Israel, os nazis do nosso tempo?

    Este artigo não se debruça sobre se existe um genocídio em Gaza: existe. Negá-lo equivaleria a negar as leis da física, e não pretendemos gozar com a gravidade da situação. Este artigo também se recusa a entreter o bom gosto da metáfora: a comparação não é um insulto às vítimas do Holocausto; Israel é.  Não, este artigo serve, pura e simplesmente, para refletir sobre o que pode parar os nazis do nosso tempo de perpetuarem o seu genocídio. Organizemo-nos por camadas, do mundial ao local. A primeira solução, óbvia e antiga, é a da intervenção militar. Uma invasão, um D-Day, portanto, por parte das Nações Unidas, seria apenas complexa na logística. Temos como precedente, por exemplo, a Guerra do Golfo. Infelizmente, o Conselho de Segurança, com o veto americano, nunca aprovaria tal justiça.  Passemos ao continental. A Europa é o principal parceiro comercial de Israel. Tal deve acabar. Não falamos de meros boicotes ao que vier dos colonatos, ou parar de enviar as armas que matam crianças palestinas - isso é óbvio, e o facto dos dirigentes políticos europeus não se dignarem a tal mínimo não o torna menos óbvio.  O que deve acontecer é a rejeição total de Israel. Embargos comerciais completos, cortes de relações diplomáticas, e o reconhecimento pleno da Palestina enquanto estado soberano. A verdade é que Israel necessita do apoio ocidental para continuar, e se não podemos contar com a América para o fazer, só a União Europeia, na sua majestade colossal, pode estrangular estes nazis. Não é essa a vontade dirigente, claro. Para os órgãos europeus, Israel é um mero parceiro, e assim, se fazem tantas parcerias militares, comerciais, científicas que poderíamos confundir este país com um membro pleno da União. E estes órgãos europeus, os partidos europeus, os políticos europeus, devem ser convencidos, e assediados, pela comunicação social e pelo mundo físico que os rodeia, a tomar as decisões corretas. (E sim, claro que Israel se deve juntar à Rússia na Eurovisão.) Isto leva-nos, claro, ao nacional, e ao local. Em parte, aplicam-se os mesmos princípios: Portugal, deve, no mínimo, cortar relações diplomáticas e comerciais com Israel. A direita portuguesa está-se objetivamente, a marimbar para os milhares (um dia dirão milhões) de mortos. Devem ser escrutinados até tomarem a decisão correta, tal como outros partidos são quando apoiam, de uma forma ou outra, regimes fascistas e genocidas. Ao nível local, podemos opinar, por esta e outras formas, influenciando o discurso político cada vez mais, balançando o pêndulo cada vez mais contra o novo Reich. E, cirurgicamente, o protesto e a ação direta. Em 2023, o embaixador israelita, Dor Shapira, foi convidado a dar uma aula no nosso Mestrado de Direito e Segurança. ( https://novalaw.unl.pt/en/open-class-on-security-and-geopolitics-abraham-accords-conflict-peace-and-diplomacy-in-the-great-middle-east/) A Nova que se atreva a fazê-lo outra vez. Entretanto, nós, pequenas pessoas, pequenos estudantes, rejeitemos os nazis nos nossos corações, nas nossas palavras, e nas nossas pequenas ações. Não apoiemos a chacina nem à mesa de jantar, nem à mesa de voto, nem na carteira. E assim, para sempre, até que isto tudo pare. Até que reabram Nuremberga. Para finalizar - perdoem-nos. O Wix, a plataforma onde este site se baseia, é de uma empresa sediada em Tel Aviv. O Jur.nal deve procurar alternativas.

  • sobre a gala lex

    Mais um ano mais uma gala, menos uma noite de estudo, mais 50€ para fora da mala. Os mesmo sentam se “aleatoriamente” nas mesmas mesas com formato diferente, as cadeiras vazias de estarem todos em pé, elogiam-se os vestidos sem saber quem é. Sempre as mesmas queixas: “Pouca comida”, “má música”, todos falam mas ninguém muda. Chegamos todos arranjados sem saber se é o sítio certo, devido ao ar duvidável e de Lisboa não estar por perto. Os professores sorriem e elogiam, mas há algo peculiar em sorrir para quem me vai chumbar. Os prémios são entregues, muitos discordam, outros saltam e outros nem votam. E de volta à faculdade surge uma nova guerra, quem consegue uber e quem fica à espera. Deitados na cama criticamos até o luar, mas no fundo sabemos para o ano vamos voltar.

