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- Pensamentos de uma deslocada
Viajo de um lado para o outro Sem noção tangente da realidade. Os problemas não sentem diferença, Onde quer que eu pertença, Cá ou lá, a existência de um futuro Próximo não tem familiaridade. Apercebi-me que o tempo está a passar Mais cedo do que estava a esperar DIsseram-me que faz parte de ser adulta Então, cada experiência não era única? Muita coisa para fazer e outras a acontecer, Abro a agenda e é dever atrás de dever. Que ânsia vai acabar por me atrofiar? Onde ficou o espaço para contemplar? Chego a casa cansada de outra viagem Fico satisfeita por ter saído na correta paragem Sei que vou voltar, logo não arrumo a bagagem Para ninguém se preocupar, mando mensagem Antes de voltar a sair, coloco a personagem E mentalizo-me que estou numa posição de vantagem…
- JurisTuna: Ensaio Aberto
Cara Comunidade Académica da FDUNL, Venho por este meio convidar-vos, enquanto colaborador da Coordenação Artística da JurisTuna, a estarem presentes no ensaio aberto da nossa Tuna que se irá realizar no dia 24 de Fevereiro pelas 18h. Ao longo dos anos, a JurisTuna tem sido uma casa para muitos que passam por esta faculdade, casa essa onde se partilham risos, memórias, melodias e momentos que marcam a nossa efémera mas estão especial vida académica. Na JurisTuna há um lugar para todos, um cantinho para cada um, e temos como função unir a comunidade académica através da música, e a música não discrimina, acolhe quem quer que a queira ouvir ou produzir. Por isso, a JurisTuna vem por este meio abrir as portas à comunidade académica para que todos os que estejam interessados possam experienciar um pouco daquilo que é a alegria de criar música em conjunto e de fazer parte desta família, através do nosso ensaio aberto. Se gostas de cantar, seja no chuveiro, pela casa ou mesmo em palco; se gostas de tocar algum instrumento, ou tens curiosidade em experimentar tocar algum; se sentes aquela atração misteriosa por rodopiar estandartes ou por fazer carpas com pandeiretas; ou se nada disto te chama, mas procuras um lugar onde no final do dia te possas rir um pouco, mandar umas piadas e conviver com os teus amigos, a JurisTuna tem algo para te dar. Esperamos ansiosamente por vocês dia 24, e, como não podia faltar, haverá um excelente convívio após o ensaio, que já fez sucesso no primeiro ensaio aberto deste ano. :)
- Uma a Carta Sussurrada por Erato
Amor, que ridículo é escrever-te uma carta quando tudo o que te quero dizer, digo com um olhar. Basta um olhar, e fico completamente indefesa, paralisada e até enfeitiçada nos teus olhos profundos e hipnotizantes. Ah, como descrever o que sinto quando estou perto de ti? Teria de pedir os versos de Camões, a prosa de Eça e a intensidade de Florbela para talvez chegar ao ápice do que percorre na minha mente ao te ver. Estou completamente enamorada por ti. Adoro descascar as pequenas (e imensas) camadas de ti, sabendo que todas essas cicatrizes e segredos são só teus. Mostra-me o teu lado mais sombrio, e eu serei o teu Sol, logo eu, que sou sempre a Lua, mas por ti, meu amor, irradio tudo à nossa volta e garanto que nunca te faltará luz no caminho. Não estás sozinho. Estou aqui. Descansa um pouco. Deita-te no meu colo enquanto brinco com o teu cabelo. Beijo-te a face e limpo-te as lágrimas. Não tens de carregar esse peso sozinho. Mesmo que fosses Sísifo, todos os dias carregaria essa pedra contigo. Imploraria, como Orpheu, para ir ao submundo te trazer de volta. Por ti, seria tão imprudente quanto Ícaro e traçava o meu destino numa ardente bola de fogo, tentando desesperadamente te tocar. Seria a tua Penélope e esperaria anos, sem ter a certeza de nada, por ti, meu Odisseu. Já não me sentia assim há tanto tempo… Tenho medo, por favor, não me magoes. Não aguento mais desilusões, quero o meu porto seguro. Podes ser tu? Eu sinto-me tão segura nos teus braços, e a cura das minhas insónias é o teu cheiro na minha almofada. Nunca escrevi uma carta de amor. Até tu chegares e trazeres Erato contigo. Transformas tudo em amor. Cada palavra que profiro transborda da inspiração que emanas. Vem mais perto, sê a razão do meu escrever, o alento da minha mente e o estímulo da minha arte. Talvez sejamos uma história de amor para a eternidade, dando cor à amoreira como Píramo e Tisbe, e eu escreva sobre nós como Camilo escreveu sobre Mafalda e Afonso. Perdoa-me, sou intensa, mas é que eu amo com tanta profundidade, só quero mergulhar na tua essência e ver do que é feita a tua alma. É demasiado cedo, eu sei, mas quero-te perto, quero que me escolhas conscientemente. Se tu me quiseres, ofereço-me de corpo e alma, pois não sei outra maneira de amar. Porém, se tudo isto for demasiado, se eu for demasiado, não te vou culpar, meu amor. Irei, como o meu último ato de paixão, deixar-te ir.
- Deja vu
Um raiar matinal Após uma noite fria Ditado pelo ciclo astral E esquecido pela nuvem que o queria Tudo quis mudar. Mas devia Ter previsto, através das gotas Nos meus olhos, como o dia Sempre segue o luar, E o sorumbatismo da noite, A serenidade das plantas, Não são senão estágio Num ciclo maior ainda E o exterior desse ciclo Ninguém pode mudar Como não te vi em meu olhar? Mesmo antes de te ver, Já admirava o teu ser Mesmo ocupada, para ti mantinha um lugar Livre na minha mente Cheia, constantemente, De esquecimento e recordação De uma hora que não vivi Senão em meu coração Pensando em ti Sem sequer o teu cheiro conhecer Onde estiveste, meu querido ser?
