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- A melhor alternativa política
O mapa autárquico mudou este domingo. A vitória do PSD nos cinco maiores concelhos do país, Lisboa, Porto, Sintra, Gaia e Cascais, destacando a capital, foi para a esquerda, sobretudo para Leitão, inesperada. Escrever sobre política e poder local é, por mais estranho que pareça, menos linear do que sobre política nacional ou internacional. Neste caso, o meu objetivo não é analisar detalhadamente os resultados autárquicos de todo o país, mas interpretar o resultado especialmente baixo do Partido Socialista em Lisboa. Culpo parte deste fracasso ao destaque que a ala bolchevique do PS ganhou nos últimos anos. Com Pedro Nuno Santos, o país ficou a conhecer, ou conhecer melhor, uma nova classe do partido, neste caso a dos políticos profissionais extremistas. O "neto de sapateiro", título que depois se veio a provar como falso e exagerado, entrou na juventude do partido com apenas 14 anos. Porém, não ficou necessariamente mais competente, como veio a provar pelos conhecidos escândalos do "whatsapp" enquanto ministro das infraestruturas. Quando o descrevo como extremista, não o faço com base em campanhas ou em ações, mas sim em convicções, até porque a sua campanha foi sempre baseada num discurso brando para pensionistas, o que lhe garantiu o falhanço histórico de pôr o seu partido em 3º lugar, atrás do Chega. Pedro Nuno é, e sempre foi, um radical. O caso de Alexandra Leitão não é muito diferente. Ao participar numa coligação com o Bloco de Esquerda e o Livre, a antiga líder parlamentar põe-se num lugar estrategicamente errado numas eleições autárquicas, assumindo um papel muito mais à esquerda do que ao centro. Não sei se Leitão também queria ter estado na Flotilha, mas esta coligação assegurou-lhe o resultado miserável que todos vimos. Escolher coligar-se com um partido como o BE, que ao longo dos anos tem diminuído exponencialmente a sua expressão, chegando a ter apenas um assento parlamentar atualmente, é, no mínimo, ingénuo. Curiosamente, a agora vereadora Alexandra Leitão não se demitiu, mesmo depois de se ter responsabilizado por esta derrota humilhante para o PS. Ficou apenas pela promessa de uma "oposição firme". As palavras de José Luís Carneiro não foram, na minha opinião, especialmente inspiradoras. O atual secretário-geral socialista afirmou no passado domingo que o seu partido é, agora, a melhor alternativa política. Por este andar, não vai passar disso. Um partido com 50 anos de história não passa hoje de uma oposição fraca e ténue ao PSD e ao Chega, como mostraram as últimas legislativas. Pior ainda é a responsabilidade, ou falta dela, dos seus líderes. É, para mim, inconcebível que Leitão não se tenha demitido depois deste resultado. Não sei que oposição pretende fazer como vereadora, mas não vai facilitar as funções do atual Presidente da Câmara, nem que seja por uma questão de orgulho. Agora, os socialistas só podem esperar por um resultado melhor nas eleições presidenciais de janeiro. Talvez com um candidato mais moderado, como António José Seguro, se possam voltar a sentir representados. Até lá, apenas podem relembrar glórias passadas ou esperar pela ressurreição milagrosa de Mário Soares ou Jorge Sampaio.
- Perfidious and powerful player
Perfidious and powerful player, Ally and adversary of ambiguity. Ravaged, it renders all men Anthropophagi, racing to bite off the Burden of their own bitter heads. Enchant me not, tenacious creature! No more nightly nurturing of the Seraphic sphere can I take. Do not draw down, Divine Selene. Admonish me, oh Aphrodite! Incited I’ve been by such tender incense So unceasingly; so oft, Yearning is my recompense
- Por quanto tempo?
Forçados a servir como meros espectadores pelos nossos governos - quer a nível nacional, quer a internacional -, todos os dias acordamos para ver horrores indescritíveis nas telas dos nossos dispositivos. Nós vemos, eles vivem. Por quanto tempo é que a etiqueta do “anti-terrorismo” servirá para destruir a vida de populações? Por quanto tempo é que o capital servirá de justificação para o extermínio? Por quanto tempo? Por quanto tempo? Não necessito de dizer ao que me refiro para a plenitude dos que me leem compreender do que falo. Por mais “inútil”, “irrealista” ou “utópica” que a Flotilha Sumud (Resistência, Perseverança) fosse, serviu de alba, numa esperança de raiar, durante a madrugada escura. A inutilidade tem sempre uma função e tudo vale a pena se a alma não é pequena. De facto, quando o “ativismo de sofá” sai de casa, também as ideias se movem. Se é verdade que dizer slogans e colocar bandeiras no perfil do Twitter é fazer a política de forma passiva, também é verdade que, caso isso produza a mínima manifestação material - quer seja individual, organizacional ou política -, vale a pena. Mas não é tudo. O mesmo se aplica à tentativa de limpeza de consciência que se deu com o reconhecimento da existência do Estado Palestiniano - basta dizer “Sim, vejo que existes e não és resultado da minha imaginação”, ou será que não é tudo? Não há debate dócil o suficiente para abafar os gritos que ecoam em todo o mundo. Desde a solidariedade dos trabalhadores italianos, a cada poema ou artigo inútil, como este. Ouça-nos um, ouçam-nos todos. Do rio até ao mar. Talvez um dia sejam vingados. Tenho a certeza, contudo, que esse dia será demasiado tarde. Um parágrafo num livro de História nunca trouxe almas de volta.