  • Nova Alegoria - greve, outra vez.

    Querida academia – a  intelligentsia  da NOVA decidiu que a greve é um embaraço para o Estado de Direito. Bem haja! A aceitação é o primeiro passo. Baixem a cabeça por respeito. Porquê? Não sabem? É que, humildemente, caminham entre nós constitucionalistas, brilhantes como diamantes, com a bravura de... questionar a própria questão!Cale-se a miséria. A desigualdade. A violência sistémica. Os senhores estão a falar agora! E o que os senhores querem falar é precisamente sobre tudo aquilo que conquistámos no pós-Salazar: transportes públicos, habitação, educação, aborto, lei da paridade... O Estado tem é que ter (e ser!) um valor líquido — algo que se esprema facilmente entre punhos fechados. Acabou-se o tempo em que o teu Direito prevalece sobre o meu direito de questioná-lo.Acabou-se o materialismo histórico que fundamenta a tua Constituição.Acabou-se tudo! (dizer  chega  é pouco chique entre nós, sociais-democratas) Nasceu uma nova  intelligentsia : uma que goza com os Paulos Otários da Escola Clássica enquanto se deita à sombra do eucalipto Cristas. Uma que brilha com a internacionalização do Direito — opcionalmente em inglês.  Gens  humanista ... contamos tão penosamente todos os palestinianos mortos, ansiando chegar ao número que preencha o tipo de genocídio. Os nossos códigos não se moldam às convicções partidárias do intérprete – por mera admissão do dogma, claro.Ilustre academia, Virgem Maria! Parteira de todos os especialistas de direito nos OCS privados! Rogai por nós... Camaradas, até Jesus teve dúvidas na cruz... E eu? Eu pensei que a NOVA Law, ali em Campolide, era uma instituição minimamente focada na adaptabilidade.Aliás — para quê a nova alcunha?  As estigmas pulsam nas mãos. E com o pus, borbulha o pressentimento de que esta tal "adaptabilidade" é guiada por interesses que pouco têm a ver com os dos alunos.  Por que razão os mesmos que escreveram leis de despejo, cortes salariais e privatizações são agora os que nos explicam o que é justiça, cidadania e Estado de Direito?Por que é que os mesmos professores que nos deram aulas online durante uma peste se recusam agora a fazê-lo por causa de um regulamento inflexível?Por que é que o professor que questiona a palavra “trabalhadores” nas aulas de Direito Constitucional é o mesmo que nega serviços mínimos no tribunal arbitral? É a razão da causa ou a causa da razão, senhores?  Não haverá algo mais português do que uma greve da CP? Talvez o segredo esteja no nome:  grève des trains!   Public transportation kaput! Prioridades? Nestes termos não se questionam.  Afinal, nós só estamos a pedir um link de zoom... e eles? Um salário que chegue ao fim do mês.  Honremos, pois, todos os académicos de honra.Porque no silêncio, a ideologia torna-se método.

