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  • Concurso de Escrita e de Fotografia 2026 - textos e fotografias a concurso

    Aprecia os textos e fotografias a concurso e vota no teu texto e na tua fotografia favoritos, respetivamente, através dos links: Para votar no texto: https://strawpoll.com/NoZrz8obBZ3 Para votar na fotografia: https://strawpoll.com/GPgVYv7p4na Texto 1: Picada Sinto-me melhor, ainda não curada desta doença que me assola o coração e me enche a mente, mas livre daquele sentimento prisioneiro de angústia que pica e insiste em dizer que não é e nunca vai ser. Sinto-me esperançosa por algo melhor, por uma vida melhor. Vejo o amanhã com ansiedade. Ansiedade de viver, ansiedade de sorrir. Estou farto deste estado de transe que me impede de seguir e de voar. Quero ser livre e quero acreditar. Quero pairar na minha mente e nos meus pensamentos e ver luz e felicidade e não tristeza e incerteza. Sou como uma abelha numa colmeia à qual pertence, mas da qual não se sente parte. Texto 2: Bzzz Bzzz... Texto 3: O mel não tem validade O mel não tem validade e, pelos vistos, o fascismo também não. Há coisas que o tempo conserva melhor do que devia, o mel é uma delas e ideias sem convicção são outra. Enquanto há doces que repousam intactos dentro de um frasco, há venenos que atravessam séculos com uma resistência admirável. Mudam o rótulo; mudam a língua (na NOVA talvez não); mudam o uniforme; mudam a bandeira..., mas chegam sempre frescos às mãos de uma sociedade distraída. E talvez até seja essa a grande tragédia humana, estragar depressa a memória a conservar demasiado bem aquilo que destrói. E ainda há quem diga que a história tem utilidade. Que depois de corredores escuros, de passos ouvidos ao amanhecer, de portas abertas à força, de vizinhos que trocavam a consciência por denúncia e de famílias ensinadas a sussurrar dentro da própria casa, que haveria feridas demasiado profundas para se voltarem a abrir. Que certas vergonhas - uma vez expostas - jamais voltariam a reencontrar abrigo entre nós. Contudo, como tudo na vida, o passado raramente morre. Apenas recolhe. Espera por tempos difíceis, por bolsos vazios, por orgulhos feridos, por sociedades cansadas, por jovens revoltados e velhos agarrados à nostalgia. Espera que a consciência adormeça e que a dignidade passe a ser um luxo. Espera, sobretudo, que a fome de respostas rápidas seja maior que a coragem de pensar. E quando regressa, caros amigos, nunca regressa sozinho - regressa aplaudido. Onde antes se ouvia os sussurros de uma PIDE, hoje há outras siglas, outros crachás pendurados ao peito. Onde batiam à porta por ideias, agora batem por documentos. Onde se levava homens em nome da ordem, agora separa-se famílias em nome da segurança. Antes dizia-se em bom português, PIDE, hoje traduz-se no mais coloquial do inglês, ICE. Mudaram os nomes, mas nunca o cheiro, um resquício de quem há muito dizia “gira o disco, mas toca o mesmo”. Porque o autoritarismo aprendeu a modernizar-se. Já não precisa de gritar tanto, basta-lhe parecer razoável, basta-lhe um discurso sobre controlo, uma conferência de imprensa, uma estatística mal explicada, um inimigo conveniente e uma população suficientemente exausta para aceitar qualquer coisa que prometa descanso. E há sempre quem aceite. Há sempre quem prefira a segurança de uma ordem qualquer à incómoda exigência da liberdade; há sempre quem aceite a humilhação alheia desde que venha devidamente, carimbada e justificada em relatórios, em nome da lei. Há quem ache normal prender mães, matar pais e separar crianças desde que tudo soe respeitável quando dito. E assim se vai chamando de civilização ao que, em qualquer outro tempo, teria outro nome. Surpreendentemente, as colmeias também funcionam assim. Basta uma vibração certa e o enxame move-se por inteiro. Ninguém pergunta para onde ou porquê, limitam-se a seguir o som, o impulso e a seguir quem vai à frente. E nós, que em muito nos julgamos superiores às abelhas, repetimos o mesmo dilema incessantemente. Corremos atrás de vozes convictas, frases simples e certezas, acima de tudo, baratas. “Paz, terra e pão”, gritavam-se noutros tempos para responder à fome real. Atualmente, vendem-se versões plastificadas do mesmo mecanismo, “Make America great again” como se o tom de pele laranja pudesse fazer de alguém digno de orações diárias, pregadas em praça pública. Não se distribui pão, distribui-se nostalgia. Não se oferece paz, oferece-se inimigo. Não se dá terra, promete-se ostracização. E resulta. Porque os slogans funcionam como as flores artificiais, de nada servem, mas ao longe pelo menos parecem bonitas. Mas não nos esqueçamos do tradicional e irreverente, veneno doméstico, esse que está sempre pronto a rastejar para cima da mesa, “isto não é o Bangladesh”, dizem alguns, como se a dignidade humana dependesse de algum tipo de código postal. Como se a miséria dos outros pudesse medir a ilusão daquilo que é o valor próprio. É aqui que se percebe que o problema nunca foi só o tirano. O problema acaba por ser a multidão disponível. O ser humano que ri, que partilha e que em lato senso só sabe dizer “não exageres”, que fecha os olhos desde que não lhe batam à porta, que só descobre princípios e direitos pregados numa dita constituição quando a violência lhe entra consciência adentro e que no fim só acha que a crueldade é abominável quando se coloca em causa o apelido arcaico. E é por estas e por outras que se deixa crer que existem homens extraordinários que podem anular regras comuns porque o seu destino justifica o fim da dignidade humana. O argumento poderá mudar de século para século, mas a ideia mantém-se: continuam a existir vidas sacrificáveis, danos necessários, atrocidades temporárias e exceções urgentes. Foi assim com impérios, ditaduras e continua a ser com deportações em massa, prisões seletivas, vigilância normalizada e discursos de ódio vendidos como patriotismo. Primeiro, há que escolher os que de nada valem, depois normaliza-se o seu sofrimento e por fim chama-se pragmatismo ao que antes se poderia considerar como crime de guerra. E enquanto isso, há sempre quem ande a colher o mel. Já que, no meio do barulho, enquanto o enxame se divide e ataca, existe sempre um apicultor invisível a lucrar com a confusão. O político que sobe nas sondagens, o empresário que ganha com a mão de obra desesperada, o canal no Youtube que cresce com a indignação politizada e o dito Chefe de Estado que agradece a distração. E a coitada da Abelha-Rainha, também só dança ao ritmo de quem lhe segura a caixa. E no fim, até há quem se admire quando tudo fica misturado. O mel não tem validade e o fascismo, pelos vistos, também não. Um conserva-se em frascos fechados durante séculos, o outro conserva-se dentro de gente estúpida e ressentida. No final, basta aparecer alguém para desapartar a tampa para que o cheiro se faça sentir por si. Fotografia I Fotografia II