- Changuito
No dia 7 de fevereiro, o Jur.nal esteve na livraria Poesia Incompleta, a única livraria de poesia do país, e conversou com Changuito. Entre páginas e memórias, o encontro versou sobre a história da livraria, tecida de cantos excêntricos, percorrendo a cultura, os desafios de a sustentar e o que significa uma porta aberta numa cidade em transformação. As várias moradas da poesia Entrar na Poesia Incompleta é como entrar num lugar que parece existir em paralelo à cidade, não fora dela, mas ligeiramente desalinhado do seu ritmo. Há um estendal atravessado por gravatas de poetas, fotografias, poemas e desenhos, um micropalco e livros empilhados segundo uma lógica mais afetiva que comercial. Mas o que sobressai é a sensação inerente de que este espaço não foi concebido para ser visitado com pressa. Quando surge atrás da sua secretária, Changuito não corresponde à imagem clássica de livreiro: fala como quem conta histórias num café, ri-se das próprias frases antes de as terminar e alterna uma lucidez quase cruel com um humor ácido que nunca chega a ser leve. A livraria, tal como existe hoje, abriu em 2018, mas a sua história começa muito antes deste endereço. Em 2006, na Bica, Changuito tinha um bar chamado Da Mariquinhas. Num recanto onde ninguém se sentava, começou a colocar, quase por instinto, uma pequena seleção de livros de poesia, como consequência natural de alguém que diariamente lê poesia. Quando o bar fechou, ajudou num projeto ligado a livros no Bairro Alto e em 2008 abriu no Príncipe Real a primeira livraria exclusivamente dedicada à poesia. Passados alguns anos após o seu encerramento, reabriu noutro ponto da cidade. Assim, ainda que tenha sido um processo multiforme, o mote de ter uma casa somente dedicada à poesia foi sempre o alicerce. Só livros, só isso “A génese desta livraria está em eu ser leitor. Não está em eu ser homem de negócios - que eu não sou. Nem muito um homem, para ser sincero”, profere. Assim, a livraria não nasce de uma estratégia comercial, mas de um impulso de criar um lugar onde a poesia pudesse existir como cerne. Num país com uma antologia poética extensa que atravessa séculos, desde os cancioneiros medievais até aos poetas modernos, pareceu extremamente estranho a Changuito a poesia permanecer nas prateleiras laterais das livrarias generalistas. Contudo, ao falar mais tarde com editores estrangeiros, apercebeu-se que as livrarias dedicadas à poesia são raras como um manuscrito intacto no fundo de um naufrágio. A conceção da Poesia Incompleta surge também como reação à homogeneização progressiva das cidades. Changuito fala de uma Lisboa que se repete a si mesma, ocupada por restaurantes temáticos, lojas de souvenirs e cafés pensados para quem paga demasiado por um galão rebatizado de latte - espaços que se multiplicam exponencialmente. Para ele, uma cidade torna-se tanto mais rica quanto mais diversa for. Quanto mais espaço houver para negócios que não obedecem à mesma lógica - livrarias de poesia, de viagens, de teatro -, mais respirável se torna o tecido urbano. Uma cidade composta por repetições, insiste, empobrece-se: “Se houver 15 Burger Kings, a cidade é mais pobre. Se houver FNACs, Bertrands e Almedinas, também é mais pobre”. O título da livraria proveio de uma constatação inevitável, quase aforística: “A poesia não tem como ser completa”. Uma pessoa pode dominar a poesia do Paraguai, e logo surge a pergunta sobre a poesia do Uruguai. Pode-se conhecer os tupi-guarani, mas faltam os astecas. Descobrem-se manuscritos do século XIX do Curdistão, e amanhã alguém mencionará poetas eróticos religiosos de um país que nunca se ouviu nomear. Ao contrário de outras artes, como o cinema ou a fotografia, que são organizáveis em períodos relativamente delimitáveis, a poesia é um bordado contínuo com mais de quarenta séculos que repete temas primordiais - amor, ciúme, desespero, memória, morte - em milhares de línguas, geografias e épocas. “A poesia é o Galeto com um balcão até ao infinito”, chega até a sobredimensionar. O mais poético dos seres nunca escreveu um verso O ato de dar a alguém uma flor não é necessariamente poesia. Podem existir pessoas que vivem poeticamente sem escrever um verso e podem existir poetas geniais que são humanamente áridos. Tal constatação demanda uma distinção, segundo Changuito, entre a vivência e a conceção poéticas: “A poesia, stricto sensu , é uma produção literária feita a partir de leitura”. Assim, não acredita em grandes poetas que não leem, correlacionando inspiração com tradição literária - a poesia acaba sempre por consistir num diálogo com o que veio antes; num trabalho com uma linguagem cujas letras carregam memória e metal fundente. Cita, a este propósito, um verso de Ary dos Santos: “Original é o poeta que se origina a si mesmo”. Quando fala de poetas, não os coloca num pedestal mítico, mas sim num pedestal épico, equiparando-os a super-heróis. O que faz um poeta ser um super-herói? O mesmo que torna um médico excecional nas urgências do São José ou um grande cozinheiro capaz de devolver a infância num prato: “O talento e a sabedoria. Esse binómio é uma espécie de super-heroísmo”. A par deste tema épico, conta a história de um homem belíssimo que, numa discoteca, insistia em aproximar-se dele até que um dia desistiu dessa tentativa e começou a falar apaixonadamente da sua tese de doutoramento sobre morangos em estufas. Entre música alta e luzes intermitentes, deixou-se encantar pela forma como aquele homem falava do cultivo, luz e temperatura. Diz ainda que foi aí que percebeu genuinamente a força do conhecimento quando aliado ao entusiasmo, fusão tal que reconhece nos grandes poetas. É neste sentido que atribui, por exemplo, a Herberto Helder “capa e vários poderes”. Poesia nascida cantada Antes de ser livreiro, Changuito foi, sobretudo, ouvinte. A sua relação com a poesia germina num território antigo e quase biológico, enraizada numa infância em que as palavras circulavam como respiração coletiva: a avó fazia rádio e possuía uma voz que ele ainda hoje descreve como bela; a mãe e o tio sabiam poemas de cor desde crianças, e a irmã fechava-se no quarto a cantar discos, criando uma atmosfera em que dizer, cantar e escutar eram formas naturais de estar no mundo. Refere que o seu privilégio “não foi ser branco ou heterossexual. O meu maior privilégio foi crescer com amor”, o que o moldou de forma definitiva. A cultura foi, nesse contexto, omnipresente na sua vida: música, histórias, dança improvisada a horas improváveis, inteligência acompanhada de riso. Sublinha que crescer assim muda a forma de viver. Tal como quem cresce entre tachos e acaba por desenvolver uma relação orgânica com a cozinha, crescer rodeado de palavras, vozes e imaginação cria uma intimidade precoce com a linguagem e o sonho, enquanto prática quotidiana de liberdade. Lê poesia em privado desde os 16 anos e em público desde 1999, mas insiste que ler para alguém não é simplesmente recitar, mas sim conduzir: pegar numa pessoa pela mão e colocá-la diante do tríptico de Bosch, ou de fazê-la ouvir Bach pela primeira vez, criando uma experiência que transcende o texto. Deste modo, afirma que “ouvir poesia mal dita