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  • Sinto um tsunami léxico em mim

    Sinto um tsunami léxico em mim: As palavras, expressões e metáforas Sobrepõem-se e eu, sem âncora, Afogo-me neste oceano sem fim. Numa tentativa infrutífera de emergir, Deixo-me levar pela forte corrente -  Transponho para o papel, desordenadamente Todas as ideias provenientes do seu surgir. E no momento em que sinto elevação, E capto os raios solares refratados, Retorno à penetrante e marítima escuridão. Para sempre assim eu hei de permanecer: Aprisionada nas profundezas dos meus intrincados Pensamentos; na minha maresia de ser.

  • O império Mongol: a história de Gengis Khan

    Tentado.  Sinto-me tentado a abrir a janela e voar,  perder-me no horizonte,  ou então ficar aqui e andar.  Mas não posso.  Não consigo. Tentado.  Sinto-me tentado a ser feliz,  viver a vida, não pensar  ou talvez não sentir.  Mas não posso.  Não consigo Tentado.  Sinto-me tentado a largar tudo e dormir,  ou talvez agarrar-me a tudo e viver.  Mas não posso.  Não consigo. Tentado.  Sinto-me tentado.

  • Concurso de Escrita 2025 - textos a concurso

    Lê aqui os textos a concurso e vota no teu favorito através do link: https://strawpoll.com/NMnQNeJ3Yg6 Texto 1: Chocker How many pearls does it take  To reverse all my stringy  Mistakes?  How many pearls shall I swallow  To break free from my  Troubles and sorrows?  How many pearls have I had? There are none of them left in  My stash; but I stirred and I roused  from the tangles of lunacy, To unknot all the tethers that  Throttled me brutally, And to lose all desire to swallow  My pearly beads.  Isso é para dizer que me parece equivocado afirmar que vale a pena estar vivo. Não basta apenas estar vivo - tem de se viver. Viver é um ato de amor.  Amor este que te atinge como uma bala perdida em meio a um tiroteio. E os efeitos são catastróficos. Mortíferos. Sanguinários e absolutamente irresistíveis.  A vida presta!  Texto 2: 10 factos curiosos sobre a ilha da Madeira Agora, cerrado neste terraço,  contemplo as nuvens,  nuvens essas que não consigo alcançar.  Não consigo ou não quero?  Resta-me olhar para o chão,  para o andar apressado dos caminhantes.  Eu já fui assim, como eles, penso.  Mas depressa relembro a razão da minha condição.  Por isso, escrevo.  Escrevo não para sentir,  não para me entreter.  A verdade é que eu não sei porque escrevo.  Apenas sei que sempre que escrevo me evado.  Me evado para longe, para as nuvens, pelo menos tento. Frustrado fico,  e rapidamente torno a escrever,  e de novo frustrado fico.  E é assim que passo os meus dias, frustrado,  a olhar para as nuvens, viajando nelas, perdido,  desejando todas as vezes que seja eterna a viagem, mas nunca é.  Não é porque eu não consigo ou porque não quero?  Curioso que vem-me sempre esta pergunta à cabeça,  mas a resposta é inexistente.  A resposta é inexistente...  Por isso é que escrevo.  Escrevo não para deixar de existir.  Não para me evadir, como achava.  Mas sim para existir,  existir neste mundo em que não consigo existir. Texto 3: O meu jardim é um cemitério O meu jardim é um cemitério de todas as flores que matei. De todas as vítimas inocentes dos golpes que nelas desferi antes que os seus espinhos me pudessem picar – o meu sangue por ninguém alguma deixarei derramar. De todas aquelas cujo caule cortei antes que pudessem florescer, impedindo que colorissem a paisagem de pedra cinzenta com as suas cores vivas e radiantes. Das suas irmãs, cujas pétalas fui condenando a uma morte lenta – arrancando-as uma por uma – por fim deixando que o vento as rasgasse definitivamente, levando-as para um paraíso longe de terras tão inférteis.  No meu jardim jazem restos de raízes a quem nunca dei oportunidade que entrassem na minha terra para que dessa fizessem um lar só seu, onde acolheriam os mais saborosos frutos. Restos de troncos de árvores robustas – agora ocos e cobertos de musgo – deixadas ao abandono por uma jardineira tão pouco atenciosa que, no fundo – talvez por medo – não soube cuidar do que plantou. Hoje, o meu jardim já não é mais do que fantasmas de tudo o que poderia ter sido: cacos dos vasos em que poria as minhas plantinhas mais delicadas, folhas secas que me prometeram nunca cair, flores murchadas pelo ar agreste, ossadas de árvores arrancadas precocemente e túmulos de todos os frutos que enterrei antes que pudessem sequer nascer. Texto 4: "Uma mente clara é uma realidade perdida" Um deslize do grafite à direita é um erro cometido na realidade à esquerda. De repente, tudo parecia desalinhado. Está tudo errado. A realidade que alguma vez cogitei alcançar já não existe. A criança dentro de mim já não existe. O desenho ficou esquecido, a mente ficou esquecida, o gosto ficou esquecido, a felicidade ficou esquecida. O peso dos passos, o sentimento de ineficiência ficou, por sua vez, bastante conhecida. Já não me reconheço porque não há nada para reconhecer. Já não sou eu. A minha constante culpabilização foi algo que o papel já escreveu. Não precisou de tinta, na realidade ninguém a detinha. Uma vez o meu refúgio, para sempre um tempo perdido. Esta realidade não foi o que pedi. Esta dificuldade não foi o que pedi. O desenho morreu quando a alegria esmoreceu. Tentaste mais uma vez, em resposta o dia entristeceu. Querias continuar, mas o mundo te obrigou a abrandar. Na altura não compreendeste o porquê. Só assim conseguiste desenhar de novo. Só assim conseguiste ser tu de novo. Texto 5: Samba e Amor Capítulo 1  Dizem que Paris é a cidade do amor, mas foi Lisboa que me cativou. Não foi à primeira vista, nem num instante mágico — foi aos poucos, no modo  como o sol se deita sobre os telhados e a cidade parece suspirar. Lisboa tem algo  de imperfeito, de inacabado. E talvez seja exatamente isso que me encanta. As  fachadas gastas, os azulejos partidos, o som distante do Tejo — tudo nela me  lembra que a beleza também pode morar nas falhas. É uma cidade que nunca  termina, sempre em construção, como eu, como ele, como nós. À noite, as luzes  refletem-se nas calçadas e ele sorri, como se a própria cidade iluminasse os seus  cabelos longos dourados. Os moradores fumam nas varandas, a lua cheia pousa  nas janelas e o vento traz o cheiro do rio. É nesses momentos que percebo: Lisboa  não me cativou sozinha. Foi ele, foi a forma como caminhámos juntos pelas ruas  estreitas e tortas, como se a cidade nos observasse em silêncio. Lisboa guardou-nos assim: imperfeitos, inacabados, porém genuínos.  Naquela noite de uma quinta-feira qualquer, o céu estava limpo e a lua  cheia parecia rir lá de cima, como se soubesse o que estava prestes a acontecer.  