  • adeus

    adeus que me vou embora caros colegas, amigos, chegou a hora de partir, e não podia fazê-lo sem que vos dirigisse umas palavras. uso o jur.nal para o fazer, porque não só sempre foi casa, como sempre figurou porto seguro nesta faculdade, e dele também hoje me despeço. no mito de sísifo, camus conclui que sísifo é feliz ao aceitar a inutilidade do seu esforço, tornando-se superior ao seu destino e encontrando sentido no seu próprio caminho. é difícil resumir os últimos 4 anos num texto só, mas tentando, saio como sísifo, feliz, porque como ele, encontrei no meu caminho o seu sentido, e o meu propósito. ao longo deste meu percurso, fiz de tudo um pouco, ocupei-me ao máximo, entreguei-me na totalidade à missão de colocar um ou dois tijolos nesta casa que almejamos tornar nossa. gosto de acreditar que fui capaz de o fazer, mas independentemente disso, o processo transformou a pessoa que sou por completo, o que só mostra o sentido da missão, e a importância que ela teve na minha vida. e agora que me vou embora, não só me resta dizer adeus, como me resta agradecer. aos meus padrinhos, pelos conselhos infinitamente valiosos, que me permitiram sobreviver à licenciatura; aos meus afilhados, pela confiança astronómica que depositaram em mim, e pelo prazer que me dão diariamente ao ver-vos crescer e a encontrarem também sentido na vossa missão; aos boémios, que se tornaram casa dentro da faculdade e que confiaram em mim para os liderar; aos meus amigos de antes e à minha família, por compreenderem a falta de tempo, os atrasos, por me apoiarem e me darem espaço para crescer; aos amigos que fiz na faculdade, pelo companheirismo de todas as horas e pelo papel fundamental que tiveram na minha licenciatura; aos finalistas e à comissão, que confiaram em mim a organização do tão especial dia de amanhã; a todos aqueles com quem falei, com quem discuti, a quem abracei, a quem amei. obrigado, obrigado, obrigado. a pessoa que sou hoje é um reflexo de cada um de vós. levo-vos comigo, vá para onde vá. é esse sentimento que me faz saber que valeu a pena. a ele, começa a aliar-se a dor de partir, e a dor da saudade. havendo inúmeras formas de descrever saudade, permitam-me que a descreva como o privilégio de quem teve sorte de ter algo tão incrível para dizer adeus. obrigado por terem tornado os últimos 4 anos os melhores da minha vida. obrigado por me fazerem sentir saudade. é irónico que saia com o mesmo sentimento de falta de tempo que senti nos últimos anos, mas agora já não é falta de tempo para mim, para a família, ou para o que quer que seja. é falta de tempo para que o café no bar não seja o último, para que a cerveja do convívio não seja a última, para uma última ida ao são paio, para uma próxima praxe. o meu tempo acabou, e apercebo-me que ainda bem que escolhi não ter tido tempo, porque pude viver o curso todo, na sua plenitude (ainda que a assiduidade na sala de aula tenha deixado a desejar...). mantenho o juramento que fiz há já quase 3 anos, e que em breve vou ver fazerem pela última vez, juro despedir-me sempre com uma lágrima no canto do olho, uma lágrima no canto do olho. e despedindo-me, juro nunca dizer adeus.

  • A flor

    Oh flor... Oh minha flor de pétalas negras.. Oh minha flor de espinhos bicudos… Minha não... Minha não és, Nem tu, Nem as tuas pétalas negras, Nem os teus espinhos bicudos, Nem nada. Minha não és... Oh flor... Se ao menos as tuas negras pétalas fossem minhas, Assim não teria de sonhar em colhê-las. Oh flor... Se ao menos os teus bicudos espinhos fossem meus, Não teria de sonhar em neles sangue derramar. Oh flor... Se ao menos tu fosses minha, Já não teria de sonhar. Se fosses minha, colher-te poderia, Se fosses minha, em ti meu sangue derramar poderia, Se fosses minha... Oh flor... Oh minha flor…

  • Reino do Gelo

    neste reino só é possível entrar, sair já é complicado demais; só quando vem uma avalanche a rasgar é que se rompem os portais. as pessoas vão-se acumulando, acumulando e acumulando sem parar, como neve que cai, silenciando, sem nunca ter onde pousar. e a natureza, furiosa contida, à mínima provocação, ergue uma força desmedida, numa súbita convulsão. cria uma avalanche tão grande, tão branca e tão brutal, que tudo o que antes era constante é lançado para fora do mural. daquelas muralhas erguidas, de pedra fria e densa, as presenças ficam perdidas numa expulsão imensa. e começa-se tudo de novo, o ciclo reinicia-se então; fecha-se o reino ao povo, tranca-se o próprio coração. muralhas tão altas, tão altas, que tocam o céu sem ceder, erguidas por faltas e faltas de quem não sabe dizer. lá dentro, naquele reino fechado, o exterior não consegue afetar; o mundo bate, cansado, mas não o consegue tocar. naquele reino o inverno perdura, num frio que insiste em ficar; ninguém tem noção da altura do tempo que passa a passar. perdeu-se com a monotonia da estação, na neve que nunca se rende; é um reino feito de contenção, que só na avalanche se entende.

  • Carta aberta aos sonâmbulos perto das janelas

    Hoje não é dia 1 de maio, é dia do trabalhador. Há dias não foi dia 25 de abril mas dia 25 de abril. Poder saber a diferença de significados dessas enunciações idênticas, poder provar os dias como mais do que subcategorias de um itinerário mudo, de resto, os porquês em que estas faculdades assentam, não são mutações de parto e trato próprios. Têm pai e padroeiro. Não tornam a brotar por obra espontânea e imaculada nem se autopreservam até à indestrutibilidade, sem limite. Mas hoje estamos cansados, já cercamos o Carmo, mobilizamos a greve geral lá dos trabalhadores, ou por outra, dissemos que existiu quando aconteceu noutro país e até fizemos um feriado a propósito do assunto quase um século depois, aliás, o cansaço já estava para aqui acumulado - andamos cansados, ainda noutro dia tivemos que implantar a monarquia, e antes disso ainda foi preciso tratar da sanfona do regicídio e antes disso ainda houve aquela massada de deixar de ser condado, isto anda tudo muito apertado para que um tipo se ponha com grandes registos… E nesta lástima, o rei segue nu, seguro de que veste suntuosidade, de glúteos ao frio e ilusão ao léu. Esquecemo-nos de que a História tem humor sádico e que prega rasteiras cíclicas aos que insistem em tropeçar no mesmo esbarro, no mesmo entrave de adiar olhar, adiar falar, adiar conhecer, adiar saber para ADIAR VIVER E ANTECIPAR MORRER. Estendemos o regozijo das conquistas acreditando-as garantias. Incorremos no risco de perder a data, o bolo e as velas ao colocarmos o cone de festa e batermos as mãos só quando é óbvio que é para cantar. Votamos como quem sopra velas: um gesto repetido e mecânico, com a esperança infantil de que algo mude no escuro. Individualizamos teimosamente acontecimentos, circunscrevemo-los às suas especificidades, repudiamos a nossa relação às coisas. Odiamos estar relacionados às coisas. Praguejamos o azar, de mão ainda na massa. A morte não é pincelada mas mosaico, é o conjunto de tudo o que se deixa de fazer. O propósito e a vontade são frágeis face ao que consumimos, e são boca e cauda das nossas ações. A perda de agência na determinação do que nos importa materializa-se na inação, perfeito pêndulo de Newton respirante neste quadro, onde nada se desloca. O Jur.nal surgiu em novembro de 1998 com Vera Eiró como espaço-além incomum para que os estudantes de Direito pudessem criar além do pensamento académico. Partindo de um pressuposto até que sair do círculo aguça a perspetiva. Este mandato introduziu as rubricas de cobertura de assuntos correntes pela elucidação de especialistas e a de descoberta cultural pelas vozes dos próximos nomes. O Jur.nal não precisa de existir até porque não existe, existe um site que se pode desmantelar, uma conta de edição paga que se pode cancelar, pastas que se podem arquivar, grupos de que se pode sair. O Jur.nal não cai até porque não anda. O Jur.nal não morre até porque não metaboliza nada. O Jur.nal é só instrumento de um porquê, a língua entre a mistela e o sabor. Hoje estamos cansados, já escrevemos muito para o Jur.nal, eles lá no site já têm várias edições lá na secção do arquivo… O Jur.nal é só instrumento de um porquê. Se os estudantes cederem a vez das perguntas, quem lhes reconhece o conhecer das respostas?