pode afastar alguém da poesia para sempre”. Não porque se considere um leitor excecional, mas porque lê apenas aquilo que conhece profundamente. Recorda, a propósito, uma visita de alunos de teatro que chegaram à livraria reticentes quanto ao espaço e à poesia. Uma leitura prolongada por horas, atravessada por Camões e Nicanor Parra, fez com que dos dezassete nove regressassem. Para Changuito, isso confirma que a poesia antes de ser página, foi sempre voz, e que somente continua viva quando ainda é capaz de libertar. O que passa pela porta Ter uma porta aberta para a rua é aceitar o imprevisto como parte do quotidiano. Na Poesia Incompleta, tal abertura converteu o espaço num palco involuntário de episódios saídos de uma cena surrealista. Fazem parte do repertório absurdo uma grávida convencida de que, por detrás da cortina que escondia o micropalco, funcionava um centro de saúde indicado pelo Google Maps; um homem com ar de pregador que insistia que o lugar era “estranho”, incapaz de aceitar estantes vermelhas numa livraria, mas ironicamente confortável com a ideia de que à noite Changuito retiraria os poemas, as gravatas e as fotografias para estender roupa no mesmo sítio; ou ainda quem exigisse que o seu cão assistisse a uma leitura de poesia porque “estava habituado”, ou quem trouxesse um bebé para ouvir poemas no escuro - afinal, como resume, “ter uma porta aberta é meio caminho andado para ter muitas histórias tragicómicas”. O País dos Sonhos Vista de fora, a vida de Changuito parece um sonho: dias passados entre estantes de poesia, leituras infindas, conversas sobre versos e viagens literárias aos países mais recônditos. “Isto não é um sonho”, diz. “Isto é um inferno”. E não cai numa hipérbole. A Poesia Incompleta assemelha-se a um Inferno de Dante contemporâneo, não feito de fogo, mas de números e ausências- um círculo para as rendas, outro para as faturas, outro para os dias vazios, outro para quem entra, elogia e sai sem comprar e voltar, outro para a dependência absoluta de leitores incertos… No centro do labirinto, apenas resta uma certeza obstinada: “Só vendo uma porcaria: livros. Não vendo postais, não vendo tote bags, não vendo azeite”. Dessa recusa nasce um paradoxo: a livraria que muitos chamariam “independente” é, na verdade, profundamente dependente - dependente de leitores e compradores. Changuito fala de dinheiro tal como fala de poesia - sem romantizar a precariedade nem transformá-la numa epopeia. Evoca uma advogada que entrou encantada, repetindo que aquela era “uma vida de sonho”. À quarta insistência, perguntou-lhe quanto ganhava e quantos dias de férias tinha por ano. Depois contrapôs com a sua própria realidade: cerca de metade de um salário mínimo por mês e apenas treze dias de férias ao longo de mais de uma década. É por isso que ressalta, sem dramatismo, que “a vida é digna ou indigna por muito pouco”. Ler para não desaparecer Num mundo que celebra a velocidade e mede tudo em produtividade, Changuito defende que abrir um livro pode ser um gesto radical. Ler é suspender a lógica da aceleração contínua e recuperar um tempo que nos é continuamente subtraído. Num sistema que coloniza até o sono, a leitura torna-se subversiva, precisamente por não produzir resultados mensuráveis, mas por munir os leitores de ideias e ferramentas que ampliam o campo do possível. Ao longo da conversa percebe-se que, mais do que vender livros, a Poesia Incompleta existe para criar condições de encontro com eles. Consubstancia-se num lugar onde a leitura pode ser partilhada, ouvida e discutida como experiência viva. Como chave d’ouro, quando lhe perguntam que recurso estilístico escolheria para sonhar, Changuito sorri e responde que muitos sonhos já são metáforas por natureza. Ficaria, assim, com a hipérbole - pela comédia e tragédia - alternada com repetições e aliterações, como se a própria língua tivesse de insistir para não desaparecer. Talvez seja isso que esta livraria faz diariamente: enfatizar a importância dos livros para que o mundo não os esqueça e repetir a necessidade de ler para que a pressa não nos devore. Entre números e poemas, a Poesia Incompleta continua ali de porta aberta para os soldados do futuro que trocam a espada por livros. Fotos: Matilde Aranha
- Houdini: a vida e obra do ilusionista
Sei que sei. Não sei porque sei. Sei que sei. Mas será que sei que não sei que sei? É confuso? É. Mas também é confuso saber e não saber que se sabe. Porque quando se sabe, não se sabe que se sabe. E quando não se sabe, sabe-se que não se sabe. Então, eu sei quando não sei? Não sei. Ou será que sei?
- Os exageros de quem não cá mora e está lá longe (a uma hora de carro)
Uma tempestadezinha... Filha, tenha calma, que eles exageram sempre, não sabe como são os meteorologistas, metem medo às pessoas, pode estar aviso encarnado mas é só para eu não dispensar a empregada. É da maneira que amanhã vou para o Palácio de sapatos de veludo e beijo o pacóvio do tempo de antena para ver se ele me deixa trabalhar em paz e sossego sem ter os ratos dele a mordiscar-me os dedos. Vou de Mercedes preto que é uma maravilha, já sentiu a brisa no banco de trás? Bancos quentinhos, que regozijo, tamanho júbilo. Oh mamã, olhe que eu acho que vai ventar muito, avisaram as pessoas? Claro que avisamos, acha que eu sou parva? Estúpida? Incompetente? Que nasci ontem? Já lá está você com coisas, tome um diazepam e vá dormir. Mas oh mamã. Mas cale-se que não há vento coisa nenhuma. Acordo eu no dia a seguir na calmaria da bolha por onde nada entra mas tudo passa. Gelado está o azulejo e o ronronar da porcaria das máquinas do empreendimento bilionário ao lado enche-me os ouvidos, está tudo intocado, podiam pelo menos ter fingido que passou um paninho de feltro, e meto-me outra vez na cama. Chatos do raio, vou lá ver como foi o vento. Afinal estava uma desgraça. Mas caem sempre umas árvores refilonas em Leiria, não fossem os meus vinte e um anos prova disso, natural da Caranguejeira mas nem nasci lá, Leiria está sempre lá certinha no meu cartão de cidadão. Meto o nariz nos livros, ainda bem que tenho aquecedor porque olha o frio, mas algo não está, está muito frio. Ligo à minha avó. O poste discorda. Ligo outra vez. Mas a menina tem noção do que aconteceu?, diz-me o estúpido do poste vertido ao chão, diz-me ele e os outros sessenta e oito que devem estar à procura da campa do padre da Azoia. Abro outra vez o ecrã brilhante que vive agarrado à minha mão e vejo as escombros e pedaços do lugar que por uma dúzia e mais meia de anos chamei Casa. Escorrem-me rios como se o Lis galgasse as margens enquanto me tento manter em pé no meio da caixa metálica que me leva em linha reta e faz um barulho infernal. Achei que que estava a vivenciar o inferno católico numa dramaturgia estrépita e mal feita. Olho, vejo se está alguém para aí virado na peça de teatro, nada, não há peça de teatro coisa nenhuma. Compro frango seco para o jantar, nada. Meto-me outra vez na cama fria, nada. Ligo a estúpida da minha televisão que está sempre fora da tomada, nada. Ligo à minha avó, nada. Vou comprar açúcar na esperança que o horror não me cause cáries primeiro. Diz filha, Oh avó eu só quero saber se vocês