Assim que o sol se despede, é a lua quem assume o comando — chamando para  si todos os apaixonados da cidade. E entre eles estávamos nós: dois loucos, dois  amantes, dois sonhadores, duas crianças ingénuas a brincar com o destino.  Apaixonados pela vida, pela música, por essa mistura improvável de bossa nova  e jazz a ecoar pelas ruas de Lisboa — um toque de Brasil perdido na Europa.   “A vida é uma loucura! Tudo começou com um simples convite para apreciar a  beleza da mãe natureza.” - pensei.   E, sem perceber, estávamos ali, rendidos a algo maior do que nós.  Palavras não bastam para explicar o que Lisboa me faz sentir — esse tesão  de viver que nasce do nada, como um incêndio que se acende dentro do peito.  Talvez isto não leve a lugar nenhum, talvez acabe como tantas outras histórias  que começam no impulso e morrem no silêncio. Mas uma coisa era certa: foi  genuíno. Fui apenas uma louca escritora a partilhar a alma com outro louco. E  que assim seja — que os loucos se encontrem, sempre. Porque “A noite pertence  às putas, aos poetas e aos que morrem de amor” .  Ao som do jazz, num bar de estilo antigo e atemporal — escondido numa  rua discreta de Lisboa, um refúgio secreto, onde os cocktails são pequenos prazeres e a música envolve o espaço por completo, com álbuns inteiros a tocar do princípio ao fim, criando uma atmosfera íntima e atemporal — com as luzes  baixas e o ar impregnado de desejo, estávamos nós dois, dois loucos, como se o  mundo inteiro se resumisse àquele instante. Fazíamos amor por telepatia, sem  tocar, apenas com o olhar, enquanto o vinho tinto escorria entre os lábios e o  som do saxofone preenchia o silêncio. Cada nota parecia empurrar-nos mais  fundo nesse jogo de provocações. Havia algo de hipnótico nele. Cada vez que os  nossos olhos se cruzavam, eu sentia o corpo reagir — ele não me tocava, mas  penetrava-me com o olhar. Penetrava-me os pensamentos, a mente, a respiração.  Penetrava-me de um jeito que era quase físico, como se o corpo já não precisasse  mover-se para sentir. Era uma invasão lenta. Ele atravessava-me por dentro,  desmontando-me em silêncio, como quem lê um segredo que eu própria não  sabia que guardava. E eu deixava. Deixava que ele me penetrasse com o olhar,  com a presença, com o jeito de dizer nada e, ainda assim, dizer tudo. A partir  desse momento, percebi que já me tinha rendido. Já não havia defesa possível.  Seria tesão ou loucura? Talvez os dois. Os nossos corpos conversavam num  idioma que ninguém mais entenderia. Um idioma feito de respirações, silêncios  e desejos.  Depois, num impulso quase infantil, fomos saborear aquelas delícias  quentes e cheias de especiarias do Médio Oriente, o kebab , mordendo cada  pedaço entre risadas e silêncios cúmplices, enquanto vagávamos pelas ruas,  cruzando-nos com pessoas que acabavam de sair do trabalho e pareciam alheias  à nossa pequena loucura. Ríamos das migalhas, da mistura entre o luxo e o  improviso. Ele me olhava como se eu fosse um poema que ele ainda não sabia  decifrar. Seguimos a pé até um parque não muito escondido, desses que parecem  ter sido criados só para guardar segredos dos amantes. A cidade dormia, mas o  mundo inteiro parecia acordado dentro de nós. Sentamos num banquinho e  ficamos ali, falando sobre tudo — sobre a vida, o tempo, os medos, os sonhos, as  coisas pequenas que ninguém mais entende. E de repente o silêncio entre uma  frase e outra se tornou um convite.  Foi ali que começamos a nos amar, devagar, entre beijos demorados e  risadas idiotas, como duas crianças que acreditam que o amor pode durar para sempre. Ele tocava me como quem descobre uma canção antiga. E eu me deixei  ser melodia. Era respiração ofegante, quase um murmúrio entrecortado pelo som  da água a escorrer pela pele. A boca sabia a sal, a suor, a desejo. Havia algo de  sagrado e profano naquele instante em que tudo se misturava — o calor do  corpo, o sabor do outro, o delírio de tanto nos beijarmos. Fazíamos amor por telepatia, mais uma vez. Sem precisar de tocar, bastava o olhar, o pensamento, o  simples gesto de respirar ao mesmo tempo. Era como se o chão, o mar e a lua se  encontrassem em nós. Tudo pulsava no mesmo ritmo: a música, o corpo, o tempo.  Era mania, era febre — essa coisa dele que me queimava por dentro. De tanto  imaginar loucuras, já não sabíamos onde acabava o sonho e começava o real. Ele  puxava-me pela cintura com uma urgência tranquila, como quem teme o fim, mas  quer viver até ao limite. E então, por um segundo eterno, soubemos apenas isto:  estávamos vivos. Nada mais importava. Nem o depois, nem o antes. Só o agora,  esse instante suspenso onde o amor e o delírio se confundem.  A caminho de casa, tocava Bossa Nova no carro. E ali estávamos nós, dois  loucos a cantar desafinados pelas ruas de Lisboa, enquanto as luzes da  autoestrada piscavam como estrelas elétricas no meio da noite. A cidade passava  devagar pelas janelas e eu sentia aquela estranha e doce sensação de que tudo,  por um breve instante, estava exatamente no lugar certo. Ele segurava o volante  com uma calma quase ensaiada, e eu, encostada no banco, deixava a cabeça  pender ligeiramente para o lado, observando a lua que nos seguia lá fora,  cúmplice, curiosa, eterna testemunha dos amores que nascem do nada.  Foi nesse instante que percebi que até o que parece inteiro tem as suas  falhas: nas cidades, nas pessoas, no amor. Ninguém completa ninguém. Encontramo-nos, apenas isso, e durante um breve momento acreditamos que um  beijo consegue segurar o infinito. Lisboa ensinou-me isso: que o bonito vive no  intervalo, no quase, no agora. No que sentimos sem pensar demasiado, sem  medo do depois. Talvez nunca mais nos cruzemos, talvez tenha sido só uma noite.  Mas foi aquela noite — a que fica presa na memória como um perfume que não  se quer lavar da pele. E se algum dia me perguntarem o que é o amor, direi que  foi ele. Foi Lisboa. Foi a lua cheia a espreitar por entre prédios antigos, o jazz  perdido num bar que nem sei nomear, a culinária do Médio Oriente partilhada às  gargalhadas, a Bossa Nova a rodar no carro enquanto as nossas vozes  desafinavam sem vergonha. Foi o silêncio confortável, o riso fácil, a sensação  absurda de que o mundo parou só para nós dois. E naquele segundo, apenas  naquele, tudo pareceu possível.  Foi samba e amor…

  • Caminhada para a dor

    presos tantos pensamentos e nenhuma solução. uma cabeça em fragmentos, para quê um coração? dois pólos não se formam, chegou-se a essa conclusão. palavras não se conformam, aceitou-se a deceção. deixado neste vazio, com os meus botões, matuto: a vida perdeu o sentido... aguentarei mais um minuto?  ao mundo real regresso, esperança desvanece. já enlouqueço, confesso e o desespero fortalece. pessoas passam por mim, mas parece que estou só. alguém que coloque um fim. que alegria? só um nó.