  • Nero

    No dia 6 de março, o Jur.nal deixou-se conduzir pelo poeta Nero pela reunião da curvatura dos círculos do tempo. Algures nessa dobra mística entre o que herdamos, perdemos, esquecemos mas somos : a obra e o pensar de Nero e os granulados de si que partilhou nesse dia. A mão por detrás do gesto Nero é Roberto Simões, algarvio nascido em 1987, que divide a devoção entre a docência de Português e Literatura e a construção de um universo literário que recusa a pressa. Autor de maturação em lume brando, permitiu-se a preparar a sua voz numa antecâmara de humildade voraz, agarrando os saberes e hipóteses que advém da exposição profunda ao estudo da língua e da literatura, como frasco de vaga-lumes, querendo percebe-la antes de a proferir sua. Estreou-se com "Oceano - O Reino das Águas" em 2021, onde fundiu, de forma inédita, o rigor da poesia épica clássica com a liberdade da fantasia moderna. A génese da obra de Nero não se encontra no conforto da inspiração súbita, mas num longo e penoso período de impasse. Durante quase duas décadas, o autor carregou o peso de uma hiperconsciência do texto, exacerbada pela sua passagem pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ali, a perceção de que na poesia as palavras não podem estar ao acaso — de que cada som e cada vírgula carregam uma responsabilidade ontológica — imobilizou-o. O perfecionismo tornou-se uma angústia espiritual; Nero sentia a escrita como chamada para se cumprir, mas via-se por vezes truta em céus de pássaros pelo obstinado contacto com os grandes, cuja inspiração por vezes é tanta que nos assopra do ringue, de tentar. Foi necessário o regresso ao equilíbrio da sua geografia algarvia para que esse nó se desatasse. A escrita revelou-se, então, como um processo psicoativo: uma ferramenta de equilíbrio químico e mental, capaz de harmonizar o espírito com o mundo. O seu primeiro livro, "Oceano", é o testemunho dessa libertação. Inspirado pelo contacto infantil com o mar do litoral algarvio, onde a imaginação estendia o desenho do horizonte do que estaria oculto sob as ondas, Nero criou uma epopeia onde seres fantásticos guerreiam em cenários submersos. Imiscuír-nos no pensar de Nero é descobrir um arquiteto que planeia os seus livros com uma obsessão rigorosa pela simetria, uma característica que associa a uma certa "alma árabe", onde a arquitetura é feita de equilíbrios geométricos. Influenciado pela estética visual de realizadores como Stanley Kubrick ou Wes Anderson, o poeta organiza a sua produção através de jogos de espelhos e centros de equilíbrio. Cada volume da sua "Trilogia do Espírito" rege-se por uma numerologia e um elemento próprios. "Oceano" (Água) é dominado pela simbologia do número cinco; "Telúria" (Terra) foca-se no número três, espelhando a transição do campo para a cidade e o posterior regresso à natureza; "Akbar" (Fogo) estrutura-se sobre o número quatro, correspondendo às fases da lua. Esta organização não é meramente cosmética; é uma estrutura de suporte para o espírito e para o livro enquanto objeto visual total, onde os frontispícios e as cores das capas comunicam entre si. Com formação musical pelo conservatório, Nero admite que os seus versos nascem frequentemente no som antes da palavra. Aglomeram-se sonoridades na sua mente, intuições rítmicas que acabam por ditar a escolha dos vocábulos. Para o autor, a musicalidade é um território que a poesia contemporânea tem muitas vezes negligenciado, mas que ele reclama como essencial, explorando ritmos que vão para além da rima tradicional e que tornam os poemas mais vivos. Esta ligação ao som levou-o a uma nova dimensão: a recitação ao vivo. Se inicialmente hesitava em dizer os seus próprios textos, a experiência em festivais como o MED ou a Feira Medieval de Silves mudou a sua perceção. Ao declamar acompanhado por instrumentos como o rubab afegão, o alaúde árabe ou a flauta ney, Nero descobriu que os seus textos passam a "respirar de outra forma", ganhando camadas de sentimento que a leitura silenciosa nem sempre revela. Em "Akbar — Lunário Poético duma Alma ainda Árabe", publicado em 2025, Nero respira a memória depositada nas pedras de Silves. O livro é uma resposta à curiosidade sobre a influência árabe que persiste na agricultura, na arquitetura e na alma da região. Mais do que um exercício histórico, o título remete para o que é "maior", cruzando a ideia de destino com um lunário poético que divide a narrativa em quatro partes: do nascimento da fé islâmica à queda do império e às pontes com o presente multicultural. Apresentado à sombra das muralhas de grés, no Café Inglês, a obra propõe o silêncio e a tolerância como instrumentos de convivência. Para o autor, este livro devolve ao leitor uma parte de si que permanecia adormecida, evocando o legado de figuras como Ibn 'Ammar e al-Mu'tamid. O percurso de Nero tem sido um caminho de abertura. A sua experiência internacional em Marrocos e Espanha, através do projeto "Poesias do Mundo" alavancou um gosto pelo qual admite vir a aventurar-se, sem levantar para já o pano além da dose de introdução necessária aos curiosos. Embora recuse o papel de ativista explícito, Nero reconhece que a sua poesia carrega bandeiras de diálogo intercultural e autoconhecimento. O seu próximo projeto literário promete alargar o círculo para lá do Mediterrâneo, mergulhando na sabedoria ancestral da Amazónia e na cosmogonia Tupi-Guarani. Ali, procura explorar a ideia de que a palavra e a alma são a mesma coisa: nomear um ser é assumir a sua alma. No horizonte está ainda um trabalho sobre neurodivergências, um tema que Nero encara como uma exploração da singularidade do cérebro e como parte de uma busca contínua pela serenidade. Nero vai deste modo compondo origamis de peso e luz dos meandros e interseções dos mundos que existem no passo que tomamos, no que tomaremos, na terra e debaixo do sol em que isso se dá. Como um ourives da palavra, um bardo do verso, o Zéfiro dos vários quandos e formas do ser.