- Falhanço humanitário Global Sumud
À partida, uma frota, ou como ouvimos incessantemente nos media no último mês, flotilha com fins humanitários teria a missão nobre, meritória e politicamente neutra de levar recursos materiais à população civil da faixa de Gaza, que pouco ou nada tem a ver com a posição do Hamas ( e muito menos de Israel ) sobre a legitimidade de anexação do sítio onde vivem. Contudo, não foi o que se observou. A flotilha Global Sumud, onde se encontravam personalidades da esquerda portuguesa, alegadamente financiada através de angariações individuais e campanhas de organização de fundos, foi mera campanha política no panorama português. Da esquerda à direita, é unânime afirmar que, atualmente, a política em Portugal se faz, muitas vezes, através de popularidade, frequentemente recorrendo a redes sociais, a programas de televisão populares ou a entrevistas sensacionalistas. Não é coincidência que os partidos com uma aposta mais forte em plataformas tão simples como o TikTok apresentem uma clara vantagem no eleitorado jovem, como se verificou com a ascensão do Chega nas legislativas de 2024. A flotilha e a sua interpretação por parte de ativistas e atores não escapou à regra, o que levou a que se tornasse num instrumento para aumentar o número de likes e de seguidores que tinham nas redes sociais. É evidente que Sofia Aparício não decidiu em setembro que se devia candidatar a Secretária Geral da ONU, e que Miguel Duarte, embora ativista, não se queira juntar aos médicos sem fronteiras. Quanto à flotilha, as dezenas de barcos que, entre si, incluíam os navios militares espanhóis sob comando de Sanchez, esta foi claramente tomada por Israel como uma afronta, um desafio. Os membros de Global Summud não chegaram, propriamente, num bote a remos. Vinham rodeados de navios militares de um membro da União Europeia, o que não é, de todo, irrelevante no contexto internacional. Pelo contrário, é determinante a um ponto de levar à sua vigia por parte de drones israelitas, e posteriormente ao aprisionamento temporário de vários membros. Hoje, afirmo convictamente que a missão da flotilha se perdeu, se é que alguma vez existiu. Será que levaram realmente ajuda humanitária e que a qualidade de vida dos habitantes de Gaza melhorou, ao ponto ínfimo de não passarem fome e sede durante meras horas? Ou terá caído no erro de ser um “ trampolim “ para a projeção do Bloco de Esquerda em posteriores eleições?
- Cantiga do Rei Louco
Majestades, perdoai, o Rei está louco, de outrora inabalável, caiu qual pouco. Autoproclamado, perdeu-se na razão, o povo já duvida da sua condição. A imagem ruída, tão fraca, tão vã, a antiga rainha recorda o que nele era chaga. O castelo de cartas desmorona, é certo, confiança perdida, o trono já deserto. Majestades, perdoai, o Rei está louco, Repete histórias, sempre remendadas, quando ouve da falecida lembranças passadas. Mas não esperava tamanhas reações, agora os súbditos riem das suas invenções. A antiga monarca ausente, culpada é tida, pela loucura régia, tão bem servida. Nos banquetes farto de boas companhias, afoga-se em copos, promessas vazias. Julga-se senhor de poder e vontade, mas não vê que perdeu já toda a autoridade. Majestades, perdoai, o Rei está louco, Pensa ter tudo seguro, nome e posição, mas já ninguém o segue, reina só ilusão. Cego de vaidade, crê-se ainda superior, quando o povo murmura: “Sabemos quem sustentava o seu labor!” Muitos perguntam, entre riso e desgosto, se não foi afinal a antiga rainha quem fez o posto. E o rei, louco e preso na sua vaidade, cai cada vez mais na dura realidade. Democracia! — grita, cheio de engano, Mando sobre todos, mas ninguém manda sobre meu pano. Enquanto ri a corte, em segredos bem guardados, já se trama quem ocupará os tronos abalados. Quando um rei fraqueja, trocam-se peças, ficam os restos, a coroa em promessas. Majestades, perdoai, o Rei está louco, Planeava grandeza, mas só fez engano, culpa dos outros, nunca do soberano. A Inquisição agrada-lhe, decapitar o vilão, Entre amigos sorri, mas em praça nega a mão. Planeia a ruína de quem ousa contrariar, Mas diante do povo finge nunca julgar. Tenta enganar os súbditos com lábia e mentira, mas todos sabem bem da sua cobiça e ira. Por mais truques que use, ninguém se deixa levar, o povo já conhece o rei e o seu fingir sem par. Sonha com os cofres, o ouro a dominar, oculta segredos, e a todos tenta enganar. Só pensa em fortuna, poder e ilusão, faz do sonho de trono o seu palco de traição. Majestades, perdoai, o Rei está louco, Ora diz ser presidente, ora veste coroa, anda como louco, a corte não perdoa. Vendido a todos, mas engana ninguém, Fala bem de uns, e de outros fala também. Tudo pela atenção, pelo sonho do poder, Só tem lábia, nada sabe fazer. Se à presidenta se atrever a ir, nenhuma vitória há de conseguir Ela age com naturalidade e sem fingir, não precisa mil máscaras para se fazer aplaudir. Ela governará de forma simples, sem truques ou engano, Ele só quer poder, custe o que custar, vendia a alma inteira só para reinar. Majestades, perdoai, o Rei está louco.
- Tenho um cérebro muito cusco
Tenho um cérebro muito cusco. Numa ridícula curiosidade desavergonhada, vai sempre mais além para conseguir manter-se informado. Ora corre então para junto do coração para discretamente - quase passando despercebido - ouvir o que este sente: faz se de amigo…até põe o ombro a jeito, mas é óbvio que só quer arrancar os seus segredos mais profundos. Desbocado, começa a matutar naquela informação e, não tarda muito, desata num frenesim para a partilhar com os amigos - naturalmente muito desejosos de o ouvir, sedentos de algum entretenimento. Ora então contando e descontando, a saltitar por toda a parte vai aquele pequeno segredo que, de tantas voltas dar, acabou por retornar ao coração - pobre coitado, já se julgava mais leve. Em pânico e descrença, o coração começa a andar do lado para o outro - tum tum - cada vez mais impaciente - tum tum tum tum tum tum – despenhando-se até aos pés; daí sobe num turbulento impulso pelas pernas, fazendo-as tremer por toda a parte. No entanto, a caminho de ir reclamar com o cérebro pelas suas inconfidências, fica preso na barriga e rebela-se: à medida que força a sua fuga vai deixando um buraco…um vazio incomodativo. Por fim, sai disparado pela boca, estatelando-se nas minhas mãos. Derrotado. Cansado daquele corrupio sem fim, que o levou a dançar pisando-o e partindo-o a cada passo. Mas ao menos, já cá está fora - já não sente. Já não pode ser vítima das armadilhas do cérebro. Já não se magoa mais.