estão todos bem, Mais ou menos, o telhado lá se foi, e a cidade está virada de pernas para o ar, mandaram uma bomba, não está por cá ninguém para nos ajudar. Queres que eu vá? Não, não vás, nem aqui consegues entrar. E os filhos da puta de sapatos de veludo continuam sentados nas suas poltronas lustrosas e almofadadas a dizer que não há merda nenhuma para se fazer, vamos todos comer um bife, batatinha frita, tão bom que sabe. Olhe Sr. Ministro, acho que umas coisas caíram lá na terra daquela gente. Então vamos lá, vamos dar umas boas energias, que esta gente precisa mas é de acreditar em curas homeopáticas, Em nome da Banca, das Seguradoras e do Espírito Santo. Trazemos a Ministra? Acha, ela está a tomar o seu soro anti-internamento. Que se foda a calamidade, exagerados. E chegam todos engomados à clara de ovo, protegidos dos pinguins da chuva, que o cavalinho já se tirou. Lamento imenso, mas agora tenho de voltar para o Palácio porque já passa a hora do meu chá! Oh Mimi, nem tenho tomado a medicação, andamos todos só a comer umas sandes com o que se arranja, tomei um banho quente só hoje. Oh Mimi, estamos todos abandonados aqui, não há ninguém a vir nos acudir, falta-nos tudo e já apoquenta, andamos todos a fazer o que dá, já não há lonas. Oh Mimi, está tudo destruído, entrou-me a árvore casa a dentro, sabes aquela grande com muitos anos, tenho infiltrações por todo o lado. Lembras-te daquele barracão, daquele pavilhão, daquele edifício, daquele jardim, daquela clarabóia, daquele pinhal, daquele carro vermelho, daquele muro do castelo, da tua escola secundária, dos estores de tua casa, das cadeiras dos banhos de sol, das árvores do tribunal, do que restava do Pinhal, do telhado, da luz, da água?, da puta que vos pariu toda que ninguém nos socorre, ninguém nos ajuda, estamos sozinhos, não venhas para aqui que não consegues entrar. Faço o que posso encerrada e enclausurada na capital. Choro nos braços dela, que nunca soube de nada, só acha que foi um ventinho. Aguentem-se, vejam o meu novo vídeo a fingir que trabalho, grito de raiva e escorrem-me Lises e Lises, inundo-me de desespero, procuro onde estão todos, não está cá ninguém, estão ocupados a beber Murganheira. Se queres que avisemos, faz tu! Vai lá tu! Que a nossa solidariedade vem sempre atrasada porque a gente gosta de viver devagar, cada dia de cada vez. Cada dia de cada vez enquanto vejo mártires sem paredes e crianças sem recreio a limpar os destroços de um sonho de quarenta e sete gerações e não sei quantos reis e de um castelo que se ergue no meio de árvores tornadas gravetos para os cães roerem. Mamã, porque não posso ir brincar com os meus amigos? Minha filha, a tua escola o vento comeu ao jantar e o nosso teto está feito em papa. Cansa-me a incompetência, a insensibilidade, os pseudo-carinhos de quem não se importa, de quem nada faz, morreu mais um velho com telhas na mão com a mulher com quem vergou uma vida a ver, o homem já não pode mandar as suas filhas para Lisboa porque a sua fábrica está a descansar no céu com as estrelinhas, a mãe que não pode aquecer um banho quente para o seu filho com um bicho qualquer que apanhou na creche antes da creche ser só chão, o cão que choraminga pelo dono, que lhe pede uma festa de despedida, depois de lhe cair um pinheiro em cima da casota. Sofrimento esdrúxulo, superlativo, tenho de usar palavras assim ou o ministro não me entende, que ele não fala para o povo, ele está-se a cagar para o povo, fala para os seus sapatinhos de veludo e as suas saias de filó. União? Europa? Mas nós ainda nem descosemos o bolso todo! Olhe os leirienses, marinhenses, vieirenses, coimbrenses, caldenses, nazarenos, pedroguenses, pombalenses, figueiroenses, trabalham todos tão bem, acha que vamos ajudar até que o último caia morrido por intoxicação de monóxido ou de traumatismo craniano? Haja povo eficiente, o espírito ronaldense, trabalhem, trabalhem, que o pobre é que se fode.
- Entre Abril e o Abismo: um país em alerta
Portugal aproxima-se da segunda volta das eleições presidenciais como quem caminha num nevoeiro espesso. De um lado, a continuidade das instituições; do outro, forças que prometem soluções fáceis, mas ameaçam os fundamentos da nossa democracia. Não se trata apenas de escolher um Presidente da República. Trata-se de decidir que país queremos ser, e, sobretudo, que país recusamos deixar de ser. Nas últimas décadas, habituámo-nos a uma democracia imperfeita, por vezes lenta, muitas vezes frustrante, mas livre. Hoje, essa liberdade já não é um dado adquirido. O que vemos crescer diante de nós é um processo silencioso, e por isso ainda mais perigoso, de um processo que chamo “desdemocratização”. Não se trata de uma ruptura abrupta com o sistema, uma Revolução; trata-se de um processo lento, a erosão da confiança nas instituições, a normalização do insulto, a substituição do debate pela provocação, da verdade pela mentira repetida vezes suficientes para parecer verdade. Há quem simplifique problemas complexos, crie inimigos internos, espalhe fake news e desacredite a imprensa, a justiça e tudo o que limite o poder de um líder que se apresenta como “salvador”. Não é novo. Não é original. E nunca acabou bem, em lado nenhum. A democracia não morre de repente. Morre aos poucos, quando deixamos passar. Quando encolhemos os ombros perante a mentira. Quando confundimos liberdade de expressão com licença para destruir o próprio espaço democrático. Quando aceitamos que o ódio e a raiva ditem o voto. É precisamente por isso que esta eleição importa tanto. O Presidente da República não governa, mas simboliza. Representa. Dá o tom. Pode ser um garante da Constituição, ou alguém que a contorne. Pode ser um travão aos excessos, ou o seu megafone. Pode unir, ou dividir deliberadamente para ganhar poder político. No próximo dia 8 de fevereiro, não está apenas em jogo um nome. Está em jogo a memória coletiva de um país que, há pouco mais de cinquenta anos, acordou para a liberdade. O 25 de Abril não foi apenas uma data histórica. Foi um grito. Um ponto final no medo. Um compromisso entre gerações: nunca mais ditadura, nunca mais censura, nunca mais um país governado pela mentira e pelo silêncio forçado. A democracia portuguesa nasceu da coragem de quem acreditou que valia a pena arriscar tudo para que hoje pudéssemos viver livremente. E é isso que está agora a ser testado: se somos dignos desse legado. A abstenção, nestas circunstâncias, não é neutralidade; é desistência. O voto em projetos que banalizam o autoritarismo não é protesto; é gasolina lançada sobre um fogo que não se controlará facilmente. A história europeia está cheia de avisos para quem queira ouvir. Acordar é um dever cívico. Informar-se é um ato de resistência. Votar de forma consciente é, hoje, um gesto profundamente democrático. Não se trata de gostar mais ou menos de uma pessoa, de um partido político. Não é sobre ser de esquerda ou de direita. Trata-se de escolher entre um caminho que, com todos os seus defeitos, respeita a democracia, e outro que brinca perigosamente com a sua destruição. No dia 8 de fevereiro, Portugal olha-se ao espelho. Que não seja para reconhecer, tarde demais, que deixámos Abril adormecer.