  • construsaocivil

    A 18 de fevereiro de 2026, por esparsa e passageira ejeção orbital , Construsaocivil flutuou pelo terreal do Príncipe Real. A captação desta breve fuga para o material da quaseentidade dos ecrãs da demografia pubescente (de espírito/ de hormonas) foi exclusivo do Jur.nal. A página de internet que encabeça o atual estágio da multidisciplinariedade, ocasionando variantes por todo o nosso pedaço de rede nacional, desconstruiu nos rasgos de reflexões adiante, o momento que a arte agora respira nesta sua insuspeita incubadora. Rápida, peculiar e para alguns ainda misteriosa. O fenómeno que encapsula o modo de pensar e fazer arte da geração que agora dá nomes à cultura é a pulga petulante pela qual a calmaria aparente do consenso de humores e referências dos últimos anos não esperava. Na sua estranheza, o redescobrir de um segredo que o Homem vai esquecendo e reaprendendo a cada vaga de cultura que surge: daqui a um mês já não nos achamos graça nenhuma. A permanência no anonimato reconhecível tem sido a escolha de , nome artístico e de resto único nome que oferece porque lhe tratem os que já não se entrosaram com ele a tempo de o reconhecerem dos cabides do infantário. Mostra a cara nas redes de quando em quando por ser tática que diz correr bem. E apesar de não dar o nome cívico às massas, bastam-lhe estas breves aparições para que saibam que é a ele que se devem dirigir, os que prestam maior culto à sua página, para cravar um boné personalizado ou outro qualquer merch, já símbolo de um certo entendimento e pertença à linguagem em que se brinca neste canto de internet. O perfil que corteja quem o visita com o ícone de justaposição de um boiadeiro de berna feliz e a aleatória palavra “arvore”, a sua ausência de acento, e, todo o assumido Dadaísmo que isso propõe e espanta ou faz ficar de rajada, é linha no fio lógico da envolvência de Zagalo com a internet que data de há 20 anos. Fala deste começo com um certo brio de pioneiro, contando ter sido um dos primeiros da turma a desbravar esse novo que se mostrou desde logo lugar onde podia brincar, encontrar e interagir com os seus interesses e formas de estar particulares e sozinhos. Foram várias as brincadeiras que percorreu até chegar a Construsaocivil, principiando-se com uma página de frases não ditas pelo Bob Marley, ditas pelo Bob Marley, em 2014; teve um perfil de Facebook com amigos da faculdade de memes sobre cultura popular portuguesa; até que finalmente, em momento de quarentena, se deparou com as volumosas pastas que havia acumulado de memes que criara com potencial para entreter um público maior do que o de então, dos seus conhecidos no discord, criando a página que conta hoje em dia com mais de 18 mil seguidores. Referindo-se a uma publicação recente sobre garfos a trocar impressões sobre amor, explicou como o chamamento nesta relação para-social remete para a ideia do real, um real não necessariamente seu, mas que também o podia ser, genérico, de alguém certamente. E acabar por ser esse o encanto da verdade imensurável do comum vago à volta do qual acabamos todos por orbitar. Ainda sobre o que o leva a criar e publicar neste formato disse, rejeitando a perceção de que os memes são necessariamente humor, que apesar deste ser por vezes motivo, existe toda uma vontade de tomar registo, de fazer referência e apelo a sub culturas, nichos, ser o aceno inesperado a esse compartilhado simplesmente para que este exista em algum lugar. A criação surge-lhe esporadicamente de forma automática, como um picar do ponto, algo que se leva a fazer diariamente além dos impulsos, tal como a escrita, fazendo às vezes só pelo gosto da ação em si. Reconhece que é possível detetar alguma linearidade e se se quiser até, a existência de “conjuntos” nas suas publicações- unidos ora por tema, estilo ou paranóia que lhe estivesse colada na altura. Agora talvez formados de forma mais inconsciente, quase que já com deslize da prática de quem gera conteúdo com seriedade há seis anos, mas no princípio declaradamente mais matutados e inventivos. A mudança de proposta, que pareceu ter sido reconhecida ao passo da conversa, pode ser compreendida pela sua atual escassez de tempo, apertos materiais e uma certa ponderação de interesses que levou a uma forma diferente de gerir o consumo e a escrita face a este às vezes comboio, às vezes carris, às vezes carvão, às vezes corpo pelo qual o comboio passa por cima- de tudo isso. Vê-se em fase de acertar contas entre o que já escreveu e o conteúdo que já produziu que diz estar em maior peso de satisfação ao corrente. Na ótica dos limites do formato dos memes que o levam a repensar a sua devoção atual a esse tipo de criação, fala sobre o imediatismo preciso para sustentar a sua relevância, invejando a maior permanência ou, pelo menos, maior ausência de pressa de outros âmbitos como a moda e a escrita- temas recorrentes no seu conteúdo seja através da referência a nomes ou cliques, e planos onde gostaria de dar os próximos passos. Foi nesta maré que Zagalo se deixou levar além das porções de aperitivo que serve por vezes na sua conta a nível de ruminações intelectuais. De um cutucar nos meandros do seu fascínio e posição sobre a moda, a cedência desta instigante partilha: não assume nem o que faz (referindo-se aos memes), nem o que gostaria de fazer (referindo-se à moda) como formas de arte apesar de reconhecer que estas necessitam de partir de um artista. Sobre a segunda convicção explicou ver isto assim não só pelo utilitarismo que a circunscreve mas também pela sua condição de objeto as definir mais do que a outras coisas. Contrapõe esta limitação ao exemplo do livro que apesar de poder ser objeto já foi e pode ainda ser só palavras ditas e decoradas, um conteúdo que, ao contrário da roupa, em nada restringe. A roupa veste-nos, condiciona-nos o corpo, pode passear no sublime também mas, e cito porque só tenho como o fazer, o seu raciocínio: “(…)por defeito o sublime não é o seu único objectivo. É também, mas a roupa tem que ser usada à partida. Além disso, a roupa também pode ser alterada, e vai ser alterada à medida que a usas. Não está nunca completa sem o seu uso e mudança: um quadro não reage assim. De igual modo, na perfumaria, cada perfume vai ser fisicamente diferente conforme a pele, roupa, temperatura, etc. Essas formas de criação humana vão ser alteradas por defeito. Tu não mexes num filme: as pessoas olham para a mesma imagem numa tela, mas podem ver coisas diferentes. Há também a questão de posse. A roupa é "nossa". Há muita gente que usa apenas um perfume e é o cheiro dessa pessoa. Acontece com frequência pessoas amigas associarem um certo perfume a mim (o bois imperial), apesar de nem ser o meu perfume preferido. Mas dizem que "cheira a eu". Um filme pode-nos representar muito, mas também não comunica de forma tão directa. No fundo, a roupa e a perfumaria são uma forma de comunicação de NÓS, para o resto do mundo. e as outras formas de arte funcionam numa comunicação menos pessoal, mais DO ARTISTA PARA NÓS. Não se criam quadros para serem usados na rua, por exemplos. e quando alguém compra um quadro, contempla-o na sua privacidade. Acho que a roupa e a perfumaria são feitas muito para serem vistas pelas outras pessoas, e para sermos vistos a usá-las. Mas são também mais que isso…”. No curso desta temática, propôs-se ainda à desmistificação dos quesitos que marcam a inescapabilidade à interseção de tudo o que se consome (moda, internet, etc.) ao ponto do gatafunho. Assumindo a esteira do pensador e disruptor cultural Mark Fisher, afirmou o seu desdém pela crescente obstinação com a nostalgia, os movimentos revivalistas de fotocópia e devoção oca e inanimada às estéticas que vão voltando, sendo o romanticismo premente com o indie sleaze um dos principais dissabores que lhe têm estragado a timeline. Sauda, em contrapartida, a abordagem feita ainda agora à estética y2k, uma abordagem que preza por ter sabido revisitar os métodos de produção e criação desse início do século, com a introdução de algo novo e diferente. Atribui como causa desta tendência