- Coloco tudo isto na minha lista de afazeres
.... ver vestidos para a gala ir buscar os meus óculos estudar não me esquecer que a ***** quer almoço segunda ir ao ginásio não me esquecer da maquilhagem comprar a prenda de anos da minha mãe apanhar autocarro às 14:30 Coloco tudo isto na minha lista de afazeres. Dependo disto para me lembrar das coisas, por mais importantes que sejam. Sem a fisicalidade, irei-me esquecer. Até da prenda de anos da minha mãe. É patético. Não sou nada mais do que um casulo oco de alma. O dia a dia é cansativo, mas tão cheio. Não o suporto. Não me suporto. Sinceramente também não há muita gente que o faça. A este ponto é um sentimento partilhado. Já fui tanto e há tanto que ainda quero ser, há tanto que sei que nunca serei, e há tanto que imagino que esteja destinada a me tornar. Tudo me envergonha, tudo me magoa, tudo me desconcerta. Não sei se é do mundo, se é de mim. Sinto que pertenço e estou onde deveria estar. Quero morrer. Mas nem para morrer sirvo. Sei que sirvo para amar, contudo não acredito se algum dia servirei para ser amada. Sei que me sirvo a mim mesma. Sou escrava da beleza, da arte, da tentativa de atingir a perfeição. Estico as mãos para ela como quando Miguel Ângelo pintou a criação. Ando de gatas por uma gota do néctar dessa bela virtude e regozijo-me nele à mínima chance que posso. É um prazer momentâneo ao qual me agarro. É o sexo mais casual da minha vida, aquele que tenho com a minha própria imagem ao espelho. É supérfluo. Insuportável. Odeio-me. Não aguento olhar-me nos olhos por mais de um segundo que seja. Olho apenas para a beleza. É o que tenho e posso oferecer. Olhem para mim! Vejam-me composta! Vejam-me bem sucedida! O que eu vejo não me importa. O que eu sinto é irrelevante. Porque sou como os outros, o mais cansativa e normal que poderão ter. Sou profundamente aborrecida e cansativa e intensa. Intensa em tudo, até nesta inércia de vivências da qual nunca poderei recuperar, para sempre presa neste buraco negro para onde arrastarei aqueles que me derem a mão. Vai a mão...vai o braço...vai o torso...a mente...o coração...consumirei tudo daqueles que se atreverem. A fusão da normalidade com a incerteza apenas me assusta. Dizem que não há experiências originais, mas ainda bem que não, pois não quero estar sozinha. Não estou perdida, mas também não há muito que possa fazer para me encontrar. Capitã de um navio sem nome, sem autorização para atracar em porto algum. Quando atracar eu saberei...se algum dia o fizer.
- Vejo-os no natal
Acordar, tirar café, ver mensagens que mandei antes de adormecer, sentar à secretária, abrir o computador e rezar para que a placa do teclado ainda não esteja desfeita. UFF ainda não foi desta. Respirar de alívio. Queimar a língua. Esperar que o café arrefeça, gato escaldado de água fria tem medo. Acabar a beber café frio e aguado, e agora parece melhor que apenas tivesse deixado queimar. Enviar uma candidatura. Duas se calhar, não vá o diabo tecê-las. Amanhã repetir, sem grande vontade mas também sem grande enfado. Levantar e bater com o dedo mindinho na mala, porra, mala aberta no meio do quarto, mala vazia, mas pelo menos está escancarada não vá ela num laivo de coragem empacotar tudo de repente e partir. Partir, dar beijinho ao avô com lágrimas nos olhos. Vemo-nos no Natal. Não é corajosa, nem destemida, não pertence ao mundo, mas teme-o, tem que ver por si, com os próprios olhos. Sem particular interesse por nada, mas curiosa com tudo, vai seguindo, fones nos ouvidos, caneta na mão, vai abrir o caderno onde despeja os sentimentos. Para a meio, está a mentir. Risca, porque a caneta não se apaga. Começa de novo. Agora a verdade. Naquela noite dormiu mal. Não lhe apetece sair, tem coisas para escrever. Não muito boas, mas suficientes. Também não mediocres, trabalhou em si própria, acha que muda todos os dias e o lobo frontal que só se desenvolve aos 25, a paciência de esperar. É bom que chegue por lá com aliança no dedo, filhos pela mão, e um de colo. Com ou sem carreira? Só porque alguns sonhos são diferentes, isso não os torna menos importantes. Ou qualquer coisa com que se pareça, frases feitas pelo meio, voltar do inicio, ao início? Sobre ontem, quando dormi mal e sobre esta manhã quando bati com o mindinho na mala, e amanhã quando for repetir e beber café frio, porque antes estava demasiado quente e esqueci-me de que era preferível queimar-me a bebê-lo frio e não importa porque depois volto. Volto aqui, a repetir, afinal vou sair, mesmo que não me apeteça. E elas que são as minhas preferidas, jantar de despedida, presente de despedida, despedida no aeroporto, pai de carro engatado e lágrima de lado, próximos meses vai sozinho à bola, eu talvez volte mais mais elucidada, de fones nos ouvidos, vejo-os no Natal.
- Entrevista à Comissão Académica 2025/2026
Nesta entrevista, a nossa diretora-adjunta Lara Cândido embarca numa conversa com o Dux, Riccardo Noronha, e a Presidente da Comissão Académica, Rita Castro, sobre o que os levou aqui, e sobre onde levarão a praxe neste próximo ano. Lara: Esta nova comissão vai integrar novos elementos, mas também é composta por alguns membros da comissão anterior, como vocês [Rita Castro e Riccardo Noronha ] . O que é que vos leva a querer continuar a estar na Comissão? Rita : Eu quando era caloira tinha um interesse algo forte em estar na Comissão. Isso proporcionou-se no ano passado, fui vogal de 2º ano. Claro que são posições completamente diferentes, sendo eu agora presidente, mas eu sinto que a Comissão acaba por ser a maneira, para mim, que mais me agarra no servir para a praxe. A praxe na nossa faculdade, na minha opinião, é bastante boa e super positiva, e acho que não levanta grandes questões problemáticas. Eu gostei tanto de trabalhar [na Comissão] o ano passado que quis continuar e de facto só me via a continuar na Comissão e foi um bocadinho por aí. Riccardo : Eu tecnicamente nem da Comissão faço parte, mas considerando o agradecimento pela reincidência [enquanto membro da Comissão], se é que podemos chamar assim a esta coisa. Eu comecei o ano passado mais pela vontade de articular uma coisa diferente. No ano passado a nossa candidatura surgiu numa tentativa de fazer diferente, de melhorar coisas que não estavam a correr assim tão bem e talvez também tentar introduzir algumas propostas no mérito. Se calhar, até fazendo um balanço, até nem acabou por não acontecer mesmo da maneira que nós queríamos, mas parece que foi um passo em frente e este ano parece que se vai melhorar mais ou se vai tentar melhorar mais do que se tentou melhorar o ano passado. Eu, pronto, admito que a princípio estava um bocado reticente, até por questões minhas pessoais, mas estenderam-me um convite para um projeto inovador e eu aceitei naturalmente. Eu e a Rita esquecemo-nos, mas claro, não somos os únicos repetentes, da Comissão do ano passado estará também na deste ano a Joana Silva. Lara: Riccardo, tal como aferem os requisitos para se ser Dux, tu tens quatro matrículas, o que