  • Sem Direito: João Amador

    O Tiago Sousa e a Sofia Neves, coordenadores de jornalismo do Jur.nal, apresentam o quarto episódio do segmento de entrevistas Sem Direito. Desta vez, com o professor João Amador. TS – João Luís Morais Amador, atual professor de Economia, foi um antigo membro dos Ena Pá 2000. Vindo de uma família agrícola alentejana, é, atualmente, um dos suspeitos de ter roubado as jóias do Louvre para financiar o seu mais inovador projeto, Compal de açorda. O seu hobby favorito é destruir os seus colegas no monopólio e a sua série de eleição é o The Summer I Turned Pretty. Acha o programa do Quem Quer Ser Milionário uma tolice porque para ele a maneira mais acertada de fazer dinheiro é investir na revenda de roupas na Vinted. Sempre foi um homem de letras, mas foi obrigado a virar-se para os números por ter medo de realmente encontrar um peixe de quatro olhos no mar, depois de ter dado o Sermão de Santo António na escola. Quando ninguém está a ver, gosta de ouvir Chico da Tina e ler cartas de tarot, existindo o rumor de que foi capaz de prever os portais malignos que apareceram na nossa faculdade. Professor, daqui o que é que poderia ser verdade? JA - Pouca coisa, devo dizer. Coisas que podiam ser remotamente verdade… há uma parte que tem a ver com as origens da minha família. Da parte do meu pai, a família é do Alentejo, de Alter do Chão e, portanto, há ali uma ligação ao campo e atividades agrícolas. Eu sou de Lisboa, mas essa parte pode ser verdade. Em relação às joias do Louvre eu achei engraçado porque tive de viajar para Paris um dia ou dois depois de se ter concretizado o assalto, e então os meus colegas aqui no banco diziam “isto é perigoso, vais e vão achar que és tu que vais lá buscar as joias… haver alguém do Banco de Portugal a ir a Paris numa altura em que aconteceu um assalto é suspeito, é suspeito…”. Outras coisas que podem ser verdade: eu de facto não vejo o Quem Quer Milionário, enfim. Os meus hobbies vão mudando ao longo da vida, basicamente o meu hobby, nem sei se se pode chamar hobby, é que eu tento fazer um bocado mais de desporto do que fazia quando era jovem. Pode parecer estranho, mas é como eu utilizo o meu tempo livre hoje em dia. Gosto muito de música, os Ena Pá 2000 não estão no meu top de grupos preferidos (risos), mas gosto muito de música por isso posso dizer que é um hobby, sim. Sei que há aquela coisa de descobrir uma música nova que não se conhece e que se gosta muito, é uma sensação fantástica. E às vezes não tem de ser uma coisa que saiu agora, é uma coisa que já existe, mas que nunca calhou ouvir. Isso por acaso é uma daquelas coisas boas, muito boas, que a tecnologia nos trouxe, não é? Esta possibilidade de termos acesso a quase tudo o que se gravou em muitos momentos diferentes do tempo e isso dá margem para estas descobertas serem mais fáceis, portanto gosto. Ler… também era um hobby muito intenso lá para trás, o tempo hoje foi desaparecendo para a leitura e agora faço isso bastante menos, com muita pena. Acreditem ou não, acabo por ler mais em aviões, os meus livros avançam quando eu tenho uma viagem, porque ali há sempre os momentos do aeroporto antes do voo e pronto, eu às vezes digo que agora leio quando tenho a cabeça no ar. TS – E sobre a questão do peixe de quatro olhos do Sermão de Santo António? É verdade que tem medo do mar? JA - Não, eu por acaso sou o contrário. Eu sou um grande adepto dos banhos de mar. Tenho pena, no inverno há sempre aquela dificuldade, mas de não fazer mais quando o tempo está okay. Mas nadar no mar é uma coisa que me dá uma satisfação enorme, eu acho que é assim uma daquelas atividades em que os nossos sentidos respondem todos ao mesmo tempo… é a cor do mar, é aquele cheiro fantástico, a água salgada, o sabor a sal, é a sensação de deslizar na água, portanto é uma experiência fantástica, gosto muito. E sou pouco sensível ao frio, portanto isso ajuda, isso ajuda ( risos ). TS – É dos corajosos que vão fazer o primeiro mergulho do ano? JA - Nunca aconteceu, mas não era impossível, porque eu sou daqueles que quando não está ninguém dentro de água porque está gelada, eu estou lá ( risos ). E às vezes até um bocadinho tempo de mais e isso até se pode tornar um bocadinho arriscado. Mas sim, eu gosto muito de água, mesmo fria, naquela em que ninguém consegue meter lá o pé. SN - Queremos saber como era como aluno? Mais estudioso, mais baldas? JA - Eu enquanto aluno era super estudioso. Talvez só a partir de um determinado momento do percurso, para aí do 9.º para o 10.º ano. Até lá acho que estava perfeitamente naquele registo intermédio, mas houve ali um momento em que eu percebi que era mesmo preciso, se queria atingir os objetivos, era mesmo preciso fazer aquilo a sério. Portanto o 10.º, 11.º, 12.º, era aquele drama de entrar na faculdade e, portanto, estudava bastante e depois na faculdade, uma vez chegando, é aquela responsabilidade que tem de correr bem e, depois, se as coisas começam a correr bem ganhamos algum entusiasmo e, portanto, estudei muito durante os anos da faculdade. E depois ainda me meti naquele desafio de fazer o doutoramento, que é uma daquelas coisas que a pessoa quando começa pensa “bom, estou aqui a pôr muita coisa em causa” porque, ao fazer isto, não estou a fazer outra coisa, não estou a trabalhar, estou a abdicar muito tempo ao projeto mais académico, e estuda-se muitíssimo. Há muitos momentos de angústia, claro. Mas sim, estudioso. TS - Qual é o seu sítio favorito para ir beber um copo depois do trabalho? JA – São vários. Tudo o que é ali à beira-rio, naquele contexto em que já temos o sol a pôr-se, é fantástico. Eu moro aqui em Lisboa, portanto é o sítio mais natural, mas também os miradouros que temos aqui em Lisboa não é aquela coisa de proximidade, mas a vista é ótima! TS – Conhece o Corner? JA – Não, não. Geralmente, e isto é uma questão da nossa maneira de ser, tudo o que sejam sítios com muita gente epá, ficam abaixo das minhas preferências. Para mim, tranquilo, pouca gente, pouco ruído, é sempre a minha preferência. Não é que eu não goste de pessoas, eu gosto de pessoas ( risos ) e dou-me bem com as pessoas, mas quando é para relaxar tem que ser na versão calma. SN - Sempre quis ser economista e professor ou tinha outros planos? JA – Isso são duas perguntas, porque uma coisa é economista e outra coisa é professor. Eu quis ser economista quando tomei a decisão sobre o curso que queria seguir, e essa decisão é uma decisão que acontece ali no 11.