- Peer2Peer - lado a lado, futuro partilhado
Não é voluntariado, não é “ajudar o outro”. Não vem no horário, não dá créditos, não é jurídico. É humano, é real. É ver o outro como um igual. É caminhar lado a lado. Porque há caminhos que não se fazem sozinhos. É aqui que começa o Peer2Peer. É um projeto que prepara TODOS para a entrada no mercado de trabalho, sensibilizando para os obstáculos existentes na inclusão de pessoas portadoras de deficiência. Jovens universitários serão emparelhados com jovens portadores de deficiências diversas, com o desafio de se ajudarem mutuamente no percurso de preparação para o mercado de trabalho. No Peer2Peer, contamos com a presença valiosa de profissionais relacionados tanto com o mundo do Direito, como com o processo de recrutamento inclusivo: pessoas que conhecem as portas e os obstáculos do mundo laboral atual. Através de palestras, workshops, partilha de testemunhos e de simulações de entrevistas de emprego, os participantes sairão prontos para enfrentar um processo de recrutamento com sucesso, além de ganharem uma visão mais ampla e inclusiva. Porque um mercado de trabalho que exclui não é competitivo. É incompleto. Daí a importância de todos saírem com uma visão mais humana, mais justa e mais inclusiva do mundo profissional. Este projeto traz benefícios para todos os envolvidos. De forma sintética, os participantes irão: Conhecer melhor a realidade do mercado de trabalho; Aprender a fazer um CV e uma Carta de Motivação, com o auxílio de especialistas em recursos humanos; Participar numa simulação de entrevista de emprego com recrutadores, que darão feedback ; Desenvolver soft skills, nomeadamente: empatia, comunicação interpessoal e adaptabilidade. Mas o Peer2Peer não vive só de sessões. Não se limita a skills profissionais. É uma oportunidade para conhecer pessoas novas e contactar com realidades diferentes. Entre conversas informais e risos inesperados, criam-se laços. Amizades improváveis. Perspetivas novas. "O nosso projeto foi espetacular, foi giro e gostei muito, foi uma experiência divertida, gostei de fazer os trabalhos e tudo." -Beatriz Campos, jovem portadora de deficiência, participante do Peer2Peer 2025 Participar no Peer2Peer é sair da bolha académica sem sair da faculdade. É perceber que incluir não é apenas dar voz, mas aprender a ouvir e entender. Fornece competências essenciais, tanto a nível pessoal como profissional. "Era aquela hora semanal em que eu sabia que ia receber um grande abraço, rir muito, e ao mesmo tempo aprender algo útil para o meu futuro. Uma lufada de ar fresco no meio da rotina caótica de um estudante de Direito." -Raquel Nunes, aluna da Nova SOL, participante do Peer2Peer 2025 Podem inscrever-se até 17 de fevereiro através do link . Estamos disponíveis para esclarecer quaisquer questões que tenham, através do email p2p.novalaw@outlook.pt , pessoalmente na faculdade, e/ou através de mensagem privada. Esperamos que abracem esta iniciativa com o mesmo carinho e dedicação que nós! Até já! As managers, Beatriz Meleiro e Raquel Nunes
- Nunca Mates o Mandarim
Na noite de 8 de janeiro de 2026, o Jur.nal esteve nos bastidores do MUSA de Marvila com os Nunca Mates o Mandarim, na úvula daquela que seria a introdução do álbum primogénito da banda a Lisboa. No átrio sôfrego do que a noite prometia, deu-se voz às meditações que decorrem da escuta dos Mandarim , devolvidas por esclarecimentos e pano para outras tantas, depois tingido e complexificado com o presentear de Bola de Bilhar . Quem são os Nunca Mates o Mandarim? Procurar conhecê-los na internet é ler em todas as páginas que são projeto nascido do terem tempo de sobra para queimar - confessam que assim o era na génese do grupo de carimbo portuense e guelra de rock alternativo que apalpou terreno na cena nacional em 2023 com a estreia do EP Parou p’ra ver . Hoje dizem-se mais azafamados e jubilosos por isso, com a agenda recheada entre o semeio do novo álbum pelos palcos do Porto, Braga e Lisboa, e o mesmerizar do país com “Fumo”, a música com que se inauguram no Festival da Canção deste ano. Salvo a conjuntura juvenil do remanescente de tempo que juntou Manuel Dinis (guitarra), João Campello (bateria e baixo/voz) e João Amorim (voz, composição e guitarra), admitem que o processo criativo é-lhes estado ininterrupto, advindo desde trocas de riffs férteis pela noite, pelo telemóvel, a raquetadas de lampejos em sessões de jam (disseram ser dos campeões que não têm medo do papão de brincar com os rascunhos à frente uns dos outros), à colheita de inspiração pela vida fora. O Amorim matizou-os perspicuamente como extrativistas relativamente às influências, relatando irem beber desde o mundano da tristeza e das vicissitudes do coração, à nódoa deixada por outros artistas. O João Campello apontou o Desmond Doss como referência recente. O que sabem eles de campainhas mágicas? Num jogo de intelectos, uma pergunta alusiva ao livro de Eça de Queiroz que lhes dá nome: Em que campainhas mágicas já tocaram ou quiseram tocar no decorrer deste projeto? Responderam que faziam por ser ponderados nos passos que davam como grupo, procurando não ceder a impulsos precipitados, à cautela dos mandarins que pudessem matar por lapso de ação. Reconheceram que se houvesse campainha mágica em que desejassem tocar, garantida a ausência de consequências, seria a de tornar possível viver da música em Portugal, o que não é o caso de nenhum dos três atualmente apesar do repertório patrimonial que têm vindo a oferecer ao país desde a sua formação, o qual conta com arranjos dos grandes êxitos “purpurina portuguesa”, reunidos no seu EP de 2024, dando