  • O dérbi dos dérbis: uma cidade pintada a dois tons

    Na última semana o nosso país parou. Nos meios de comunicação e redes sociais de toda a espécie debatia-se este tema por horas a fio, conversas de café, de elevador, entre família e amigos passavam,  irremediavelmente, este assunto a pente fino. Não era o apagão, nem o início da campanha eleitoral. Era o dérbi decisivo - o dérbi do século , apelidado por alguns - jogado entre Benfica e Sporting no passado sábado, que não saía da cabeça nem das bocas dos mais ou menos entusiasta pela bola. Durante uma semana, Portugal, em particular a cidade de Lisboa, entrou numa antecipação asfixiante que se prolongou desde o fim da jornada anterior até às 17h59 do derradeiro dia. Arrisco-me a dizer que se tratou de um fenómeno sociológico de histeria coletiva, e, em simultâneo, um evento desportivo quase sem precedentes, uma vez que as duas equipas chegavam a este jogo em igualdade pontual quando apenas restavam duas jornadas para o fim do campeonato, com o bónus de que qualquer uma delas poderia sagrar-se campeã nacional naquele mesmo final de tarde. A acrescer à rivalidade histórica entre águia e leões, estava montado o cenário idílico para o pandemónio. É um lugar comum do futebol, mas vou-me socorrer dele, citando uma frase atribuída ao treinador italiano Arrigo Sacchi: “O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes da vida”. Falo da minha experiência, ainda que apenas de um dos lados da barricada, de que naquele dia vivenciava-se um verdadeiro sentimento de comoção e união. Apesar dos problemas da mais diversa índole que assolam as gentes no seu dia-a-dia, naquela tarde fizeram questão de se deslocar ao estádio, inclusive muitas e muitas horas antes do apito inicial, e de apoiar aqueles rapazes que envergam camisolas vermelhas vivas. Estavam ali para algo maior do que elas mesmas, para algo que é um elemento de ligação imediata entre os mais díspares indivíduos. E não há como negá-lo, o futebol em Portugal é mais do que um simples desporto, particularmente entre os 3 Grandes, é um fenómeno económico e cultural, que move multidões e incendeia paixões. Tanto antes, como já depois de a bola começar a rolar, para além da comoção, sentia-se um clima de esperança no ar, misturada com alguma ansiedade - aqueles 90 minutos representavam a batalha decisiva numa guerra que já vai longa. No pré-jogo, escutavam-se por toda a parte cânticos de incentivo à equipa, talvez uns decibéis acima do habitual, cachecóis e bandeiras eram agitados, talvez com mais genica do que noutras partidas. Milhares de pessoas concentraram-se nas imediações da Luz para receber a equipa. O ambiente frenético transferiu-se para o interior do estádio, e mesmo quando o resultado era desfavorável aos homens de vermelho, toda aquela multidão não se calou, compelindo os seus a lutar pelo resultado. E quando, aos 63 minutos, Kerem Aktürkoğlu, o Harry Potter turco, marcou o golo que deu a igualdade e que recolocou as águias na corrida para o título, o recinto ia colapsando.  O empate a uma bola manteve-se até ao fim da partida, e, por conseguinte, também a igualdade pontual entre as duas formações, empurrando a decisão final para a última jornada. De nada valeram as estruturas montadas na rotunda do Marquês de Pombal, nem os cortes à circulação em pontos estratégicos da cidade. Porém, com este resultado, o Benfica deixou de depender apenas de si próprio para vencer o título. Resta a esperança de triunfar em Braga e esperar que o Sporting tropece frente ao Vitória. Quanto ao Sporting, face ao 1x0 alcançado no dérbi da primeira volta, está a uma vitória de alcançar o bicampeonato, feito que lhe escapa há 70 anos. The last dance , para ambas as equipas,   joga-se, mais uma vez, no sábado pelas 18h. Ao início da noite, Lisboa ficará pintada com os tons de um destes clubes.  Para quem sente falta de um dérbi lisboeta, ou para aqueles que não têm problemas ao nível do sistema cardiovascular ou do nervoso (ou ambos), não precisa de aguardar muito para ter repetição da dose. No dia 25 deste mês, o Estádio Nacional será colorido de vermelho e verde para a final da Taça de Portugal, a “prova rainha”. Águias e leões bem podem começar a emitir cheques-saúde aos seus adeptos, porque este final de época está impróprio para cardíacos.

  • Desde pequena, sempre quis o poder de parar o tempo

    A minha avó sempre teve a mania de tirar mil e um fotografias. Conservava tanto o mais importante aniversário como o mais banal jardim num flash. Preservava tanto a nossa família como meros desconhecidos num clique. O que era necessário era eternizar a essência de quem amava. Por fim, reunia todas as valorosas memórias num álbum meticulosamente escolhido. Acho que esta foi a herança mais bonita que ela me deixou: o hábito de capturar quem amamos numa fotografia. Conservei fotos das minhas preciosas bonecas, dos meus queridos brinquedos e das visitas de estudo, tal e qual a minha avó fazia, queria que aqueles momentos e aquelas pessoas ficassem assim para sempre. No entanto, o mágico flash não foi suficiente para resistir ao intransigente tempo que levou consigo tudo o que eu queria eternizar. Quis manter as minhas barbies, mas já nem sei em que contentor de doações as abandonei. Quis guardar a minha blusa favorita, mas as traças consumiram-na por completo.  Quis recordar para sempre as velas do meu sétimo aniversário, mas o sol derreteu-as  Quis eternizar a minha avó, mas já nem me lembro da sua voz. Quis parar o tempo, mas não há nada mais certo do que a sua inexorável passagem.