para o saudosismo cego a perda de role models e a ascendente cisão entre os temas dos novos e dos mais velhos. Acrescenta que apesar de ser adepto de “por coisas em caixinhas”, reconhecer e nomear padrões e de outras coisas que acredita que estejam certamente listadas num diagnóstico do “DSM-5”, vê o enfoque a suceder anacronicamente, aderindo as pessoas a estéticas/gostos/ propostas pelo seu título, no fundo para elas próprias poderem também ter aquilo que se chamar, e não pela genuína conexão com a sua substância. Sublinha o rídiculo e desajuste do fenómeno pela evidente inexistência de nomes para as coisas no momento em que estas estavam realmente a ser vividas e da impossibilidade de uma transposição idêntica de um evento para um tempo que não o seu. Comenta sobre isto que seria além do mais contraproducente e caricato faze-lo: “Aos 17 anos quando descobri os American football fiquei maluco e achei-os fixes mas eu tenho dois dedos de testa e por isso não ia inventar ser emo em 2013”. Ainda na linha das disparidades quanto à nostalgia desmedida que avassala a internet, observou que a auto proclamação de estéticas e cores surgiam e eram compreendidas numa ótica de maximização de crédito social. Uma clara incongruência com a origem dessas sub culturas, nascidas muitas delas de tentativas de quebrar com a narrativa mais convencional e trazer algo de original. Adiante, um exemplo de uma peça fornecida por Zagalo, feita da exploração desta temática: Uma ocorrência positiva que parece estar a difundir-se neste momento em que, como coloca o artista, “ as pessoas que gostam de meter coisas em caixinhas estão a ter mais voz “, remete para a disseminação de materiais de uso acessível para criação de peças como as da página de Construsaocivil ( é o caso do site are.na, uma base de dados imagética à qual Zagalo e pares do meio tendem a recorrer para partilhar e transferir materiais no formato de pastas temáticas) e ainda de filmagens em formato bruto, isto é, pré editado (disponíveis no site Internet Cinema), cada vez mais utilizadas por artistas que visem fazer projetos de cinema de forma módica. São suportes que não só preveem a democratização dos meios mas como também levam a criações singulares, havendo mesmo da perspetiva de Zagalo uma preferência sua inequívoca em consumir hoje em dia conteúdo feito por esses métodos, inesperados e de fórmula tão particular, face às produções de métodos convencionais. Almeja ver essa propagação atingir a esfera da moda, lamentando a sua filtração social que passa desde os preços das marcas que são cara do círculo, ao dos conteúdos e eventos, atingindo também, para sua prostração, a criação já que ao contrário da criação de memes ou da escrita, demanda materiais diversos e dispendiosos. A este problema soma ainda a enchente de produção, consumo e publicidade desmedida e despropositada que crê que afastam pessoas com possível pendor para esse espaço, repelidas por essa tríplice sufocante e supérflua. Um revés que reconhece alimentar e fortalecer mutuamente a capitalização das estéticas, que chegam a ser pensadas e ordenadas no sentido de conduzir outras previsões e controlar com maior previsibilidade as próximas cartadas do “curralo” em sites como Wiki de estéticas e Consumer Aesthetics Research Institute. Tudo isto torna evidentemente laboriosa a tarefa de ser antes de reconhecer ou querer reconhecer o que somos, muitas vezes em detrimento até de reconhecer que somos em primeira instância. O absurdo parece ser ditame dos dias e quase que uma promessa pessoal para meios tão entranhados no nosso coletivo e tão desconexos de quem lhe é base, desapontando amíude com a constatação da verdade de teorias como a proposta Trickle-down , observada por Zagalo a nível de roupas e de estéticas e tendências a que as pessoas aderem, significando isto, sinteticamente: a adoção de algo relativo às camadas sociais mais desfavorecidas ou afastadas (ou seja que não podem reivindicar a identidade ou posse de algo) pelas camadas mais altas e com poder de agência no sentido de reclamação de identidade. Os ciclos durante os quais as coisas ficam no topo e, portanto, têm engajamento com as camadas com maior poder de posse, são muito curtos. O desejo de ter é comichoso e voraz e o loop parece ser vício transversal a tudo, desde os tempos que vestimos, às camadas que vestem x e y e depois y e x, numa sucessão nauseante. A constante parece ser a amálgama familiar mas indetectável que nos passa ao lado apesar de já nos cruzarmos com ela a todo o tempo. Tudo parece ser estrume para indústria, nada lhe resiste à absorção. Há ainda artifícios para os que muito estimam ser e produzir com algum caráter e navegar os meios de criação sem cordéis dedilhados por uma mão com nome azul na página da Wikipédia. Na moda, Zagalo reconhece neste momento como possível gesto de relutância o upcycling, na escrita e de resto no antro de fazer coisas para mostrar e publicar, apostar na imiscuição nos espaços onde as coisas se passam, sendo a melhor das hipóteses para os penetras, a piedade de uma perfilhação. Mas o clubismo pelo idealismo assemelha-se cada vez mais a marretar com a cabeça na parede para aguçar o pensamento num contexto onde as caras que tomam o palco da cultura e são vendidas com histórias de luta e unicidade sobem por degraus mantidos no breu não explicado e isso torna Zagalo desmotivado. No alastramento inodoro da aceitação crédula, Zagalo recusa-se a inalar e insiste em que as suas dúvidas se façam conhecidas: “Como é que uma pessoa que não deve nada a ninguém surge do nada e é publicada numa editora gigante? Novo fenômeno literário português, que nomes é que ela tem? (...) E outros são a mesma coisa, que os próprios admitem que isto para eles é um negócio. (...) a mim não me terão como cliente, não gosto que tratem os leitores como clientes. A mim não me vão ter (...) nem ele, nem ela (...) se apanhar aí um dos livros, queimo. Tenho esta reação visceral porque isto me ofende, profundamente. Dedico uma parte substancial do meu tempo à escrita e à leitura. E quando vejo alguém a transformá-la em mercado, em engodo, em banha da cobra, isso ataca-me. Mas não só a mim. Ataca também toda a gente que já li ao longo da história, toda a gente que se devotou à escrita ao longo da história, e toda a gente que considero colega de ofício. Escritores não são marketeers” . “A minha proposta era usar os métodos e técnicas dos memes para fazer peças de arte”. Desta feita surge então esta estirpe do que agora consumimos, partilhamos e pensamos. Um candidato popular para a voz desta geração, ou pelo menos da sinapse comum que hoje domina, fazendo justeza ao ritmo descontinuado com que atualmente declaramos herois e paixões. Nesse país de dias, anos ou horas, com Construsaocivil como cabeça, diz que a bandeira seria um makeover da atual, estilizada com o seu sticker preferido do whatsapp (ver reprodução da ideia, abaixo) e o hino “Love Sosa” de Chief Keef. Aqui um último mimo fornecido por construssaocivil como pregame para os que daqui seguem para a página do artista. Construsaocivil é produto e faísca de um cansaço pelas interpretações guiadas e pelas traduções uniformizadas. Um caminhar com os pés na terra, outra vez cavalos verticais. Sem trelas ou preceptoras. Comungando atrás da tela numa eucaristia de horários próprios, arbitrários e domiciliares- qualquer coisa algures no espectro das nossas capacidades de entendimento. Algures lá estamos todos, pela margem do que é possível retirar-se da composição de mescla de tempos, idades, momentos, referências, sensações que Construsaocivil amassa em indissociabilidade. Nesse fumo de lógica, a comoção de uma familiaridade que nunca chegou a existir em tal similitude e a saudade esmagadora que nos vicia e conecta. Algures lá estamos todos no incompreensível mais óbvio de amanhã, brindando a um entendimento que partilhamos numa trajetória de mais coisa menos coisa, a repostar uma semiótica de um gafanhoto num nenufar rosa com o texto “EU NÃO GOSTO DE FAZER A DIGESTÃO ONTEM”, qual badalo musicando o ruminar da vaca.