uma sensualidade caliginosa a clássicos desde as Doce a Carlos Paião. O caçula no acervo dos Mandarim , Bola de Bilhar , é soma parente à coleção de músicas de até então, cuja sonoridade parece pairar entre um familiar caseiro e um misticismo envolvente. Nasce duma meditação sobre o tempo, físico e mental, escrito do e no entretanto das viagens de Amorim de compromissos divididos entre Porto e Lisboa, sendo o single “Coimbra B” o apóstolo espacial do estar entre uma coisa e a outra e de por isso não se estar em lado nenhum. Desta reflexão a banda concebeu 30 faixas, depois despidas até às 9 camadas - as que temos no disco - unidas por um elo comum: o jogo. Também o jogo da interpelação, de noites e músicas outras, continua a marcar presença nesta Bola de Bilhar . Entre os convocados quer por referência ou inspiração: Saramago, García Márquez, Rita Lee, Jorge Palma, Rui Veloso, Leonard Cohen. O liricismo do novo álbum promete com estes modelos fazer por merecer o precedente conseguido pelos projetos antecessores de ter grafitada numa parede do Porto uma letra. Eis a letra escolhida pelo fã que lhes realizou este sonho: Se tu eras o Paiva / Não fui o isqueiro / que o foi acender, da música “Um outono qualquer”. As escolhas da banda para uma próxima “grafitada”: bocados da “Boulevard 61” ( Diz-me o preço do galão e da torrada / e eu dir-te-ei se sou de cá, com direito a desenho dos perecíveis), da “Quero” ( Quero ter pais ricos ) e da “Bola de bilhar” ( Não sou nada / não sou nada de novo , letra que acena ao leitmotiv da interpelação). Naquele momento de ânsia, para chamar a descontração e abrir a porta a esta nova brisa que Lisboa conheceria daí a minutos, pareceu perspicaz atualizar a lista das vontades enumeradas na sua icónica “Quero”. Descanso , pediu o Amorim. Cinco senhas de finos , pediu o Manuel. Sol , pediu o Campello. Fazem batota no bilhar? “Eu não consigo fugir ao que eu era há cinco anos atrás e sou agora uma consequência disso”, uma nota feita pelo Amorim entre reparos sobre o influxo do tema da herança de um destino, apanhado de “Cem anos de solidão”. Esta sua máxima transborda pelo álbum que o trio apresentou à capital nas paredes do MUSA. Bola de Bilhar é história contada entre o verter dos copos de finos (vestindo as cores do Porto) sob a mesa do jogo que nem se joga nem se acaba, e rasgada pelas cortadas da música que toca além da nossa vontade, acima do gosto, acima da voz. Ouvimo-la aos bocados, rimos quando não apanhamos, ficamos com os sons, os silêncios, e os entretantos. Somos jogados no decorrer dum pensamento, e juntamo-nos à marcha pela curiosidade do destino. A história dá-nos toques no ombro de quando em quando, sabores que o paladar conhece, parafraseando nomes e histórias outras. É o caso de “12 Badaladas” que dá largada ao tema da distância e do tempo e da nossa incapacidade perante esses dois gigantes, pondo estas ideias num cenário análogo ao da história d’ “A gata borralheira”. O tema “Histórias” surge como matrioska neste reconto com cheiro a noite e cambaleio a vida. Entre tacadas e goles ávidos, a história segue. Agarramo-nos à mão-mote do jogo que nos guia e nos passeia pelas faixas quatro, cinco e seis, revisitando-nos na faixa oito que dá título ao disco, burilando a história com alusões a uma gama de jogos desde os do recreio, aos de mesa, aos de risco que na verdade é o que é a cogitação que se faz por este álbum fora: um perigo para o Homem que de bicos dos pés não gosta de saber que continua pequenino. No contar da história, descobrimos que no amigo que pensávamos conhecer de cor ecoa uma voz que nos era desconhecida. Em “Três Noites”, um som maciço e inesperado da voz que até então parecia ser entregue à leveza. Um desvio, ou talvez um novo caminho neste percurso que traçamos ao passo que o narrador traça. Uma antecâmara para o convite que nos é feito em “Bola de Bilhar” ( Vem comigo ao fim dos tempos) e à localização que nos é dada em “Coimbra B”, a glabela física do compositor (o meio do caminho entre Lisboa e Porto) ou a mental (não se pertencer nem a uma coisa nem a outra na totalidade). O espaço é uma questão de espírito. O fim da nona música é o impulso de pôr a tocar de novo a primeira no entendimento que esta corrida de raciocínio a que nos juntámos aparentemente pela metade vai dar à cauda do pensamento, das personagens que nunca morrem e que se montam com a mecanicidade das regras de um jogo que nos ficam. Bola de Bilhar é manual para uma meditação que marca. Nessa noite não jogaram bilhar, mas prometeram que quando jogavam não faziam batota. Só havia ping-pong . Fotografias: Leonardo Tavares
- 28 de Janeiro de 1976
Uma força nunca vista antes. Lembro-me de olhar para a sua figura e sentir-me o ser mais pequeno do universo. Diante dela, o mundo encolhia, e eu também. Pergunto-me se sabe que, todos os dias, eu escolheria não estar aqui se isso significasse o seu triunfo. Passam anos e anos, um atrás do outro. Cresço e já não sou assim tão pequena. Já sei caminhar, já sei manter a calma, mas ainda é ela a primeira que me vem à cabeça quando tropeço ou quando o ar dispara para tudo quanto é canto, menos para os pulmões. Às vezes, pego-me a pensar, em meio a tarefas muito importantes do dia, quando estava na cozinha, sentada no chão, a apreciar as tuas mãos cheias de farinha e muita história a fazer aquele bolo simples, mas que era capaz de trazer alguém de volta à vida. Preciso de uma fatia desse bolo agora. Quero voltar à vida. Eu quero aquele chão de novo; caminhar sem ele é muito mais difícil do que eu pensava. Eu quero uma fatia do bolo, mas hoje ele é teu. Feliz aniversário, mãe.