  • Kinetic Rebirth

    What is it? I honestly, and deeply, in Marianas Trench depths of longing, wish I could understand. I wish I could see, but the reality’s reflection seems as blurred as a river in a Monet painting, and my eyes are as damaged as astigmatism could corrupt them. I wish I could know what it is, almost as I wish I could know me. What am I. And why that thing that I don’t know what it is impacted me so acutely - and with such a precise aim, perfectly embedding the core of my heart, summoning an echo of Dahmer’s old habits (and I bet the rational hyenas are craving the satisfaction of their hunger with my heart), as if it thrived in the Slayer’s repentless  philosophy. That must have something to do with me, right? It has to. If it breaks me, even just a little, even if it is only a nano fragment of mine - of my body, of my soul, of my own aura - that is demoralized, it must be because something, in me, in my kinda way; in my own essence of existence; in my own anatomical proportions’ organization; in the way that my own blood travels inside me; in the way my own heart pumps both willing to start moving and inertia; in the way my own tear ducts rain me salt, and in the way my own dust of stars is organized in and through me, in order for it to be me, collapses with. It must be that. It has to be that - or else, what would it be in order to exist fractures? That is the only explanation that sustains my ache - celestial collisions; multilateral collisions, from every possible angle and of every kind of nature, impregnated in any possible cogitated sense - atoms, blood, metal, screams, euphony, symphony, tears, and light, all intrinsically, transcendentally, combined and collided, dancing altogether, in a so smooth harmony, personifying the own concept of coalescence. They look almost indistinguishable. And as they keep on increasing their speed; their transitions; their tension; their coordination; their complexion; their complexity, and as they stretch their Shakespearean act, almost until there is nothing more to stretch; almost reaching Icarus desired destiny, they just can’t take it anymore. They reach their own limit - and explode. And I guess that, even if there is any other possible explanation for my feelings, I don’t want to accept another. I don’t even want to acknowledge the possibility for there to be any other key for my transcendental puzzle. Because I do want to believe in collisions. I want to believe that, as stars and gas in a galaxy move, and sometimes collapse, blowing up, and then create a whole new universe, I myself sometimes let my emotions and thoughts indulge in an energetic overflow, to the point that they rip apart, in order to new emotions, or new interpretations of those emotions be born. If we are made of atoms, why couldn’t this explanation be considered sufficient?  Nothing is lost, everything is transformed , that’s what I’ve used to hear. I will believe in it; I want to believe in it. I want to believe that each collision is beautiful and it has its own magical dust; its own mesmerizing light; and its own secret of motion, all embedded in their own well constructed maze of extra mundane nature. I want to believe that each collision was meant to be, in order for me to become a new better me .

  • Happening 2025: "A Esperança vê o que ainda não é"

    Utilizo deste meio para apresentar à comunidade académica da Nova School of Law  o Happening 2025.   Trata-se de uma proposta cultural promovida por universitários, provenientes de diversas faculdades, para todos os universitários, procurando dar luz àquilo que há de bom e interessante na cultura do nosso tempo.  O tema central deste Happening é a Esperança, sob o mote “A Esperança vê o que ainda não é”, excerto do célebre poeta francês Charles Péguy .  Como é que o homem pode manter a esperança nestes tempos de crescente incerteza na política mundial, nas guerras que se vêm a surgir e desenvolvimentos da Inteligência Artificial?   “A esperança é uma certeza no futuro em virtude de uma realidade presente”. Que pretensiosa realidade é esta que nos pode conceder algum tipo de certeza?  Estas e muitas outras perguntas são aquelas que o Happening procura, antes de responder, colocar da forma correta.  Os eventos do Happening começam já amanhã, dia 2 de maio e estendem-se até ao dia 9 de maio, sexta-feira da próxima semana. A proposta conta com um programa holístico e diverso, que inclui a apresentação da peça de teatro “À Espera de Godot”, de Samuel Beckett, a realização da exposição “O que me espanta é a Esperança, de Charles Péguy”, diversas conferências, com Rui Ramos, António Feijó, Nuno Crato e outros, um encontro com o renomado cantor português Samuel Úria e muito mais.  Podem verificar o programa através da página @ac.imprevisto  no Instagram.

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