  • Marie Curie: o nascimento do rádio

    Se... A vida é feitas de se's. Se isto... Se aquilo... Um ciclo hipotético, Que apenas se transforma em ser para alguns. Enquanto que alguns vivem no ser, Outros vivem no se,  Não se esquecendo que para se ser, É necessário ser se. A piada de ser se, É não saber quando é que se pode ser, É não saber, viver num se, Num se que pode não chegar a ser um ser. Mas se se vive no se, É porque se acredita que se pode tornar um ser. Se o se puder ser um ser,  O se valeu a pena. Se o se não puder ser um ser, O se valeu a pena. Porque quando se acredita,  Quando se é um se, Vale sempre a pena

  • Nova Scola Bué Económica e o debate que ultrapassa qualquer tradução

    No dia 23 de março, o Coordenador da Redação, Lucas Baía, esteve à conversa com o docente Jorge Bacelar Gouveia – docente catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, esporadicamente envolvido nesta questão devido à sua posição pública sobre o tema –, e com a aluna Diana Serra – que frequenta a dita Nova SBE –, no contexto de uma mudança administrativa que tem suscitado diversos debates no seio da Universidade Nova de Lisboa.  Desde sempre que os nomes não são apenas nomes, mas símbolos daquilo que pretendem nomear. Está na natureza humana valorizar as primeiras impressões. E, na polémica que aqui destrinchamos, a discussão não é somente sobre o nome de uma faculdade; passa a ser, inevitavelmente, sobre internacionalização, para uns, ou sobre perda cultural, para outros.  A onda crescente de exposição mediática em torno da mudança de designação da dita Nova School of Business and Economics – ou Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, para os mais próximos – fez com que surgissem cada vez mais hipóteses e sub-debates quanto ao cerne da questão. Apesar de, numa abordagem inicial, se mostrar um assunto de mero cumprimento das normas, escapou ao campo jurídico, sangrando para as piscinas da identidade, da cultura e da política.  Exploramos primeiro a perspetiva de Jorge Bacelar Gouveia que, abordando a questão numa perspetiva jurídica, foi direto ao ponto: “Num Estado de Direito nós temos que aplicar a lei que nos rege. E a lei é clara.” Segundo o professor, o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) determina que as instituições públicas devem ter designação em português, podendo acrescentar uma designação em língua estrangeira. O problema, defende, reside no facto de a Nova SBE utilizar apenas a designação inglesa, sem referência equivalente em português, o que, na sua perspetiva, constitui uma irregularidade. “Por aquilo que eu tenho visto, na Faculdade de Economia da Universidade Nova […] não há qualquer alusão sequer à designação em português. E, portanto, isso é ilegal”. A questão, contudo, não se esgota na legalidade: pelo contrário. Para Jorge Bacelar Gouveia, esta discussão reflete uma transformação mais profunda no ensino superior português. “Mas não é só uma questão de cumprir a lei […] é uma questão de identidade também de uma instituição que é portuguesa e é pública”. A internacionalização surge, inevitavelmente, como o principal argumento em defesa da manutenção do nome em inglês. Ainda assim, o professor contesta tal ideia. “A internacionalização é uma coisa substancial, substantiva, não é pelo nome. […] Não é por o facto de a Nova SBE também se chamar Faculdade de Economia que ela vai deixar de ser internacional”. Entre tradição e competitividade, o professor mostra incerteza acerca de onde descansa verdadeiramente o coração da nossa instituição. E, com esta incerteza, surgem também preocupações mais amplas, mas a ela intrinsecamente relacionadas. O aumento do número de estudantes estrangeiros, a presença crescente de docentes internacionais, o ensino predominantemente em inglês e – aos olhos do professor, a ofensa mais grave – a não exigência de proficiência em português para poder ensinar nas unidades orgânicas da Nova apontam para uma transformação mais profunda. “Começamos a ver estudantes estrangeiros, às vezes, em maior número do que os próprios estudantes portugueses […] e eu começo a perguntar se vale a pena ter uma universidade pública paga pelo dinheiro dos portugueses para estar a dar aulas a estrangeiros”. O docente reafirma, não obstante, que não se trata, na sua ótica, de um nacionalismo desmedido.  Para além disso, não podemos ignorar aquilo que se move nas entrelinhas: os jogos de poder que, silenciosamente, moldam decisões desta natureza. O próprio professor deixa a dúvida no ar: “Será que esta questão […] tem por trás de si uma luta pelo poder […]?” A referência a um candidato associado à Faculdade de Economia derrotado nas eleições para reitor, bem como a contestação subsequente ao despacho, levanta possibilidades desconfortáveis para a imagem pública da Universidade Nova.  E, como em qualquer conflito que extravasa o imediato, as consequências projetam-se para lá do presente. O professor admite a possibilidade de ruptura — “a porta da rua é a serventia da casa” — sugerindo até a criação de instituições privadas por quem não se reveja nas regras da universidade pública. Paralelamente, propõe soluções estruturais: a limitação percentual de cursos lecionados em língua estrangeira, quotas para docentes e estudantes nacionais, e até uma intervenção legislativa que discipline o uso do português no ensino superior. Medidas que, sendo vistas por uns como proteção, poderão ser interpretadas por outros como restrição das liberdades.  As palavras são fortes. E, precisamente por isso, geram reação. Do outro lado do debate, surge o testemunho de Diana Serra, 18 anos, aluna do primeiro ano da licenciatura em gestão da Nova SBE – ou, como a própria diria, First Year Bachelor in Management –, que oferece uma perspetiva distinta, construída a partir da experiência quotidiana dentro da instituição. Para a estudante, o nome em inglês é parte integrante da identidade da faculdade, sem o qual se tornaria algo distinto, desconhecido e fora dos moldes que a própria quis construir para si e para as pessoas que a frequentam.  Segundo Diana, “a faculdade tem uma imagem de ser aberta ao exterior e de ter um modelo diferente, criativo e inovador, e o nome em inglês faz com que a faculdade se destaque”. A estudante acrescenta ainda que “ter o nome da faculdade em inglês dá um destaque internacional aos próprios estudantes”, sobretudo num contexto em que a realidade académica, e não só, é já profundamente internacionalizada, tanto por ligação à área da economia como por uma maior ambição na perspectivação de futuros empregos.  A descrição que faz da faculdade reforça essa percepção. “Temos as aulas todas em inglês, recebemos muita gente do estrangeiro, e o nome em inglês cria uma proximidade a esses alunos”. Assim sendo, a direção anglofónica – atreveria-me a dizer anglófila – para que marcham surge neste caso, como reflexo da própria experiência académica. Professores de várias nacionalidades, eventos empresariais frequentes, um ambiente descrito como “muito giro” e um modelo de ensino que a própria caracteriza sem restrições como “americanizado”. Talvez seja precisamente para aqui que devemos apontar os nossos holofotes. Será a decisão da Nova SBE uma aposta epitomada de ousadia, desbravando caminho para um novo tipo de organização institucional que, embora fortemente contestada, possa trazer mais benefícios do que realmente se pensa? Ficará conhecida pelo desafio a uma realidade já consolidada, ou por uma transformação excessiva, uma possível perda de identidade? Diana Serra sublinha ainda que “o nome em português não reflete bem o que verdadeiramente se passa na instituição nem o mérito internacional que tem”. Não se trata, diz, de melhor ou pior, mas de diferença. “Colocar o nome em português torna-a só em mais uma faculdade de economia”. É um debate, caros leitores, que dificilmente cessará com uma simples mudança administrativa. A questão permanece, não só relativa às universidades e faculdades pelo país fora, mas pelas instituições da sociedade civil no geral. A globalização é atual, todos o sabemos. Mas até que ponto é que podemos deixá-la penetrar a realidade nacional?  As respostas não são simples. Talvez nunca o sejam.

  • Conselho de Faculdade - Eleição dos estudantes para o órgão

    O Conselho de Faculdade é o órgão máximo representativo e deliberativo da NOVA School of Law, que funciona como uma estrutura de supervisão e decisão estratégica suportada por uma composição que abrange o corpo docente e discente, mas também membros da sociedade civil, naquela que é a gestão da faculdade .  Segundo o previsto no artigo 42º do despacho normativo n.º3/2020 , compete ao Conselho de Faculdade funções como: a aprovação e a alteração dos estatutos da unidade orgânica; a eleição do seu Presidente; a aprovação do seu regimento; a eleição e a destituição do Diretor; e o exercício das demais competências que lhe forem atribuídas pela lei, pelos presentes estatutos e pelos estatutos da unidade orgânica. Além do mais, a faculdade na sua qualidade de unidade orgânica arroga-se, igualmente, da apreciação do orçamento, plano de atividades e relatório de atividades da Faculdade . Quanto à sua composição, o Conselho de Faculdade é constituído por 15 membros ( Art. 7º, n.º 1 dos Estatutos da NOVA School of Law ): 9 docentes ou investigadores/as da Faculdade, 2 estudantes da Faculdade, 1 profissional não docente e não investigador/a da Faculdade e 3 individualidades de reconhecido mérito externas à Faculdade.  Desta forma, o Conselho de Faculdade reúne-se uma vez por semestre, não obstante a possibilidade de convocar reuniões extraordinárias ( Art. 7º, n.º 8 dos Estatutos da NOVA School of Law ), funcionando como uma cúpula de instância superior na deliberação de aspetos fulcrais e basilares da comunidade académica, não só pelas funções que lhe são adstritas, mas pela multiplicidade de agentes que nele intervêm em prol da dignificação da Faculdade. No passado dia 7 de abril (terça-feira) ocorreram as eleições para o órgão de gestão do Conselho de Faculdade da NOVA School of Law, que surpreendentemente, teve a característica incomum de haver duas listas de estudantes a concorrer.  O processo das eleições para este órgão é composto por diversas etapas, segundo o exposto no edital n.º3/2026 da NSL : apresentação de candidaturas; apreciação de candidaturas pela Comissão Eleitoral; prazo para correções de candidaturas; divulgação do caderno eleitoral e boletim de voto; prazo para reclamação relativa ao caderno eleitoral e/ou ao boletim de voto junto da Comissão Eleitoral; campanha eleitoral; eleições; e divulgação dos resultados.  Ou seja, daqui decorre a apresentação de duas candidaturas, às quais, depois de apreciadas ( ata n.º1 ), foram atribuídas as listas A e B ( Art. 7º, n.º 5 do Regulamento Eleitoral dos estudantes para representantes em órgãos da Faculdade ). Sendo assim, na corrida às eleições, a Lista A  composta por Francisco Freire e Rita Vieira Marques (membros efetivos) e Rodrigo Martins e Maria Miguel (membros suplentes) e a Lista B  composta por Francisco Jesus e Mariana Resende (membros efetivos) e Beatriz Jesus e Tiago Marques (membros suplentes), disputaram as eleições ao órgão do Conselho de Faculdade. Posteriormente, segundo consta na ata n.º 3  deste procedimento preparou-se o terreno para que as eleições pudessem fluir sem constrangimentos e de forma eficiente. Adicionalmente foram divulgados os boletins do voto e o caderno eleitoral . No que tange ao período de campanha cumpre referir que a mesma foi feita, maioritariamente, em formato online, de forma sólida sem problemas e, o próprio Jur.nal teve a oportunidade de auxiliar na promoção das ideias das listas concorrentes ao entrevistar os candidatos.  No dia das eleições, 7 de abril, estas ocorreram pacífica e normalmente, excetuando um pequeno constrangimento com os votos em mobilidade, em função de uma discrepância entre as informações enviadas por e-mail e o exposto no regulamento e edital publicados, quanto à manifestação do interesse em votar. O primeiro dizia que essa intenção deveria ser feita até 29 de março e os segundos, até 6 de abril. Neste sentido, o problema foi solucionado pela comissão eleitoral e ninguém ficou prejudicado no seu direito de voto, não obstante do reconhecimento da dificuldade que fez surgir, a que a comissão eleitoral procurará evitar nas eleições seguintes. ( ata n.º4 ). Por fim, quando as mesas de voto encerraram, foi feita uma dupla contagem dos votos, apurando-se os seguintes resultados: n.º de votos registados - 143; n.º de votos na Lista A - 60; n.º de votos na Lista B - 74; n.º de votos em branco - 8; e n.º de votos nulos - 1.  Por fim, e visto que o sistema eleitoral tem por base o método de Hondt ( Art. 11º do Regulamento Eleitoral dos estudantes para representantes em órgãos da Faculdade ), o desfecho deste período eleitoral para os representantes estudantis no Conselho de Faculdade foi o seguinte: Francisco Jesus e Francisco Freire serão os representantes efetivos, e os membros suplentes serão todos os restantes membros de cada lista, A e B. ( ata n.º 5 ).