º, 12.º ano. E mesmo assim não se tem a certeza, quando se percebe nós não sabemos muito bem ao que vamos, só que eu tive a sorte, o privilégio, de ter tido aqui professores logo no primeiro ano que desfizeram as minhas dúvidas, e eu queria mesmo ser economista. Ser professor eu acho que vem antes, ainda vem antes disso. Eu sou uma pessoa, vocês conhecem-me, eu sou uma pessoa mais introvertida do que extrovertida, o que pode ser estranho um introvertido querer ser professor, porque é uma coisa que tem uma certa exposição. Ou então não, e até tende a ser assim. Mas eu lembro-me de estar no secundário, lá para trás, e havia sempre aquela coisa de “Quem é que quer ler?”. E eu era sempre aquele que queria ler e gostava daquele momento em que estava a ler para a turma. E depois passamos para aquela fase onde “Quem é que quer dar a próxima aula?” e eu era aquele que me oferecia, e eu raramente me oferecia para fazer coisas, mas dar a aula… eu oferecia-me para dar a aula. Portanto eu acho que lá já havia qualquer coisa, mesmo sem saber de economia ou não economia, que me fazia gostar daquela coisa de comunicar, de explicar, mesmo sendo tímido. SN – Quando era mais pequenino tinha algum sonho de profissão mais esquisito? JA – Epá… sim, quando somos pequenos é aquela coisa que acho que é clássica, todos queremos ser as coisas… TS – Como ser astronauta? JA – Astronauta nunca aconteceu, devo dizer. Era bombeiro, lembro-me da fase em que queria ser bombeiro, lembro-me da fase de ser polícia, até houve uma fase em queria ser forcado, vejam lá ( risos ). Eu não sou adepto da tauromaquia, não é nada disso que eu estou aqui dizer, mas na altura eu acho que aquilo, enquanto pequenino, fazia assim um certo impacto, aquela coisa de haver uma pessoa que se metia à frente de um touro. Então eu achava aquilo um exemplo de coragem e, de facto, é um exemplo de coragem. E então houve uma altura em que eu queria ser forcado, e até no Carnaval lembro-me de andar mascarado de forcado. Felizmente não há fotografias desse tempo. TS - Qual foi a melhor viagem que já realizou? JA – A melhor viagem… isso é muito complicado, mesmo muito. Há assim dois destinos que foram viagens de férias. Uma pessoa às vezes faz viagens de trabalho, que podem ser agradáveis, o ano passado até estive no Rio de Janeiro e gostei muito; gostei muito da cidade que de facto é uma cidade muito bonita. Mas assim viagens onde se vai para passar uns tempos e conhecer tenho duas boas memórias. Uma ao México, ali à zona do Caribe, e aquelas praias ali da zona da Riviera Maya, são de facto fantásticas. E eu lá está, gosto de praia, gosto do mar. Portanto foi muito bonito e depois tem ali a zona das ruínas maias, muito bonito. E num registo diferente, não praia, mas gostei muito da Tunísia, sobretudo da zona mais de deserto. Aquela sensação de estarmos no deserto… e a paisagem é bonita, é muito bonita. Eu hoje em dia faço maioritariamente viagens de trabalho e faço menos viagens de lazer do que fazia no passado porque o tempo é mais escasso e uma pessoa tem as férias muito compartimentadas, tem de ser naquela altura e depois às vezes não é o período ideal para ir a um determinado sítio. Eu gosto muito, como vocês sabem, e não estou a dizer isto de propósito para a entrevista, mas vocês sabem que eu gosto muito de dar aulas, tal como falamos há bocadinho, e gosto de estar com vocês. Mas isso traz uma restrição grande, que eu só posso tirar férias nos períodos em que não há aulas, ou seja, é ali aquele momento do verão, que nem é o melhor momento para andar a fazer grandes viagens, e depois há ali aquela janelazinha na Páscoa, um bocadinho no Natal. São opções de vida, uma pessoa quer dar aulas porque gosta disto, sim senhor, não há cá hesitação, mas não acontecem outras coisas (risos), não posso ir em janeiro fazer uma viagem. SN - Porque é que escolheu a universidade NOVA para fazer todo o seu percurso académico? JA – Essa também é uma bela questão. Eu quis vir para a NOVA inicialmente porque queria economia e a NOVA tinha o melhor curso de economia. Portanto uma pessoa evidentemente concorre para várias e põe o melhor em primeiro lugar e pronto, consegui entrar e tive muita felicidade quando entrei aqui para o curso de Economia da NOVA. Depois quando terminei o curso quis continuar a estudar e aí colocava-se a hipótese que era a de continuar e estudar fora, e alguns colegas meus deram esse passo. Porquê que não o fiz? Enfim, questões familiares, há sempre aqui um bocadinho aquela coisa de termos de deixar a família e isso tem o seu peso. E depois houve ali um momento em que no doutoramento havia uns exames que são no final do primeiro ano, da parte escolar, que eram uns exames um bocadinho de seleção. São difíceis, na altura um obstáculo gigante, são os exames preliminares. E eu lembro-me de fazer as cadeiras e depois pensar “Bem, vou tentar fazer os exames preliminares”. Alguns colegas disseram “Nem vou tentar, vou já concorrer para ir para outro sítio”, onde também havia exames preliminares, mas não tinham que os fazer aqui, mais valia depois apostar tudo no sítio para onde fossem. E eu tentei e, bem, passei. E depois reparem que já havia aqui uma situação em que eu já tinha passado nos exames preliminares, portanto ir embora era do género: “vou começar tudo outra vez, depois de já ter passado esta barreira aqui.” E então foi mais um fator para ficar. Hoje em dia não sei, se voltasse lá atrás como é que era a minha decisão, se mudaria ou não. Procuro não me debruçar muito sobre esses cenários do passado, são coisas que já estão, não vale a pena. Mas depois acabou por ser isso que disse, fiz todo o meu percurso aqui na mesma casa. Enfim, também tem o seu lado bom, sinto-me aqui muito em casa. De facto isto é uma casa para mim, a universidade NOVA. A Sofia Neves introduz o terceiro segmento, onde pede ao professor para associar fenómenos económicos a figuras da nossa faculdade. JA – Este jogo é muito difícil, não vai correr nada bem este jogo... Monopólio JA – O monopólio acho que associo ao Fabrizio, porque basicamente é