faz com que já tenhas testemunhado várias comissões e desempenhado várias funções na comunidade praxista. Das diferentes facetas que vivenciaste na praxe, houve alguma que te tenha marcado mais? Riccardo : Eu sendo muito sincero, e como tu disseste eu já vi mais ou menos tudo, já desempenhei as funções todas: fui caloiro, fui doutor, fiz parte da Comissão e agora espera-me o cargo de Dux. Mas sabes, eu acho que cada coisa marca por motivos diferentes. Não sei se te consigo quantificar ou qualificar a marca de melhor para pior ou mesmo indicar uma coisa que me marcou mais, porque são realidades diferentes. Nós vamos vivendo sempre o presente, não é? E quando vivemos o presente, a única relação que nós temos é o passado. E para fazermos um juízo mais articulado, temos sempre de remeter para julgar depois aquilo que fizemos durante ou antes. Por isso, não sei se te conseguia indicar, mas sei que gostei muito de ser caloiro. É muito divertido, conheci muita gente, abri-me… Eu era um miúdo não tão desenvolto como passei a ser durante e depois do 1º ano da faculdade e também enquanto tive nas Atividades [Académicas] e fui caloiro e gostei muito. É uma coisa assim um bocado diferente e que nos força a explorarmos várias outras facetas que se calhar nós enquanto estávamos em casa não o fazíamos. Lara: Ainda para ti, a tua carta de candidatura fala sobre praxe e sobre a tradição enquanto uma “escada de pedra centenária” e mesmo há bocado também falaste sobre o porquê de continuares na Comissão e sobre no ano passado teres a proposta de algo inovador, e a pergunta é: pensaste no degrau que queres construir encarregado enquanto Magnânimo Dux? Riccardo : Se por ano fizermos um degrau, quero que eles sejam postos sobretudo na onda de as pessoas olharem para o próprio semelhante, com dignidade, com respeito. E especialmente quando fazermos parte de uma comunidade, que no nosso caso é particularmente pequena – o que traz consigo muitas vantagens: conhecemo-nos todos, somos todos relaxados uns com os outros, porque acabamos por ter uma convivência diária com quase todos – mas, parece-me que acaba por também por haver algumas desvantagens que nós devemos tentar mitigar. Porque num sítio onde conhecemos todos, acabamos por poder ficar um bocado maçados: a verdade é que vemos sempre as mesmas pessoas, muitas vezes vemos as mesmas pessoas da mesma maneira, nas mesmas circunstâncias, e às vezes isso parece que não estamos prontos, como é característico dos dias de hoje, a reconhecer os nossos colegas sempre de uma maneira digna. Sem querer parecer drástico, porque dizer “digno” pode parecer algo excessivo. Mas eu gostava que se mantivesse um certo grau de cordialidade, a trocar ideias, a reconhecermos os nossos pontos de vista. Uma coisa mais pacífica e mais de reconhecimento da diferença, que eu acho que é uma coisa muito importante. E a praxe mostra que é possível fazermos isso todos juntos. Lara: Agora, Rita, enquanto Excelentíssima Presidente de terceiro ano, como te sentes por chegares aqui e o que pretendes transmitir? Rita : Sendo perfeitamente honesta, ser Presidente da Comissão, especialmente estando no 3º ano como disseste, não era de todo um plano que eu tivesse quando assumi o cargo de vogal 2.º ano o ano passado, mas é um cargo que eu levo muito a sério, porque a Comissão, quer querendo ou não, durante a primeira semana de praxe está encarregue de oferecer aos caloiros o melhor que nós temos. De impressionar o máximo que eles fiquem o resto do ano. Mas, para mim a nível pessoal é um cargo que me traz bastante gratificação, porque eu sempre amei a praxe, sempre amei esta praxe especialmente, e o que eu quero transmitir aos caloiros é este sentido de comunidade. Ainda por cima, nós temos na nossa faculdade, e na nossa praxe, uma coisa muito característica que são os grupos [de praxe] que são todos unidos e são muito característicos entre eles, muito diferentes entre eles e é isso, basicamente, oferecer e mostrar aos caloiros o nosso melhor e espero que seja isso que eu e a nossa Comissão consigamos transmitir. Lara: Passando a perguntas mais gerais, quais são as vossas visões desta nova Comissão, e se haverá alguma continuidade com a Comissão anterior, e, caso haja [continuidade], haverá algo que nesta nova Comissão pensem em mudar ou inovar? Rita : Eu acho que o tema da continuidade acaba por ser, pronto, como tinhas dito, nós temos pessoas que estiveram na Comissão anterior - eu, o Riccardo e a Joana - e basicamente, o nosso objetivo é mesmo trazer o melhor de todas as comissões que nós já experienciámos todos enquanto caloiros e doutores. Claro que temos a Comissão do ano passado que acaba por ser um exemplo maior, visto que nós a integrámos. No entanto, também sabemos reconhecer as partes boas, as partes menos boas e também as partes boas e menos boas das outras comissões anteriores. E o nosso objetivo é mesmo ir buscar aquilo que gostámos mais, ou aquilo que fez sentido na organização de todas, e trazer para a nossa para conseguirmos fazer todos o melhor trabalho possível. Sobre coisas inovadoras, o que nós já implementámos, por exemplo, foi meter os vice-líderes no grupo de líderes da praxe, por acharmos, em primeiro lugar, que em eventualidades em que o líder não está presente, acaba por haver uma melhor comunicação, porque para nós usamos o mesmo canal e não há essa questão de faltas de comunicação, como se calhar houve no ano passado - coisas que acontecem, é natural -, e em segundo lugar também porque, lá está, o vice-líder também é eleito pelos seus pares e por isso acho que também merece “aquele degrau” de proximidade com a Comissão. Esta medida já está implementada. Outra medida que metemos no nosso plano, que não foi feito no ano passado, e que queríamos fazer este ano é fazer um documento ou uma pasta digital com as memórias da primeira semana e ao longo do ano para que possa ficar guardado não só entre nós [comunidade académica] mas também com os próximos anos que vierem, porque acho que é sempre giro ter essa cápsula temporal para olhar para trás e ver. Portanto, em termos de medidas inovadoras temos isto. À medida que o ano vai acontecendo, nós se calhar iremos depararmo-nos com problemas que possam ter acontecido ou não nos anos anteriores, ou novos problemas, e vamos ter outras medidas para lidar com eles. Riccardo : A Rita falou do que vai mudar, e eu quero dizer o que é que ficou mesmo: é a postura de compromisso e a postura de coadjuvação e de amizade que nós sentimos. E também quero dizer que todos os membros, embora só haja três em doze que estejam a afigurar pela segunda ou mais vez ou vezes na Comissão, todos estão aptos para desempenhar as suas funções e tenho a certeza de que o vão fazer da melhor maneira, porque são pessoas respeitosas, idóneas e que têm o mesmo espírito que nós sempre tivemos - de entreajuda, compromisso e liderança ativa. Rita : Exatamente, e só para acrescentar também nesse seguimento, nós também temos, por exemplo, alguns líderes dos grupos do ano