  • Pensamentos poucos

    Sentava-me num banco no parque quando um velhinho se sentou ao meu lado. Tinha-o visto antes pelas ruas, cruzávamos olhares e sorríamos. O mundo moderno é desconfiado demais, sempre à procura de violadores, pedófilos e homicidas em cada esquina. É bom conhecermos estranhos. É bom abrir a alma.  Trocámos nomes, idades, vidas. O velhinho chamava-se Vicente, 85 anos, vivia ao redor da esquina; a vida toda nesta cidade. Os pássaros cantavam. Ele deu-me a mão, como os velhinhos por vezes dão quando já não têm a quem dar. Aceitei, de bom grado. Nunca tive um avô. Acho que o meu pai tem vergonha de existir. Foi bom fingir, por uns segundos . Mas. Ele acariciou-me a mão. Não - a uma carícia sem carinho chamamos esfregar. Esfregou-me a mão toda, como os velhinhos por vezes fazem quando já não sabem falar, e só entendem o toque para comunicar. Ele perguntou se gostava. Não respondi. Ridículo. Perguntei-lhe se tinha mulher, ele disse que sim, mas apontou para o pénis e disse que já não dava. Quando me perguntou a idade, e lhe respondi 23, ele perguntou se também eram 23 no meu pau. Não são. Meteu a minha mão na coxa dele, fiz força. Este homem estendeu a dele e apalpou o meu pau. Ela sempre me disse que tinha um corpo lindo. Aceitava o elogio. É uma constatação incontestável: ela achava o meu corpo lindo, mas não era mais profundo que isso. Era ao mesmo nível que dizer que gostava dos brincos dela: um pormenor. Quando passas pela puberdade sem sexo, sem ser desejado, treinas o teu corpo, ano após ano após nada, a esquecer-se de si mesmo. As mulheres nunca se podem esquecer dos seus corpos, curvas frágeis de porcelana. Curvas partidas. Nós, homens, temos o privilégio coletivo solitário de existir enquanto cabeças, que por acaso estão ligadas a nervos, a veias, a membros – meros veículos da nossa personalidade. Um apego ao corpo tem de ser ensinado de uma forma ou outra. Tens de o amar, ter quem to ame, quando ainda é cedo para aprender a amar, ou tens quem to destruam de tal forma, que aprendes o valor de ter muralhas e movimentos políticos. Os nossos avôs violaram todas as nossas avós. Nunca me tive antes de proteger de um avô. Ela deixou um vazio quando a deixei partir, e pensei: Podia permitir. Eu prostituto deste pederasta. Todos os homens que beijei, beijei por aborrecimento, e porque, se eles me queriam, quem era eu para contestar? Ela foi a primeira pessoa que beijei com carinho. O abismo chama sempre - é preciso reconhecer que o abismo é metade da existência e que por vezes chama por nós para nos fazer acordar para o poder destrutivo que possuímos. Podemos matar quem quisermos, especialmente nós próprios; fumar pedra; foder um tipo com mais de sessenta e dois anos que nós, que nos está a apalpar a pila. Os instintos reagiram. Lentamente, como todo o meu corpo é. Afastei a mão, e disse “por favor, não”. Levantei-me, disse que tinha de ir, e disse adeus. Pensei que havia algo de poético na interação; que ia escrever sobre isto com leve satisfação e orgulho de propósito. No supermercado, peguei no que precisava, sem saber bem do que precisava, na caixa comecei a parar de respirar. Não sei porquê, já passou. A puta da poesia, é por causa dela. Odeio ser prosaico, esta praga de monotonia vazia, este almejar a algo superior. Não há nada de bonito neste texto porque o meu amor à poesia é não-correspondido. Parti-lhes o coração. A todos. Ainda sinto o meu pénis, os meus testículos, doridos. A mão dele. Como se me tivesse esmagado. Se o vir outra vez, Eu vou matar este cabrão.