a área dele e falamos frequentemente sobre como é que nas nossas duas cadeiras isso pode ser articulado e onde é que conseguimos construir uma ponte entre a Economia e a Análise Económica do Direito e essas outras questões que ele aborda. Portanto esta era fácil. Subsídio JA – O nosso Senhor Vítor da portaria é uma pessoa generosa a quem nós recorremos quando estamos aflitos e não sabemos o que é que havemos de fazer, portanto não hesitaria. Ponto de equilíbrio JA – O ponto de equilíbrio da faculdade eu acho que é a Direção, os colegas da Direção. A faculdade tem tido sempre equilíbrio, muito equilíbrio neste percurso. Concorrência perfeita JA – Só assim para esticar um bocadinho a coisa, a concorrência é a minha colega Susana Peralta, que é a minha concorrente. Também dá Economia, há aqui um campeonato entre economistas. Quota JA – Serviços académicos. São aqueles que nos mantêm de acordo com os procedimentos e tal. Acho que sim. Comércio internacional JA – Os professores de International Law. O Tiago Sousa introduz o último segmento da entrevista, onde pede ao professor João Amador quick-fire answers. TS - Qual é a figura pública que mais o irrita? JA – Que mais me irrita? Epá não sei… eu irrito-me pouco, devo dizer, porque nem sequer sou aso a começar a irritar-me. Quem é que me irrita na esfera pública… SN – O Professor é zen? JA – Sou, é muito difícil vocês verem-me assim com uma irritação de perder a cabeça. Figura pública… não consigo identificar uma pessoa. Sei que tenho muito pouca paciência quando estou a fazer aqueles zappings e há aquele segmento daqueles programas de reality show, em que há sempre personagens e tal, pessoas que vão passando por ali… eu não consigo ver aquilo, de facto. Toda aquela família de programas sempre me causou assim uma perplexidade enorme porque aparentemente aquilo é um jogo, mas eu não consigo perceber que jogo é que possa ser. Portanto, para mim acho que aquilo é uma coisa que me enerva assim um bocadinho TS – Então não gosta da Cristina Ferreira? JA - A Cristina Ferreira é uma profissional, é uma jornalista, faz o seu trabalho. Mas é o conceito, vamos lá ver, o conceito e todas aquelas pessoas que acabam por participar, portanto é assim uma irritação mais coletiva. Mas pode ser fruto simplesmente do meu desconhecimento total, porque não consigo perceber, é que faz-me confusão o que é que aquilo possa ser. SN - Sair para o Bairro Alto ou Santos? JA – Eu ia para os dois sítios nos meus tempos. Eram as duas, mas talvez fosse mais Santos do que Bairro Alto. Não sei, na altura era onde estavam os sítios, ou estão, não sei, porque hoje em dia já não frequento da mesma forma. Mas no Bairro Alto estamos a falar de sítios mais pequenos e, portanto, eram coisas mais de pequenos grupos, enquanto em Santos era uma coisa maior, assim numa escala diferente. Portanto dependia de qual era o estado de espírito, queremos ir tomar um copo e jantar, vamos ao Bairro Alto; se o pessoal quer ir dançar, vamos para Santos. Portanto não é fácil escolher, era um bocadinho mais em função do programa que se queria ter. TS - Numa escala de 1/10, qual acha que é o impacto económico que o Copycenter provoca na vida académica? JA – O impacto económico que isso tem numa escala de 1 a 10… eu acho que é pequeno, não é uma coisa dominante. Para aí um 3, 4 máximo. Acho que é pequeno, não é em torno disso que gira a vida académica de todo. TS – Mas qual seria o impacto económico na vida no aluno e depois em contrapartida na vida do autor do manual? JA – Eu acho que o impacto para o autor também não é muito grande. Posso estar a ver mal, mas mesmo quando escrevemos livros e textos eu acho, e posso estar a ser um bocadinho romântico ou a falar só por mim, mas o espírito não é enriquecer com os direitos de propriedade intelectual dos livros, é deixar qualquer coisa. É no fundo deixar escrito coisas que nós achamos que valem a pena, que possam ser lidas. Portanto eu acho que para professores e para alunos é algo relevante, mas ainda assim não me parece que haja verdadeiramente uma questão de economia, de quanto se recebe, quanto se ganha, quanto se gasta. E numa escala de 1 a 10 eu ponho para baixo porque para mim onde está o 9 e o 10 é dentro da sala de aula. Isso é que eu acho que é de facto o sítio onde tudo funciona. SN – Resolver a troika ou impedir que o preço de um almoço na Social aumente? JA – Epá, resolveria a questão da troika ( risos ). TS – E iria chatear os alunos já em crise económica? JA – Não, não, vocês não percebem. É que a questão da troika é uma questão que é mais abrangente e que afetaria mais os alunos do que a questão da cantina, porque a questão da troika iria afetar coisas como o salário dos pais dos alunos e isso tem um impacto mais forte que do que o dinheiro gasto na cantina. É que sem salário não há cantina (risos), não há o que gastar na cantina. Portanto seria essa a prioridade. O que não quer dizer que haja menos preocupação com os alunos, se calhar até prevê maior preocupação com os alunos. TS – Podemos considerar que quando Variações disse: “Quando a cabeça não tem juízo e te consomes mais do que é preciso, O corpo é que paga” como a primeira teoria económica portuguesa? JA – Não sei, mas que é verdade, é ( risos ). Eu gosto muito do Variações, não mencionei há bocado, mas é um dos meus intérpretes preferidos na música portuguesa. Portanto acho que a resposta aqui é sim. SN – A primeira vez que deu aulas na faculdade de Direito, que antigamente era no CAN, a mesma estava em construção. Podemos considerá-lo o “Bob da Economia”? JA – O Bob da Economia? Como o Bob o Construtor? (risos). Acho que sim e não. Quer dizer, não porque não me atribuo esse papel construtor, acho que os nossos pais fundadores, vocês sabem quem foram, como a figura do Professor Diogo Freitas do Amaral, aí é que estão os construtores e os grandes inspiradores. Mas há uma parte que sim, porque eu sou o tipo de pessoa que gosta de fazer coisas e sou daqueles que gosta de ir para a frente e fazer. Gosto mais de fazer do que conceptualizar e ficar assim pelas ideias vagas, gosto de ação e gosto de implementar. Portanto sim, porque sou um homem que gosta de implementar, mas não, porque os verdadeiros construtores dos alicerces foram os nossos pais fundadores.