passado integrados na Comissão, portanto também não vamos perder a perspetiva de representar sempre o melhor pelos grupos e pelos doutores no geral. Lara: Isso é bastante positivo… Agora, e por falar em inovação, vocês já tiveram alguma ideia nova para as atividades académicas e eventos? Rita : Sendo perfeitamente honesta, estamos muito preocupados com a primeira semana de praxe, e lá está, em fazer o nosso melhor e impressionar todos os caloiros para que eles possam continuar. Não consigo dizer algo que nós tenhamos pensado para além disso, mas é basicamente manter bom trabalho e, entretanto, se nos surgirem novas ideias, ou se calhar novas maneiras de fazer certas praxes que já estão implementadas… é esperar e ver. Mas estou bastante positiva e bastante contente e esperançosa com as nossas cabeças para trabalhar [risos]. Riccardo : Mas uma coisa que foi feita o ano passado e que deu resultado e que acho que a malta gostou, embora não tenha sido implementada da forma que nós pretendemos, foi a atividade com a NOVA SBE. Isso foi uma coisa um pouco diferente, porque eu também honestamente não me lembro de alguma atividade assim - se fizeram alguma atividade do género, foi antes de eu entrar -, e acho que deu resultado. Os caloiros aproveitaram, e nós doutores também aproveitámos para conhecer pessoas novas; para ver como é que se faz a praxe nos outros sítios, e parece-me uma coisa bastante positiva e que nós também devemos tentar replicar. Se não com a NOVA SBE, com outra faculdade. Acho que foi mesmo uma coisa positiva, porque é uma troca um bocado diferente, e fez bem a todos, eu acho. Lara: Vou-vos fazer uma pergunta meramente hipotética: se vocês tivessem orçamento ilimitado para organizar uma atividade académica, o que é que fariam? Rita : [risos] Essa é uma excelente questão. Orçamento ilimitado… o que é nós fazíamos?... Não sei, é assim, claro que não estamos aqui todos para ter uma reunião e decidir uma atividade, mas, se tivéssemos orçamento ilimitado, eu honestamente fazia um fim de semana do caloiro espetacular, num sítio qualquer, fora do país - ou até uma semana, não sei -, pela Europa talvez... [risos]. Foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça. Riccardo : A Rita diz que não gostou do fim de semana do ca loiro em Pombal com o Óscar… [risos] Rita : Levávamos o Óscar, pagávamos a viagem ao Óscar para nos fazer a comida [risos]. Riccardo : Olhem, eu não faço a mínima ideia. Até porque orçamento ilimitado é uma coisa que nunca vai haver, e nos dias de hoje ainda menos, mas se houvesse orçamento ilimitado pá, eu faria - tradições à parte - um dia do traçar da capa com orçamento ilimitado: fora da faculdade, ou dentro da faculdade, tudo junto, que se lixe - agora, homens, perdoem-me -, mas fazia uma coisa assim mais composta, sem depender da boa vontade das pessoas que se envolvem todos os anos - e que é muito valorizada, atenção. Tradições e dinheiro à parte, vamos fazer um parênteses na tua pergunta [risos]. Lara: Ok [risos]. Ainda que hajam preceitos e regras fundidos na praxe, de modo a enfatizar uma melhor experiência académica, sabemos que em todos os anos existem incumprimentos de regras, como faltas de respeito - quer seja perante à comissão, aos outros doutores, aos caloiros, ao código do traje… De que forma é que vocês se vão posicionar, caso este tipo de atitudes exista? Rita : Primeiro que tudo, acho que é positivo e mostra logo outra ideia de “autoridade”, no seu sentido menos restritivo; mostra uma autoridade mais assente se nós todos estivermos no mesmo pé relativamente ao nosso posicionamento sobre essas faltas de respeito - sobre essas infrações ao código da praxe, código do traje, etcetera . Portanto, uma boa comunicação entre toda a comissão é logo o primeiro passo, na minha opinião. Por isso, nós já tivemos reuniões em que falámos sobre como é que vamos lidar com isso e o que é que vamos fazer - se acontecer alguma situação, a comissão há de reunir e falar sobre isso, para depois termos um course of action específico para lidar com a situação. Mas eu digo mesmo que o passo número um é mesmo uma boa comunicação e estarmos todos no mesmo pé, porque eu compreendo que depois possa ser, hum… não é bem injusto, mas por exemplo, imagine-se que eu tenho um método de atuação diferente do que o Riccardo - isso mostra logo uma falta de posição que nós temos de acordo com esse problema que depois poderia levar a algumas injustiças que estariam a nosso cargo. Portanto, eu acho que é isto, boa comunicação e usar os canais certos, ou seja, pela comissão, pelos líderes e pelos doutores. Riccardo : Olha, eu vou começar por dizer que esses fenómenos que tu descreves existem, certo, mas são uma coisa mais ou menos marginal, o que é bom; são uma coisa que se verifica, e que embora se tenham verificado algumas vezes, são uma minoria bastante pequena dos acontecimentos. E eu acho que quando nós estamos numa comunidade com regras e que são regras antigas, não são de hoje nem de ontem - nós precisamos de ter um chão comum e esse chão comum está vertido no código. Agora, para nós conseguirmos ser um membro ativo e reconhecido da comunidade, temos de respeitar as regras que estão no código e, o que é que acontece, às vezes, pá, é preciso uma zanga e uma pessoa se irritar. As medidas, eu acho que por si só, devia valer a vontade de pertencer à comunidade das pessoas, e acho que por si só devia valer o reconhecimento que as pessoas fazem e têm das regras que existem há bem mais de vinte, trinta, quarenta anos, que existem há não sei quanto tempo. Às vezes isso não chega, infelizmente, e aí nós também - Comissão, Dux e todos os Líderes dos grupos - têm de assumir uma postura que terá de necessariamente de variar consoante as características de cada pessoa, então parece-me que não há assim um único caminho. A Rita estabeleceu, e disse bem, que nós temos um course of action mais ou menos delineado, mas isto é uma coisa que é maleável e que se vai alterando. Então parece-me que, caso esta coisa toda do respeito e da inclusão e do, vá, “ soft power” não resulte, teremos uma série de medidas que, até por coerência, elas próprias estão vertidas no código. Mas as nossas ações individuais, como nós somos a voz da comunidade, somos as pessoas que estão à frente, terão de necessariamente respeitar duas coisas - primeiro, a nossa linha geral que é respeito e cooperação e, segundo, as regras do código. Lara: Ainda sobre este tópico, algumas pessoas têm vindo a comentar que as comissões anteriores foram um pouco levianas nesta questão das faltas de respeito no ambiente da praxe. Qual é a vossa opinião sobre isso? Sei que vocês já falaram um pouco sobre isto, porque, na verdade, nunca é um caso geral, são sempre casos concretos, e por isso leva a uma maleabilidade na vossa posição. Mas, mesmo assim, têm alguma coisa a comentar em relação a isto? Rita: Ok , então, primeiramente, é dizer que com cada comissão vêm pessoas diferentes e mentes diferentes, sempre com o mesmo objetivo; ou