- Poseidon Drag
No dia 15 de dezembro de 2025, o Jur.nal esteve no Café Jeronymo do Cais do Sodré com Poseidon Drag. Numa conversa polvilhada de risos e brilhos, a drag queen do momento falou-nos da sua viagem de Recife para o mundo, de como os sonhos se moldam com a matéria dura da realidade e do significado de partilhar o protagonismo do palco com o peso simbólico de representar toda uma comunidade. Quem é Poseidon? Poseidon nasceu no seio teatral. Afastando-se do drama puro, equilibra no seu ser a versatilidade do oito ao oitenta, fruto de coprotagonismo da comédia e do horror na sua vida e, consequentemente, na sua arte – “Prazer, doida!”. Artista desde que se lembra, Poseidon deu os seus primeiros passos no grande palco há vinte e cinco anos. Sonhava em ser atriz, e até artista de circo - chega a confessar -, mas os pequenos sussurros do seu chamamento para o drag foram sendo cada vez mais altos – “sabe quando é assim, Deus chega e fala que você vai e você foi, sem nem querer…”. Hoje, treze anos depois, abraça com orgulho o papel da sua vida, que se tornou a sua mais completa expressão. Influências Artísticas O teatro e o cinema são as suas principais musas. Estando no ramo há mais de duas décadas, as suas referências enraizaram-se de tal forma no trabalho de Poseidon que, agora, dificilmente se consegue afastar e buscar inspiração noutras dimensões. Com influências culturais imaculadas, a artista leva-nos numa viagem pelo mundo da arte como quem nos mostra a sua casa. Tal versatilidade advinda do seu ecletismo acaba por lhe dar o charme de quem vive pela sua paixão pulsante. De Recife Para O Mundo Quando iniciou o seu percurso no drag , há treze anos, a ambição e determinação alimentavam a máquina incansável de brilhos, competições e lip syncs : participava em concursos locais, trabalhava em festas, fazia espetáculos em discotecas e tudo mais que lhe permitisse mostrar que Poseidon era mais que um sonho. Contudo, admite que nem sempre foi fácil. As dificuldades de entrar num meio ainda estigmatizado levaram-na a esconder a sua verdadeira pessoa, tendo mantido a sua arte em segredo por muito tempo. Ademais, o drag surgiu espontaneamente na sua vida fruto do teatro, levando a que os primeiros tempos – quando ainda era conhecida por Poseidon Pussy – ficassem marcados pela inexperiência de quem ia não só se descobria a si mesmo, como ao seu lugar no palco. “Quando eu comecei eu não sabia costurar, não sabia me maquilhar, não sabia fazer uma peruca, não sabia comprar um salto…”, chega a admitir. Aliás, foi fruto da necessidade enquanto drag queen que a costura surgiu na sua vida. Num universo em que as exigências e os custos são elevados, aprender a conceber o seu próprio guarda-roupa tornou-se numa verdadeira mais-valia. Assim, e ainda que inicialmente a costura fosse uma ferramenta acessória para o drag , mais tarde tornou-se numa profissão por si exercida, de modo ao seu portfólio ser composto por renomados artistas internacionais – desde Lady Gaga a Lana del Rey, entre outras figuras de destaque. Atualmente, com o amadurecimento artístico, Poseidon usufrui do mérito e privilégio provenientes de todo o seu árduo esforço. Tal é refletido na possibilidade de escolher os projetos que melhor se adequam ao rumo pretendido para a sua carreira, um “recuo” necessário para que o brio do seu trabalho não ficasse comprometido com a sua ambição, algo que anteriormente era inexequível. Acrescenta: “Eu também tento focar noutro projetos na minha vida para a Poseidon: sair da boîte e, sei lá, focar numa novela, num filme…, então se tem projetos que eu quero fazer além da boîte, é preciso recuar. Antigamente eu não iria recuar: iria estar na boîte e com esses projetos e eu iria enlouquecer (e me jogar de um prédio de trinta andares)”. Assim, Poseidon catapultou-se do Recife para palcos espalhados pelo mundo. E em cada um deles deixa a sua marca: performances onde o riso é garantido, o glamour é a gosto e a loucura é o charme – pois se antes era ela quem lutava pelo holofote, hoje é ele que não a consegue largar. Com esse percurso, Poseidon deixou de ser meramente mais um nome na noite para ocupar um lugar central no imaginário do público: entre festas, concursos e discotecas, fez com que o seu trabalho ultrapassasse os limites do palco noturno, prolongando-se até à luz do dia e ao horário nobre. Muitas outras questões podem ter mudado com a inevitabilidade temporal, mas Poseidon? Essa é sempre a mesma! Drag Queen ou Rainha do Drag ? No Brasil, a sua carreira foi inicialmente marcada pela participação em inúmeros concursos de drag – palcos onde o pódio raramente lhe escapava e através dos quais começou a dar-se a conhecer ao grande público. A esse percurso juntou-se a residência na discoteca Pink Flamingo, no Rio de Janeiro, espaço que mantém até hoje e que identifica como o primeiro lugar onde sentiu, verdadeiramente, o seu trabalho ser valorizado. Foi também a partir de uma visita familiar que Poseidon teve a sua primeira experiência profissional em Portugal, aproveitando a estadia para explorar palcos deste lado do Atlântico. Confessa, no entanto, que a vivência se revelou difícil: as necessidades financeiras e as condições de trabalho pouco favoráveis marcaram negativamente esse período, ainda que tanto adore o país. Tudo mudou com o Drag Race . A atual Rugirl participou na última edição do Drag Race Brasil , de onde leva a aprendizagem de uma vida, serves imaculados e o terceiro lugar. Ainda assim, não esconde o sentimento agridoce que acompanha este reconhecimento tardio - o de ver a visibilidade surgir associada ao programa, e não aos muitos anos de dedicação anteriores: “É a questão de usar a minha imagem antes de ser uma Rugirl por exemplo…, eu não era valorizada, eu não tinha trabalho… eu trabalhava num lugar que é a Pink Flamingo que me abriu as portas. Eu trabalho lá até hoje, mas as outras boîtes não queriam trabalhar comigo e hoje todo o mundo quer!” Não obstante, o sucesso decorrente do programa levou-a numa tour europeia ao lado de Ruby Nox e Paola Hoffman Van Cartier, também concorrentes desta edição. Em Portugal - incluindo palcos que já conhecia - Poseidon sentiu, desta vez, ser tratada de “outra forma” em relação à sua última experiência, sublinhando a forma como a projeção mediática altera a perceção e valorização do trabalho artístico. Nesta lógica, enfatiza a necessidade de dignificar a carreira de quem trabalha na vida noturna, independentemente da projeção que tenha: “eu estou sendo valorizada agora, mas e se amanhã elas [outras drag queens ] ficarem famosas como eu, vão ser valorizadas também, mas elas têm de ser valorizadas agora, porque a Poseidon de antes é a mesma de agora, só tenho um holofote a mais do que as outras que não estão tendo. Então isso me deixa um pouco triste, porque a valorização dentro da boîte devia ser a mesma – na boîte, SIM, deveria ser tudo o mundo igual”. Apesar dos obstáculos, Poseidon destaca o carinho e apoio dos seus fãs como cruciais para o seu sucesso. Recorda, com emoção, a primeira vez que foi reconhecida na rua: num misto de timidez e felicidade, um empregado de mesa durante um almoço pede-lhe que traga a coroa para “casa”, numa referência simbólica à vitória no Drag Race . Partilha, ainda, o episódio caricato em que foi um fã quem as “libertou” do metro de Lisboa que, à chegada das queens à capital portuguesa, as recebeu com o seu charme tão característico. Brasil e Portugal Separados por um oceano, mas unidos por um amor comum, ambos os países preenchem o coração de Poseidon, que não esconde o seu gosto em trabalhar cá. Para si, acredita que em Portugal (apesar da visão mais conservadora do país em relação ao drag ) existe mais respeito e valorização - especialmente a nível financeiro - e segurança: “eu sinto que aqui consigo viver mais como uma pessoa “normal”, saindo na rua montada (…) as pessoas olham e ficam na delas”. Ainda assim, aponta para a persistente dificuldade em ver as drag queens reconhecidas como artistas completos, para além da lógica de “contratar para ficar no palco”, o que limita irremediavelmente as oportunidades de crescimento profissional no país. Neste sentido, não consegue deixar de realçar o Brasil como público-chave para a sua arte. A maior abertura das redes sociais ao drag facilita a visibilidade e a possibilidade de conseguir ter o seu “grande momento” – algo que considera ainda pouco explorado na Europa, em parte devido à reticência comercial em investir plenamente neste universo: “É que no Brasil tem alguém na porta te recebendo, você paga para ela, tem as drags no salão, tem uma drag no palco, tem drag vendendo bebida. Pink Flamingo, lá no Brasil tem drag em tudo quanto é lado!”