  • One battle after another

    Corajoso e pertinente, mas não vamos fingir que é o primeiro bom filme com que nos deparamos. Nota: 4 estrelas Confesso que ainda estou desapontado com o final, mas isso fica mais para a frente… Embora não considere One Battle After Another uma obra-prima, tiro o chapéu a Paul Thomas Anderson, que já não é nenhum estranho no que toca a produzir filmes de sucesso, pois, a meu ver, o filme concretiza tudo a que aspira. A história baseia-se num tema que sempre foi polémico e controverso - a fronteira dos EUA com o México -, no entanto, com o que se tem passado nos últimos meses, é seguro dizer que o tema está mais inflamável do que nunca. Mesmo assim, a verdadeira controvérsia e ousadia deste filme é a posição moderada que assume, algo pouco comum nos dias de hoje. Através de simbolismos e personagens engenhosamente escritas, a mais recente longa-metragem de PTA procura capturar a essência humana e como esta se relaciona com a evolução da espécie ao longo da história. Um dos meus aspectos favoritos deste filme é o quão não se leva demasiado a sério. O estilo disparatado do humor e dos antagonistas evidencia na perfeição o que refiro. Eu sei, eu sei, a minha frase ultra filosófica no final do parágrafo anterior não suporta esta afirmação, o que, para mim, eleva imediatamente o filme para outro patamar. A habilidade de cobrir temas sérios mantendo um tom leve e engraçado é algo que merece o devido reconhecimento. Sim, é inegável que o filme pretende transmitir certas mensagens e abordar temas sérios; contudo, há momentos em que é fácil perceber que o realizador apenas se quer divertir com as suas personagens, o que certamente será frustrante para aqueles que procuram significado em tudo. De certa forma, fazem-me lembrar os professores de português que, ao lerem o verso de poesia mais sóbrio e magro em conteúdo, eram capazes de elaborar meia página de apontamentos sobre o estado de espírito do sujeito poético. Um exemplo pertinente é a personagem de Sean Penn, um indivíduo que usa solas altas para aumentar a sua altura, roupa justa para acentuar os músculos e assume-se nazi para combater os seus impulsos sexuais, de que o próprio sente vergonha, o que culmina numa figura patética e hilariante. A meu ver, isto não se trata de mais nada senão do realizador a divertir-se consigo mesmo e com a audiência; não o considero político, até porque ser anti-nazi não é propriamente uma posição que seja necessário realçar ou demonstrar. Esta relativa leveza impacta o ritmo de forma substancialmente positiva — duas horas e meia parecem metade —, factor muito importante tendo em conta a degradação do tempo de atenção desta geração. Todavia, o verdadeiro trunfo deste filme é, sem dúvida, a sua posição moderada em relação a um tema tão controverso. Surpreendentemente, o filme ataca tanto o lado do governo dos Estados Unidos (esperado) como o dos revolucionários. Por um lado, critica os militares pelo seu abuso de poder e métodos reprováveis para extrair informação — até aqui nada de novo. Por outro lado, os revolucionários são expostos por usarem uma causa “libertária” como uma muleta para satisfazer os seus prazeres violentos e perigosos. Estes, em várias ocasiões, revelam-se egoístas, traidores e até ladrões vulgares. O casal de Bob (Leonardo DiCaprio) e Perfídia serve como exemplo. Perfídia é a encarnação do que afirmei acima, enquanto Bob, assim que nasce a filha, percebe que isso sim é algo com significado na sua vida, e que toda a ideia de revolução através da violência era apenas algo para preencher o seu vazio — descartável quando comparado com a responsabilidade de ser pai. (DiCaprio, para variar, mostra-nos que desconhece o conceito de não brilhantismo: fenomenal.) Perfídia apercebe-se disso tarde demais, marcando assim a sua conclusão trágica. O salto de quinze anos na história também pode servir de crítica, visto que, mesmo após atos de violência gratuita dos revolucionários, nada mudou e os prejudicados continuam a ser os mesmos — pessoas inocentes. A posição moderada é incorporada na personagem de Benicio del Toro, a calma debaixo do fogo, um homem que faz o que pode para ajudar as pessoas, mas condena os actos de violência dos revolucionários, evidenciado pela reação deste quando descobre que Bob é um ex-membro dos French 75: “You're a bad hombre”... A interpretação de Del Toro é imaculada; este aproveita ao máximo o pouco tempo de ecrã que tem, destacando-se pelos maneirismos hilariantes. Os rumores de uma sequela focada no personagem refletem a magnitude da interpretação.  No que diz respeito ao simbolismo, foquemo-nos no clímax. O filme culmina numa perseguição de carros, onde Deandra (filha de Bob) é perseguida por um neo-nazi, numa estrada repleta de altos e baixos, como se de colinas se tratasse. Estamos, obviamente, perante um simbolismo que eu dividi em três interpretações possíveis, o que não quer dizer que não possam existir outras. Primeiramente, podemos interpretá-lo como a contínua batalha do oprimido contra o opressor ao longo da história, uma visão marxista que pretende resumir a nossa evolução a tal. Numa abordagem mais literal, também pode representar diretamente o nome do filme, uma batalha após a outra , que, de facto, é aquilo que as personagens vivem ao longo do enredo. A terceira, e na minha opinião a mais ajustada, é também a mais complexa: o revolucionário contra os que detêm o poder é um padrão recorrente e eterno na nossa existência, pois ambos os lados sofrem do mesmo problema — o erro humano. Não existe um lado objetivamente correto. Tanto o regime como a revolução colapsam pela ganância e fragilidade humana, representada pelas personagens. Dito isto, o filme não está imune à crítica. O que me parece mais relevante destacar é a forma insatisfatória como é concluído um dos aspetos principais da história, a relação entre Willa (filha) e Bob (pai). Revela-se algo artificial e apenas está presente para criar emoção e um aparente final feliz, que, a meu ver, choca um pouco com a mensagem do filme — irei concluir esta ideia mais adiante. Também notei que, por vezes, o filme recorre a coincidências ou temas genéricos para permitir que a história flua e avance. Por exemplo, quando Deandra está nas mãos de um caçador de recompensas, este subitamente enche-se de princípios e sacrifica-se, sem mais nem menos, para a salvar, o que simultaneamente roça o coincidencial e o genérico (o habitual sacrifício épico de redenção, mas, neste caso, sem qualquer construção ou desenvolvimento). Finalmente, gostaria de concluir comentando a primeira frase deste texto. A última cena deste filme mostra-nos Willa, após ter passado por toda a jornada de violência e perigo, a seguir as passadas revolucionárias do pai, ainda por cima com uma música feliz por detrás, como se se tratasse de um final feliz em que todos viveram felizes para sempre... Não! Passámos o filme todo a demonstrar as consequências desse caminho, e Deandra deveria ser o reflexo direto dessa aprendizagem, nem que fosse pelo exemplo do que aconteceu aos pais. Eu percebo que, de certa forma, faz alusão ao simbolismo do ciclo eterno a que me referi; no entanto, tal final também compromete parte da posição moderada que tanto elogiei no filme. Mesmo assim, One Battle After Another é uma experiência maioritariamente positiva, em que o bom claramente se sobrepõe ao mau — só acho que tem sido ligeiramente sobrevalorizado pelo público geral, que parece que nunca tinha visto um filme de qualidade.

  • Womensplaining - Men

    The other day I was talking to a guy friend, and I promise you, this one isn’t as bad as the others, and I told him that my girl friend and I had come to a conclusion: the so-called “male loneliness epidemic” is nothing more than natural selection at work. Naturally, he laughed. And because he isn’t quite as hopeless as the rest, he asked why I thought so. I didn’t even need to think twice. Given the chance, I launched into a quick history of womanhood — how for centuries we were forced to marry and breed like mares, often with revolting men, and how, only recently, with this newfound power of choice, we finally gained the right to cast the odd ones out. Of course, he laughed again, not mockingly, as one might expect, but with genuine amusement at the conviction with which I made my case. He’s a curious man, that one, so he pressed further. What, he asked, was the foundation of my girl friend’s and my theory? “Simple,” I said, “it’s a matter of physical, emotional, and mental attributes — sometimes separate, sometimes combined.” Quick-witted as ever, he then asked if I wasn’t also a victim of this natural selection, since he knows me well enough to call me both a cynic of romance and a certified man-hater. And I won’t lie to you, my dear readers, I don’t take you for fools, yes, all of that is true. But let it be known that if I wanted a partner, I could have one. Not because I’m the most beautiful or fascinating, but simply because men will fuck goats and chimps, and as I still consider myself a lady, I remain well above those beasts in the “market.” That said, as you might gather from my tone, I am quite exhausted by the gender opposite mine. He knows this, of course, and never misses the chance to tease me about my impatience and disdain toward his kind — even when I speak with venom and condescension. Still, he’s patient, that one. And though I won’t pretend that my contempt for his peers doesn’t sometimes colour how I see him, I can’t help but notice the resemblance between him and the very men who, like him, insist on calling themselves “man.” Nonetheless, since men have always reserved the right to decide which women are worthy of value and respect, and because I am not any better than a man — merely human, after all I, too, shall claim that same privilege. I will group them all together until the rare ones stand out on their own. After all, it’s only fair. They insist that we have the same rights now, that feminism is obsolete, so surely I may also indulge in their habits of micro and macro aggression, prejudice, and hate. Ultimately, I am just a girl and girls will be girls. This is to say: my friend — the one we are permitted to like, for he is not as dreadful as the rest — stands in stark contrast to another man I once met. That one told me pregnancy was a blessing, that motherhood was the purest fulfilment of womanhood, and that I would “change my mind in due time.” I was, apparently, too young to think otherwise — though, curiously, he was the one who brought the theme up. For that, I sincerely wish him the experience himself: may he become pregnant and deliver a fine brood of children. And as for the men now suffering from the so-called loneliness epidemic — victims, they claim, of women’s cruel power of choice — well, they’ll soon need new carriers for their precious offspring. They seem to believe themselves the sacred vessels of humanity’s continuation, after all. So, by all means, let them carry the species forward.