seja, fazer com que o código seja respeitado, com que os doutores, a praxe, que os nossos valores sejam respeitados, mas há sempre um espaço de discricionariedade, o que é normal porque somos todos pessoas diferentes e acabamos por pensar todos de maneiras diferentes. Portanto, eu acho mesmo que isso é o meu único comentário a fazer. Claro que nós agora sendo Presidente e Dux, nesta Comissão o nosso objetivo é mesmo que estas faltas de respeito não sejam passadas a limpo, ou seja, não sejam varridas para baixo do tapete, vamos tentar lidar com tudo da melhor maneira que nós conseguirmos, tendo sempre também em mente o bem-estar na praxe. No entanto, na minha opinião, para manter o bem-estar na praxe nunca podemos chegar ao nível em que fechamos os olhos a faltas de respeito, porque, no fundo, na minha opinião, o respeito pelo código, pela praxe e, mais uma vez, por todos nós são os alicerces que mantêm a praxe. Porque, tal como o Riccardo estava a dizer, nós todos estamos aqui por queremos e porque queremos respeitar o código, e isso deve ser o motivo número um. Claro que existem sempre situações em que as pessoas cometem uma certa infração que nem sequer têm noção que estão a cometer, ficando a nosso encargo avisar a pessoa; depois essa pessoa é que “escolhe” como lidar com a situação e nós, por nossa vez, estamos no direito de responder a essa posição da maneira que entendermos, sempre com bom senso e respeito em mente. Riccardo : Eu vou só acrescentar uma coisa. Esta é a minha opinião pessoal - qualquer atuação desrespeitosa que impeça os caloiros de ter a experiência que merecem, não vai ser tolerada de modo algum. O objetivo todo é nós incluirmos os caloiros e juntá-los a esta comunidade que já temos construída há dez, onze, doze anos, por aí. E uma coisa assim de intransigência é só essa, é esse tipo de atitudes que prejudicam a fruição dos caloiros dos momentos que nós queremos, com eles e com a comunidade, construir. De resto, como a Rita disse, impera o bom senso e embora para mim, a vontade de fazer parte da comunidade e de nos respeitarmos uns aos outros devesse bastar, a avaliação será necessariamente mais casuística, mais de juízo concreto do que “linhas vermelhas” em abstrato. Lara: Agora noutra linha, é notável que o papel da comissão ao organizar e materializar os planos para a praxe é complexo - seja pelas logísticas envolvidas, pelos imprevistos que acontecem, pelas avaliações que se intercalam… Nesse sentido, quais são os maiores desafios que sentem na gestão de uma comissão com tanta responsabilidade simbólica e prática? Rita : Logisticamente, organização do tempo, não é… [risos] Deus sabe que já aconteceu aquelas praxes que às vezes se atrasam - é normal e está tudo bem. Mas pronto, logisticamente, respondendo de uma maneira mais pragmática, é mesmo a parte de organização do tempo. Agora, de um ponto de vista assim mais simbólico, é claro que uma grande responsabilidade e é sempre um ponto a tocar na mente da Comissão é a parte de a Comissão fazer com que as praxes tenham uma boa vibe , que estejamos todos bem e confortáveis, nada que meta os caloiros obviamente constrangidos a um certo nível, não é… no fundo não nos podemos esquecer que é a praxe, mas basicamente são esses os desafios com que me deparo pessoalmente na minha cabeça, é mesmo a gestão de tempo e balancear o stress todo que podemos sentir com a ideia de que isto é para os caloiros. Riccardo : Concordo, tenho a dizer que concordo com a Rita na primeira e na última parte. O desafio logístico, especialmente quando se tem pessoas novas que não estão habituadas a esta face da moeda, fica um bocado difícil, mesmo na própria organização. Naturalmente quem já esteve, sabe quais é que são alguns elementos, mesmo no planeamento ou de execução das atividades a que tem de ser dada prioridade, e outros [elementos] que não, e às vezes corre-se muito o risco, mesmo nas próprias reuniões ou antes de a atividade começar, ou até durante, de haver situações em que devíamos gastar 2 segundos e gastamos 20 minutos… mas isso é uma coisa que nós, claro, temos membros novos e estamos a tentar mitigar isso - nós, os repetentes [risos]. E a questão da centralidade do interesse dos caloiros também provoca algumas tensões entre nós, às vezes. E outro aspeto que eu queria referir é que é muito difícil estar à frente e serem 12, porque se estás à frente e és um, só há uma voz, mas a voz é o líder, certo? Quando são 12, é muito difícil a coordenação, até porque somos pessoas - graças a deus - que pensam diferente e têm opiniões diferentes e pensam pela própria cabeça, o que é muito bom porque temos muita diversidade de opinião, tivemos muita discussão e muito debate interno nas primeiras reuniões que fizemos… e tem outra face também, porque parece (ou pode deixar a parecer) que é um grupo pouco coeso, até pela diversidade de pensamento e de opinião. E isso é uma coisa que também tem de ser tida em conta. Mas nós claramente estamos a fazer o melhor que podemos para darmos a nossa voz (dos 12) e de todos os restantes doutores. Lara: Passemos a uma questão hipotética (mas não tanto): se houvesse um caloiro com receio de comparecer na praxe, o que é que vocês lhe diriam? Rita : Ok, isto é uma boa questão, e no ano passado até lidei com ela. Mas basicamente o que eu diria é que temos pessoas excelentes, de todas as frentes, a trabalhar para ti, caloiro. Ou seja, temos a comissão, temos uns excelentes doutores de grupo, temos uns excelentes líderes, e estão todos aqui pura e simplesmente por ti; para te dar esta oportunidade. E também se calhar diria assim de uma maneira mais off the record , que a nossa praxe é uma praxe relativamente - em comparação com outras praxes - muito tranquila e que é feita mesmo para conhecer pessoas, para ser aberto a outros horizontes… nós obviamente recebemos caloiros de todas as condições, de todos os cantos do país, de tudo… Portanto eu acho que, especialmente a nossa praxe, é uma excelente oportunidade para ficarmo-nos a conhecer a todos, e se calhar sairmos um bocado da casca e avacalhar um bocadinho. E basicamente frisar que os doutores estão cá para ti, caloiro, e que te vais divertir muito. Riccardo : Eu tenho a dizer que o Riccardo do 1º ano não conseguia ir à esplanada do bar pedir um café. Mas o Riccardo do 1º ano conheceu 90 pessoas no primeiro dia de praxe, e fez os melhores amigos que tem na praxe. E tem os amigos de hoje, da faculdade, todos na praxe, por isso parece-me que é uma boa maneira (especialmente para quem não é de Lisboa), de fazer amigos, de criar um ambiente de convívio tranquilo, pacífico e acolhedor, em que se pode ser ele/ela próprio/a, e desfrutar. Lara: Há algum comentário final que gostassem de transmitir à nossa comunidade académica? Rita : Acho que a única coisa que tenho a dizer é para virem e para se divertirem . Estamos todos aqui para um objetivo e um objetivo apenas. Riccardo : Olha, o meu recado final é uma palavra: venham, apareçam. Ou duas, no caso: apareçam e venham.