  • Vengeful Fate

    No dia 7 de março, o Jur.nal esteve no Oriente com os Vengeful Fate, uma banda emergente que se afirma no metal como um espaço de fricção de energia indomada. Numa fase marcada pela irrupção do single  “Hear the Wolves”, a 1 de abril, e pela iminência do EP   de estreia Low Blow , a conversa expôs o projeto do trio num estado de combustão contínua. Quem são os Vengeful Fate? O núcleo inicial formou-se entre o final de 2022 e o início de 2023, quando Gonçalo Rocha (voz, guitarra e letra) e Gonçalo Gamas (conhecido por “Gamas” - bateria) se conheceram numa escola de música. Após uma atuação informal, descrita pelos próprios como “uma grande palhaçada”, surgiu o ímpeto para dar continuidade ao encontro. Os primeiros ensaios, mais inclinados para o metalcore, marcaram sobretudo o estado embrionário de uma ideia ainda difusa - quer na formação como na direção estética. A entrada messiânica de Tiago Lisboa (conhecido por “Lisboa” - baixo), ocorrendo num momento de quase desistência da dupla, acabou por fixar o projeto enquanto trio abrasivo. O nome Vengeful Fate, retirado trivial e fortuitamente do imaginário de World of Warcraft, não foi imediatamente consensual. Inicialmente recebido com alguma ambivalência, acabou por se enraizar de forma progressiva no quotidiano da banda, tendo sido no espaço informal dos ensaios, das piadas recorrentes e da própria receção do público que o nome ganhou corpo e se tornou parte integrante da identidade do projeto. Hoje, este nome assume-se na sua ambiguidade kitsch : simultaneamente excessivo e memorável, quase caricatural, mas eficaz naquilo que convoca - a premissa latente de um ajuste de contas sem fim.  Influências artísticas Se o ponto de partida se situava no metalcore contemporâneo, rapidamente esse eixo se fragmentou e incinerou. O nu-metal afirma-se hoje como núcleo incandescente do trio, permitindo condensar groove, agressividade e melodia numa pulsação incisiva que descrevem como “nu-metal da Póvoa”. Neste território ressoam impulsos que vão de Slipknot e Limp Bizkit ao espectro mais melódico do rock dos anos 2000. Neste vórtice em rotação perpétua colidem influências de stoner, sludge e hardcore, bem como referências mais fundacionais como Black Sabbath ou Kyuss, que estruturam principalmente a dimensão rítmica e composicional. Acrescentam-se ainda ecos do metal moderno - como Lamb of God - e uma infiltração mais recente do hardcore contemporâneo por bandas como Gel ou Drain.   A potência abrasadora é amplificada pela memória audiovisual partilhada, percetível na atenção dedicada ao universo dos videoclipes. Deftones, Linkin Park e System of a Down funcionam como modelos estéticos, onde a imagem e o som se cruzam, concebendo atmosferas que transcendem o auditivo.  Fora da música, a banda incorpora referências do imaginário fantástico: a figura de Dumbledore, de J.K. Rowling - cujas frases marcaram momentos pessoais de reflexão - e a ambivalência aterradora e intensa de Stephen King, particularmente em It, influenciam a abordagem lírica do grupo. Não obstante, estas influências não delimitam o contorno dos Vengeful Fate; são antes faíscas que se deixam acender no imaginário coletivo, cada uma movendo-se ao (des)sabor do próprio destino. Processo criativo “Isto é mesmo caos, mas funciona” - é assim que os Vengeful Fate descrevem o seu próprio processo. A composição nasce frequentemente de um esboço - um riff , uma estrutura inicial ou uma ideia lírica - que é depois submetido a um modo coletivo de escrutínio. Desmonta-se e reconfigura-se, no mote de “virar a ideia ao contrário”, até que esta encontre coerência dentro do conjunto. Como sintetizam, “entramos no estúdio e o que sair fica”. Deste modo, a banda converte o seu estúdio num teatro de guerra, onde os seus projetos embatem, são tensionados até ao limite e apenas sobrevivem aqueles que resistem à própria transformação - uma dinâmica que se prolonga na relação com o seu arquivo, onde fragmentos antigos e ideias esquecidas ou descartadas são ressuscitados, rearmados e devolvidos ao combate. “A música é a nossa forma de dissidência”, sublinham. Neste sentido, embora a banda não se fixe num manifesto programático, existe uma urgência que atravessa o seu ideal. A música surge como resposta direta ao ambiente envolvente - uma descarga visceral de experiências não resolvidas, de confrontos internos e externos - acumulando energia potencial até à rutura inescapável. EP - Low Blow A aproximação do EP de estreia dos Vengeful Fate faz-se inevitavelmente através de “Hear the Wolves”, single lançado a 1 de abril que concebe um primeiro contacto com o ambiente sonoro do projeto. Segundo o trio, “Hear the Wolves” nasce de uma reflexão sobre sociedades onde a liberdade individual é progressivamente restringida, evocando cenários distópicos que encontram paralelos na realidade vigente. A música constrói essa sensação através de uma dinâmica movida por uma força motriz em aceleração, recusando momentos de suspensão e privilegiando ímpetos monstruosamente tenazes, que não cedem nem sob tormenta. Nesse sentido, o single  atua como detonador da banda, evidenciado como transmutam insubmissão e inquietação em matéria sonora. Low Blow  expande esse desfecho inicial. Quando questionados sobre o impacto pretendido, respondem: “Tesão. Euforia. Revolta.”, uma tríade que sintetiza o impulso de ampliação sensorial do EP. O título - expressão associada a um golpe baixo ou injusto - introduz uma ideia de disputa que o atravessa, não apenas ao nível temático, mas na própria construção musical, conjugando mudanças abruptas e contrastes de intensidade. A gravação do EP procurou preservar essa dimensão mais crua, privilegiando-se uma atmosfera mais orgânica, onde a rugosidade e irregularidade se integram no próprio som. Ainda assim, o EP não abdica de melodia, revelando a fulcralidade das influências do rock alternativo e nu-metal dos anos 2000, particularmente nas linhas vocais e nas estruturas do refrão, onde a brutalidade convive com momentos mais atmosféricos.  Sem se organizar numa narrativa linear, o seu repertório mantém um eixo comum. Como sintetiza a própria banda, “não tem uma narrativa mas tem um tema”: uma recusa difusa assente na desavença constante face às diversas formas de opressão. Cada uma destas configura-se como um território hostil - emocional, político, existencial - que as músicas atravessam, atingindo diferentes pontos de impacto. Importa, contudo, sublinhar o desfasamento entre este registo e a posição atual da banda. Como os próprios reconhecem, Low Blow  capta “os primeiros baby steps da banda”, operando, principalmente, como um arquivo da fase inicial em que o som dos Vengeful Fate ainda se encontrava em formação.  Grande parte dos temas antecede a consolidação do seu som, refletindo um período de experimentação. Como consequência, expressam: “Este primeiro EP não reflete realmente o nosso som”. A condição de artistas emergentes em Portugal A relação da banda com o underground  português constrói-se numa zona de instabilidade entre precariedade e pertença: se, por um lado, identificam um cenário marcado pela fragilidade estrutural - falta de investimento, encerramento progressivo de espaços, dificuldade em sustentar projetos originais -, por outro, reconhecem nesse mesmo contexto uma rede de apoio informal, impreterível à sua permanência neste terreno instável. “As bandas do underground têm que se apoiar umas às outras”, destacam. Num ecossistema reduzido, onde as condições são frequentemente adversas, a continuidade destes projetos materializa-se a partir do espírito de entreajuda, um princípio estruturante da comunidade artística: concertos que são organizados conjuntamente, contactos que são transmitidos ou equipamento que é circulado entre bandas. “Sabemos que se fôssemos nós, também nos emprestavam”. Ainda assim, essa coesão não anula as fragilidades do meio: a banda aponta para uma dificuldade persistente em afirmar projetos originais num contexto onde parte do público privilegia propostas mais familiares ou nostálgicas. Como sublinham, “há muita música no underground que não sobe”, identificando um descompasso entre criação e reconhecimento. Neste cenário, onde “ser bom não basta”, o percurso do grupo passa a depender de outros fatores além do seu talento, como a sua capacidade de projeção, entre construção de contactos, promoção e uma presença digital omnipresente, onde os seus reels excêntricos prolongam o seu registo irreverente. Palco e futuro É no palco que os Vengeful Fate encontram o seu verdadeiro território. Os concertos transformam-se em campos de batalha onde as músicas deixam de ser estruturas fixas e passam a ser colocadas à prova - expostas, prensadas e empurradas até ao limite da sua própria resistência. O contacto com o público - sobretudo com gerações mais novas - pressuriza essa condensação de stamina , devolvendo em tanta ou mais pancadaria e gritaria.  Simultaneamente, o trio mantém um compromisso com a partilha desse espaço, procurando tocar com outras bandas emergentes e contribuir para o crescimento coletivo desse foro. Assim, nos próximos dias, a missão redentora do grupo desdobra-se em diferentes arenas: a 11 de abril, os Vengeful Fate sobem ao palco do Uncle Joe’s, em Esmoriz, ao lado de Chaosaddiction e Mau Jesus, e a 16 de abril apresentam-se no Tokyo Lisboa, com Agitam Solum, Klatter e Vaneno - duas frentes destinadas a fissurar por completo. Após o lançamento de  Low Blow  e dos concertos associados, o foco desloca-se para a gravação de um álbum mais fidedigno à sua identidade atual, já em preparação e com horizonte apontado para 2027. Com um conceptual que rompe com os primeiros registos e incorpora formas mais inesperadas, o grupo antecipa: “não estamos a refazer a roda, mas estamos a fazer uma roda xpto”. Para quem quiser acompanhar esta investida, os Vengeful Fate continuam a destrinçar a sua sina entre palcos e plataformas - Instagram , Spotify  e Youtube  -, com turbulência crescente no seu percurso. Fotografia: Mafalda Noronha ( @ sorryimdrunk )

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