  • Corpos celestes em retrógado

    O luar vai queimando, fotão a fotão, O nosso mapa astral quimérico, Enquanto me desespero na espera Nos teus olhos estrelados da reflexão Do meu ser, e que num ato profético Desenterres o obscuro da cratera Críptica que é o teu coração.  Eu já desenterrei o meu. Sempre abri o meu coração às estrelas, Quando o sentia a transbordar nebulosas Por ti; ou quando a imensidão das poeiras O comprimia em entropias perigosas, À procura do teu ângulo na trajetória. Oh!; que tivesse consanguínea a adivinhação Estrelar de Galileu, para me retirar daqui. Oh!; fatídica fantasia que por translação Nos concebeu nesta espiral, sem fim, Cosmicamente destinada à perdição. Eu à tua procura; tu a fugir.

  • O vício da solidão

    Dizem-nos sempre a nós, introvertidos, para nos espevitarmos, para sairmos da casca, chamam-nos "bichos do mato". Somos demasiado silenciosos, demasiado sozinhos. Mas nunca ninguém diz a um extrovertido que se acalme, que tire um tempo para si, que é demasiado ruidoso, que se cale. Parece que somos uma espécie rara e decadente viciada na droga da solidão.  Eles não entendem. Talvez nunca entenderão. A liberdade, o conforto, o refúgio. A leveza de viver sem a pressão, sem a crítica, sem a imposição da vontade alheia. A arte de observar, sentir, absorver, saborear tudo. De encontrar vida, amor e beleza em todo o lado. A chance de poder ficar mais um pouco porque não tenho pressa. O facto de não ser preciso arranjar assunto para preencher o silêncio. Porque o silêncio é casa, é abrigo. Mas há algo sobre o qual eles estão certos. A solidão é um vício. É um abraço apertado que não nos solta e do qual não nos queremos soltar. Queremos mais. E mais. E quando damos por nós, afundámo-nos. Faz-me lembrar quando era criança e caía no insuflável...as outras crianças continuavam a saltar e eu não me conseguia levantar. O mundo continua, todos são tão produtivos, tão sociais, tão alegres... E nós, introvertidos, viciados nesta droga, não conseguimos sair do abraço apertado da solidão.  Acima de tudo, ninguém fala da sensação de estar rodeado de gente e sentir-se sozinho. Da necessidade de fugir. Do refúgio que é a solidão. Mas, à semelhança de todas as drogas, também esta deixa sequelas. Desgasta. Corrói. Queima. Prende. Ninguém fala de como o refúgio e a liberdade se tornam numa prisão. A loucura, o desespero de tentar sair desta bolha e não conseguir. A espiral de pensamentos que surge de repente e nos apanha desprevenidos. E, de um momento para o outro, precisamos de fugir do nosso refúgio, porque este se apoderou da nossa mente e a virou contra nós. Mas fugir para onde?  Seremos nós cobardes? Estaremos a refugiar-nos numa ilusão momentânea de um mundo pacífico que não existe? Será a solidão mera negação do caos e do ruído que nos rodeia? Será medo do perigo, da perturbação, da crítica do mundo? Será isto auto-sabotagem? Ou auto-salvação? Será esta espiral de pensamentos, esta ânsia de fugir da bolha, uma forma de me salvar de mim mesma? Seremos nós efetivamente uma espécie deslocada, incapaz de se adaptar e aceitar o mundo? Ou estarão os extrovertidos a fugir ao vício da solidão, a este tormento constante, a este abraço que, sem que nos apercebamos, nos afunda e sufoca? São eles que fogem da solidão, ou somos nós que fugimos do mundo? E para onde fugimos todos? E quando vamos parar de fugir?

  • Poemas de Fernando Ruivo

    Desconclusão Se cá estivesses, eu não teria morrido Mas também, sei que agora, o quanto pedir, não o concedereis Eu tive a oportunidade de mudar, de alguém ser Eu pude, não noutra como pensava, mas nesta vida Tantas vezes, Tu me ofereceste renascimento Ser algo novo, mudado, de alma renascida Tantas vezes plantaste oliveiras Mas eu não as regava Tantas vezes me procuraste Mas eu escondia-me Tantas vezes me falaste E eu não escutava Mesmo eu sendo pá partida, faca bota, defeituosa Procuraste fazer de mim um instrumento da Tua paz Mesmo eu sendo de alma desprovido, homem seco Procuraste-me mas eu não me deixei encontrar Mesmo que Deus queira Se o homem não sonha A obra não nasce E para o homem que não dorme Uma obra é inconcebível De nada me servem lamentos e poemas melancólicos agora Ser um coitadinho não me vai fazer mudar No máximo alguns têm pena Outros, desprezo E por pena não vale a pena A alma é muito pequena Pelo menos percebi que poderia ter sido diferente Isso deixa-me esperançoso e sorridente Quando morre a videira A terra a acolhe E a espalha pela Terra inteira. Ultramar III No cesto do cultivo me misturo com os outros vegetais  Verdes de outras hortas, do minho a sagres, desiguais  Eles vivem felizes, contando e sua terra louvando  Ó cozido salgado, quanto do teu sabor São vegetais de Portugal E lá estava eu com eles também, não tão entusiasta Tinha a minha fé, mas lá esperava o que me esperava lá Aí! Se eu soubesse o que me vinha Aí! Se eu soubesse o que me aguardava Andávamos nos pelo mar a dentro, como os nossos antigos  Eles porém viram o império a ser erguido  Nós vamos acabar por vê-lo destruído E no cesto de vegetais que segue pelo céu refletido, Tal como nuvens que atravessam pelo mar refratado Embalado por ondas do seu andar, cesto de ferro couraçado,  Lá contam-se histórias, jogam-às cartas, acende-se tabaco (tem lume que me dê?) Um camarada aproxima-se de mim: “Aí então, o senhor é de lá de cima” “Lá de cima só o Senhor Deus, eu sou da margem do Douro” “Oiça o que digo, depois de ver o que há aqui em baixo,  Deixa de ver o que há lá em cima” Tinha razão.  A vela  Tão louvada é a luz  Glorificada pelos seus brilhos Amada pelo seu iluminar  Que a verdade traz aos olhos E é passada como chama em tocha Tão forte que nem caverna nem rocha Alguma vez a poderão ofuscar  Nunca ninguém porém fala do pavio  Pavio que carrega a chama e a sua luz Que se sacrifica como que em cruz Para que a chama queime  E a luz não se torne vazio  Nunca ninguém porém fala da cera  Cera que envolve como senhor o pavio da luz dama Que ao derreter se deixa marcar pela chama Para que nele sempre lembre do que brilhou E a luz não se torne esquecida, efémera Assim não esqueçamos que para a bela luz brilhar  Houve um pavio que ardeu  Houve cera que derreteu  E por fim, houve quem a vela acendesse  Para fazer luz E a luz foi feita