- O sonho de um caloirinho
O calor de agosto é exuberante e este ano parece até infernal. Soube que entrei na minha primeira opção e que vou ser o primeiro da minha família a frequentar o ensino superior. Vou sair da minha terrinha do interior num autocarro interminável, ou até atravessar o Atlântico, para estudar na capital. Deixo a minha família para trás e trago comigo apenas sonhos e aspirações de ser mais do que os meus pais conseguiram ser. Encontrei um quarto a 40 minutos da faculdade e os meus pais vão ter de dar metade do salário deles para pagar a renda. Mas tudo isto vale a pena. Vou formar-me, arranjar um bom emprego e retribuir tudo o que os meus pais fizeram por mim. Almoço sempre em casa porque a refeição social está cada vez mais cara. Mas tudo bem, isto constrói independência. Estudo, cozinho, lavo a roupa e limpo a casa como todos os meus colegas. Evito gastar dinheiro em coisas desnecessárias. Ninguém precisa de comer três refeições por dia para ser saudável e, quiçá, consigo poupar cinco euros da minha mesada para marcar uma consulta nos serviços de psicologia da faculdade. Adoro Lisboa e a minha rotina. Só tenho de fazer tudo e mais alguma coisa: ter boas notas, construir um bom currículo e orgulhar os meus pais que nunca tiveram esta oportunidade. Não faço mais do que todos os meus colegas. Bom… menos aqueles que chegam a casa e já têm o jantar feito, a roupa lavada e uma mesada igual ao salário do meu agregado familiar. Mas tudo certo. Tenho uma oportunidade e acredito na meritocracia. Só tenho de me esforçar. Recebo uma chamada de casa. A rede é instável, mas com as saudades que tenho só quero ouvir a voz deles. O meu pai, entre cortes e ruídos, diz-me que precisamos de falar. Automaticamente penso que alguém está doente ou que algo correu mal. Mas não. Ele diz-me que o que eu achava que tinha ganho com o meu esforço e com o sacrifício dos meus pais me vai ser tirado. É demasiado caro. A renda, as despesas, as propinas descongeladas. Os meus pais não aguentam e não lhes posso pedir mais. Regresso a casa. Com uma chamada e uma medida do governo acabou o sonho de um caloirinho.
- I have a dog in me… and it’s killing me
Eu amo como um cão. - I'm not your pet. I never liked you. I don't care about you. I won't wait for you. I bite. - Mas é mentira. Eu sou um bom cão. Não sou selvagem. - I'm not a violent dog Apenas procuro o incondicional amor de um dono, de uma trela que me abrace o pescoço. Desesperada por uma festa na barriga, por alguém que me dê uma casa e me ponha comida na taça. Acho deveras triste. Amar como um cão e desejar ser amada como um gato. - I bet on losing (dogs) owners Cresço cansada. Exausta e drenada desta corrida. Cansada de saltitar com a cauda a abanar para a porta quando te oiço chegar e ser recebida com o mínimo dos interesses. Exausta de correr por campos, de fazer passeios longos, caçar pardais e de te trazer pequenos presentes, para que possas ver o quão boa e atenciosa eu sou. Drenada de esperar sentada para sentires tanto a minha falta como eu sinto tua, para decorares cada movimento, cada interação, cada gosto meu como eu faço por ti. Pensas em mim? Pensas em mim quando não ocupamos o mesmo espaço, quando não respiramos o mesmo ar, quando não nos prendemos num beijo. Pensas em mim? Na minha presença? No meu riso? Ou apenas desejas passar a mão pelo meu pelo? Olho para ti como um deus, com a alma embebida em divino, cavo a terra sôfrega à procura de sinais do universo, pois é isso que as pequenas coincidências têm de ser: sinais de que talvez sejas tu o meu dono, finalmente. Não faz mal que nunca me alimentes o suficiente para eu ficar saciada, que não me dês água que chegue para que eu possa matar a sede, que não brinques comigo se eu não vier ter contigo com uma bola entre dentes. Amanhã será um novo dia e a qualquer altura poderás melhorar e dar-me o que eu preciso, e tudo o que eu tenho de fazer para receber o que mereço…é esperar. E eu não me importo de esperar. E enquanto espero eu faço todos os truques. Dou a pata, rebolo, sento e finjo de morta, perguntando-me quanto mais tempo até deixar de fingir, até ser consumida por completo por esta procura gananciosa. Faço todos os truques até os que vão para lá dos meus desejos e ponho sempre a língua de fora quando me é pedido. Uma carícia e um elogio solto preenchem o vazio no meu peito. Será que um dia apenas serei lembrada pelos meus truques? Depositarei eu todo o meu valor nisto? Será que isso basta? Por favor diz-me que basta eu não sei mais o que fazer. Se eu fizer mais truques ficas mais um pouco? Não faz mal. Não faz mal se me chutares. Não faz mal se me pisares. Não faz mal se me tocares. Não faz mal se me gritares. Podes depositar em mim todas as tuas frustrações. Se precisares de um tempo podes pedir. Se não estiveres bem, eu faço o esforço pelos dois. Não tens de te preocupar em pôr comida na minha taça. Estas migalhas bastam. Eu não vou a lado nenhum. Eu não vou a lado nenhum… - I am the losing dog. The runt of the litter - Este vazio, dobra-me, assombra-me e sufoca-me. Eu sou tão boa. Por favor, eu sou tão boa. Deixa-me provar. Deixa-me provar que mereço. Que mereço mais do que uma ocasional festa na barriga, uma ocasional palavra de carinho, que mereço devoção, esforço e bondade. Por favor. Por favor, escolhe-me. Da ninhada escolhe-me a mim. Não precisa de ser para sempre. Se te cansares podes me devolver e voltar quando quiseres. Por