. Porém, adiciona que a projeção social nem sempre é acompanhada pelo respeito que as carreiras em drag merecem. Assim, entre os dois países estabelece-se quase uma dança de compensações: se num lado a valorização é sobretudo monetária, mas culturalmente frágil, no outro há reconhecimento simbólico sem o necessário suporte socioeconómico. Drag não é só glitter Por detrás da cortina, o drag nem sempre mantém o ofuscante brilho que lhe é característico: a subvalorização, o desrespeito e a exploração continuam a fazer parte do quotidiano de muitas queens - por vezes, inclusive dentro da própria comunidade LGBT+. Poseidon admite que o preconceito apenas tende a ser atenuado com a fama, algo que lhe causa perplexidade. Para si é algo completamente ininteligível, já que vê as drags como armas poderosas (e escudos) na luta contra a estigmatização, funcionando como verdadeira “porta de entrada” para uma progressiva inclusão: “As drags estão lá à frente junto com as travestis e com as trans… com os gays e com as lésbicas. A gente é a cara da bandeira: a porta da comunidade. Então, como é que você vai desrespeitar alguém que luta para você estar na rua? Isso me deixa muito triste, as pessoas saberem que somos a porta de entrada do mundo LGBT+ e desrespeitarem-nos.”. É de salientar, ainda, que neste meio instalou-se o universo do showbiz , um recinto tão conceitualizado que até ao desrespeito lhe corresponde uma personagem própria. Sob a máscara de ativismo performativo, grandes corporações e detentores de poder capitalizam a popularidade das queens , transformando identidades, lutas e sonhos em mercadoria - e sem nunca devolverem o aplauso digno de quem sustenta o espetáculo. O Pink Money impõe-se como moeda corrente: a visibilidade cultural de um membro da comunidade circula como capital simbólico, convertendo-se em lucro para grandes entidades que, no sonho de um artista, veem simultaneamente uma oportunidade de negócio (e de pontos de moralidade!). A entrega de corpo e alma à sua arte, muitas das vezes inclui uma entrega da sua dignidade: quando quem está no poder não valoriza a cultura pela sua essência, mas sim pelo seu lucro, o sofrimento do artista é o sucesso mais certo. Luta pela Comunidade As confissões de Poseidon levantam uma questão recorrente: por que razão é que, tantas vezes, o trabalho de artistas apenas é verdadeiramente significado após passar pelo grande ecrã? A própria identifica este fenómeno como um dos problemas omnipresentes no mundo do entretenimento, especialmente na vida noturna, que peca por não valorizar de forma equitativa quem o sustenta. Contudo, Poseidon apela à humanidade do público, desmitificando a ideia de que “artista é tudo louco”, afirmando que é esse mesmo “exagero de espetáculo” a única forma de que quem assiste, realmente os veja: “Ahh, as pessoas pensam que eu sou doida e eu não sou doida – drag não é doida. Na minha entrada do programa é exatamente essa metáfora que eu faço: “ah artista é doido”, mas não a gente não é doido, é só esquecido…não é visto. Então, tudo o que é normal para vocês que não é visto como normal na sociedade é visto como doido, é tudo mito. A gente é gente normal!” É precisamente aqui que a noção de humanidade se impõe como central, especialmente na questão da proteção das queens numa sociedade gradativamente mais acentuada sob a falsa pretensão de progresso. A artista reconhece que o estigma em torno do drag é oriundo de um lugar de incompreensão e relutância do outro que - na sua caverna platónica - acaba por sucumbir à intolerância alheia: “Todo o mundo devia ter o direito básico de amar e de ser uma “pessoa normal”: nós não somos monstros e devemos ter os mesmos direitos de uma pessoa que se diz “normal” na sociedade”. Poseidon adiciona ainda como a falta de compaixão contribui para esta visão retrógada da realidade, que tão frequentemente ataca a comunidade – “Se eu tenho pinto, tenho bunda, tenho cabelo todo café igual você…nós somos iguais, todos. Só que eu gosto do mesmo que você – e isso é um problema para você?. Então é esse o direito que a gente devia ter: de casar e amar e foda-se.”. Neste aspeto, a Rugirl relembra a importância de projetos como o Drag Race – um programa realizado pela comunidade e para a comunidade – cuja projeção serve como impulsionador de abertura, mesmo das mentes mais fechadas. Afirma: “É em relação a isso que surge a mensagem que o Drag Race passa: é justamente humanizar o artista e o que a gente passa, te mostrar que eu sou igual a você. Até para quem vê o programa, a gente aparece mais de homem do que de drag – para mostrar que eu passo por situações que você também passa, e que estou ali, superei aquilo tudo para poder estar naquele lugar.”. A essa dimensão coletiva soma-se uma responsabilidade profundamente pessoal. Poseidon assume o desejo de ser exemplo para quem ficou no Brasil, com a intenção de provar que a arte não precisa de permanecer confinada ao estatuto de sonho distante. Acredita, por outro lado, que o sucesso é possível e que o esforço, apesar de tudo, compensa. Assim, não esconde o entusiasmo com a possibilidade de voltar “aonde tudo começou” e encorajar outras queens e artistas independentes a acreditarem em si mesmos - como quem diz que quer “voltar lá e falar: agora vamos todo o mundo!”. Perspetiva Futura A dimensão representativa deixa de habitar apenas o território da inspiração e impõe-se, com peso e consciência, na vida e na carreira da artista. Poseidon não esconde o desejo de se aventurar por novos projetos que a desafiem, mostrando-se aberta a descobrir diferentes formas de se projetar no mundo cultural. Da televisão — e do fabuloso universo do reality TV e das telenovelas — ao cinema e, como seria de esperar, ao teatro, a artista acolhe a multiplicidade de palcos com curiosidade e ambição. Bravo Final Espírito (quase) indomável, Poseidon é o alter ego de um jovem menino gay que em si encontrou a sua expressão mais autêntica. É a manifestação mais genuína de como a arte, quando pulsante, dificilmente consegue ficar adormecida. É um grito de coragem contra o medo e o preconceito. A voz de quem sonha – e sabe – que há sempre lugar para mais um… para todos. Força livre da natureza, Poseidon encanta quem a assiste: o brilho dos seus olhos inspira qualquer um, conectando-se com o interior mais íntimo de cada pessoa e trazendo-o à superfície num gesto de libertação conjunta. Se o universo artístico é uma grande ostra, Poseidon será decerto a sua preciosa pérola. Para quem não se consegue segurar na sua curiosidade, recomendamos visitar a sua página do Instagra m ou até mesmo aventurar-se numa maratona da segunda temporada do Drag Race Brasil (disponível na plataforma WOW Present Plus). Fotografias: Poseidon Drag
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