favor, só te peço um pouco. Escolhe-me durante um tempo, por favor. Talvez assim eu saberei que sou suficiente. Por favor, Deus, deixa-me sentir que sou suficiente. Oh meu deus, como eu estou cansada. Oh meu deus, como não aguento mais ser sôfrega. Eu não consigo mais seguir este caminho. Eu não consigo mais ser um cão. Dói-me tanto. Esta sombra que eu carrego no peito queima e sutura qualquer ferida. Por favor solta-me desta amarra, desta armadilha que me quebra os ossos e me arranca a carne. Eu quero morder. Eu quero latir. Eu não quero ser um ser dependente dos meus truques, da minha pelagem lustrosa, do meu cio. Por favor. Por favor solta-me, que este desespero não me deixa respirar. Livra-me desta forma, deixa-me viver em duas patas. Eu não quero ser um cão. Um cão que em qualquer vulto vê um dono. Nada importa. Nada importa sobre o meu dono. O seu nome. Como é. Só importa que me queira. Que estupidez, que doença, que humilhação. Eu recuso-me. Recuso-me a continuar esta corrida. Acabou. Dei a minha última volta, procurei o meu último sinal, comi pouco pela última vez nesta taça, não voltarei a rebolar e a dar a pata. Exijo a mim, a mim e a mais ninguém, que me deixe ser suficiente, que viva por mim e não à espera de um dono que não me mereça, pois esta vida apenas a mim me pertence. Eu que mato a minha sede, eu que como até estar satisfeita, eu que afago os meus próprios cabelos, eu que me amo tanto, não irei raspar o fundo de um tacho tentando que alguém seja melhor por mim, não irei deixar a porta aberta para que possam retirar da minha mesa sem nada deixar, não me irei sentar quieta a aceitar as migalhas finais, não irei esperar que alguém me deseje intensamente, pois neste mundo inteiro não haverá ninguém que me irá desejar ou me completar tanto como eu. Aqui abdico desta dor, abdico desta busca, abdico desta necessidade. Abato este cão que vive atrelado ao meu peito, tremendo no frio, implorando por uma mão quente. Não serei eu conhecida por viver esperando que alguém venha e me leve a passear, mas serei conhecida por caminhar erguida contemplando o meu caminho, banhando-me na minha companhia e se alguém digno desta se quiser juntar, será bem-vindo a partilhar comigo os meus passos. Aqui foi abatido este rafeiro carente, doente por amor, desesperado por um dono. I have the dog in me...but now I will set it free.
- O Direito nunca será democrático
Sempre achei curiosa a mentira sobre a independência dos tribunais. Não é mentira a noção de os tribunais serem órgãos com autonomia, mas retirar-se, dessa autonomia, esta ideia tão reiterada – de que os juízes são, de alguma forma, meros tecnocratas, e aplicadores da lei – é tão autoevidente que parece ridículo esta ter nascido de todo. Veja-se o exemplo mais direto, mas também o mais perigoso – é o parlamento que elege 10, em 13, dos juízes do Tribunal Constitucional. Os restantes são escolhidos pelos juízes eleitos pelo parlamento. Estas são as figuras que, durante os próximos anos, e com consequências na escala das décadas, irão definir, e redefinir, conceitos como liberdade , igualdade , soberania , e casamento (para os que se importam com isso). Assim, o Tribunal Constitucional nada mais é que uma extensão da soberania política do parlamento, e, indiretamente, também são uma extensão do executivo, que, com o parlamento certo, por ele atua, e do poder do povo, que irá configurar o parlamento que os irá eleger. Por isso, é forçoso concluir que os juízes são políticos de toga. Mas não temos de ir tão alto. Todos os tribunais são tribunais constitucionais, e todos têm, nas suas mãos, definições políticas para balizar. No processo penal, cabe ao juiz, pela sua vontade e opiniões, controlar a vida de todos os criminosos. E, na escola, podemos ensinar artigos, e princípios, e procedimentos, mas não podemos nunca ensinar um jurista a ser bondoso com o seu poder. Podemos ensinar-lhe o princípio da liberdade, mas não o podemos ensinar a querer saber sobre liberdade. Damos-lhe as ferramentas, e, se assim quiser, poderá matar, desde que com a fundamentação certa. O Estado Moderno de Direito, mais do que uma infraestrutura democrática, requer uma classe jurídica dirigente, insulada do restante mundo, que aí chegou, por uma mistura de estudo meritoso e herança corrupta, cuja palavra é valorizada pela restante sociedade porque assim se convenciona, e cuja interpretação das palavras, das doutrinas, ininteligíveis ao comum dos mortais, poderá alterar radicalmente a ordem do mundo. Nós não somos, nem uma aristocracia, nem do povo. Nós somos a continuação do clero. E é por isso que nunca seremos democratas. A expressão máxima da Democracia no Direito seria a guilhotina. E temos de fazer paz, e guerra, com este facto. De que somos políticos disfarçados, e que com este poder podemos ser santos, ou diabos. Nós vemos nos Estados Unidos o que acontece quando fingimos demasiado tempo de que os juízes são neutros, e não políticos a serem criticados e atacados, como qualquer outro político. O Supremo americano é, atualmente, um dos pilares fundamentais desse fascismo, e da destruição desse Estado de Direito. Foram os doutores da lei que entregaram, de mão beijada, ao presidente americano, imunidade legal. Entre o respeito à lei e o mal, os diabos escolherão sempre o mal. Os santos que empreguem a lei como a arma que é, e a arremessem de volta, em nome do bem.
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