  • Registo 1: Carmesim

    A olhar para a parede branca, ouço os passos atrás de mim. Passos de uma multidão a recuar. A evacuar aquele espaço de recreação para realizarem as atividades realmente importantes. De modo a executarem "os testes", como dizem os guardas e os cientistas com os seus gestos tranquilizantes. Na verdade, ainda consigo escutar os apelos dos soldados. Eles que ordenam a evacuação do recreio mesmo até agora, agora que eu me pus a contemplar o canvas branco e rugoso da parede. Os guardas ordenam, guardas como o Leo. E nós seguimos. Mesmo sem ter um nome pelo qual nos possam chamar. Em meado ao barulho dos pés descalços dos meus semelhantes a sair da zona em que me encontro, das vozes severas dos guardas e dos barafustos distantes de utentes a discutir, fico só. Erguido no centro do espaço delimitado por três paredes e uma cancela a indicar o final da região de experiências e o início da região de descontração. Erguido, observo uma estrutura pura como o leite que vejo cientistas a beber enquanto anotam os resultados dos seus testes. Erguido, deixo-me ficar onde devíamos ficar apenas por alguns meros instantes. Erguido, fico cara a cara com uma barreira física. Erguido, enquanto todos os barulhos ao meu redor se dissipam e são reduzidos a nada perante aquilo que vejo erguido. Erguido. Erguido, ao nível dos meus olhos, vejo um buraco minúsculo na estrutura. Um furo disforme de alguns centímetros de comprimento e de menos de meio metro de largura. Com lascas de tinta seca a revestir os bordos exteriores da anomalia presente naquela arquitetura até então perfeita. Repleto de pedras e pedrinhas no seu interior, de vestígios da anatomia da parede. E é claro, além do que envolvia aquele buraco, havia o que ele escondia do outro lado. O mundo exterior nunca antes visto por nenhum outro Classe C. Ou melhor, uma das supostas engrenagens do mundo exterior: uma rosa. À distância, bem no fundo, era possível ver aquela flor carmesim. Plantada firmemente no que devia ser uma multidão de pequenas protuberâncias esverdeadas. De caule igualmente esverdeado, esguio e de aparência suave. Verde. Tão verde. Apenas não tão marcante como a cor das suas pétalas, do seu corpo escarlate, rubro, flamejante. Apaixonante. De tamanha singularidade e beleza que me fez esquecer os espinhos escondidos a revestir o caule. Aqueles traiçoeiros gumes de dor providenciados pela natureza a fim de afastar malfeitores. No entanto, acho que isto é o que é uma rosa, não é? Uma combinação de luz com escuridão. De beleza e fealdade. Trata-se de uma mistura equilibrada entre apreciação e aversão. Precisamente como descritas por Leo nas raras ocasiões em que ele se dava ao trabalho de responder às cobaias que devia manter em ordem. Creio que os meus olhos se arregalaram algures no meio da minha admiração. Senti as minhas pupilas dilatarem, inclusive. Nem me posso culpar por ter reagido de forma espalhafatosa. Passei o dia anterior a ouvir as palavras dos guardas, de entre os quais Leo, a conversar sobre isso. Tudo porque alguns Classe C numas celas ao lado da minha não paravam de falar sobre o mundo exterior. Por isso, a melhor forma que eles arranjaram para os calar foi falar até à eternidade sobre o assunto, na esperança que os ignorantes na matéria ficassem saciados ou simplesmente calados num silêncio sepulcral ao perceberem a tamanha complexidade da matéria. Bem, funcionou. O ruído cessou e sempre consegui entrar no sono ou lá como os cientistas lhe chamam.  Sim, adormeci. Mas adormeci a pensar no que eles tinham dito. Nas tais árvores com braços enormes chamados ramos. Os dedos de relva a crescer no chão que dizem ser castanho, signifique isso o que significar. Em correntes líquidas e translúcidas. E nas flores, flores a exibirem uma palete de cores cuja existência nunca soube. Flores como a rosa. Cores como o vermelho.  Eu aproximo-me da falha com vista direta para o plano oculto para qualquer um dentro daquela instalação. Apoio uma mão nas rugas da parede, encerro um olho e uso o outro para mirar na flor. Contemplo-a em silêncio. Na quietude que os soldados desejavam de qualquer Classe C. Se ao menos eles soubessem que a prática vale muito mais do que a teoria, eles teriam todas as alas quietas. Bastava ceder às súplicas dos prisioneiros. No caso de ontem, tudo se resumia a mostrar aquilo que eles tanto queriam ver. Garanto que ninguém iria piar. Pois eu nem consigo dizer nada de tamanha incredulidade. Por alguma razão, recordei-me das palavras dos guardas. Especialmente naquilo que Leo disse. Sobre o facto de existirem outros seres vivos como nós por aí. Exato, seres vivos. Essa foi a palavra que ele usou para se referir também às plantas. Uma peculiar escolha de palavras. Quer dizer, pelo que percebi, nós também somos seres vivos. Com isto, digo que somos indivíduos que pensam e respiram. E, como tal, vivem.  Todavia, aquela flor...tenho a certeza que ela não respira ou pensa e que, como resultado, não vive. Certo? Mas, se assim é, porque é que Leo disse aquilo. Os soldados não se deviam enganar. Este é o mundo no qual cresceram. Eles são os nossos testemunhos da realidade que só agora consigo vislumbrar por entre a falha na muralha de concreto e betão. Não podem estar equivocados. Ou pelo menos não deviam estar equivocados. A não ser que estivessem a fazer de propósito para induzir-me a mim e a todos os outros Classe C que também estivessem a escutar a conversa em erro. Ainda assim, se assim fosse, o que é que teriam a ganhar com isso? O que teriam a ganhar a enganar pessoas que nasceram há poucos dias? Já para não falar que os meus olhos comprovam a veracidade da descrição deles. Ao menos a descrição que eles deram das flores, das rosas está certo. E a minha experiência prática está a corroborá-lo. Portanto não, eles não mentiam. Assim creio. O que não me deixa tão confortável quanto queria. Sim, leva-me a acreditar que eles não mentiam e, apesar de tudo, não me livra da dúvida. Deixa-me ainda a questionar. A matutar a mesma pergunta, a mesma dúvida, a mesma constatação. O exato e idêntico porquê de antes. O que é que uma flor e um ser vivo têm em comum? Observo atentamente as curvas das pétalas no rebordo da detalhada obra da natureza. Mastigo o lábio ao mesmo tempo que inconscientemente arranho as lascas de tinta branca gasta com as unhas da minha mão de apoio.  A esbranquiçar-me os dedos. A fazer a minha mente viajar por entre o pouco conhecimento que colecionei em aproximadamente um dia de vida. A vasculhar. A buscar e a voltar a buscar. A mastigar o meu próprio lábio no processo. A raciocinar e a processar o que vejo. A piscar o olho direito responsável por este ato de espionagem e a voltar a focá-lo na obra diante dele. A admirar. A passar os meus dedos manchados de branco pelos limites pontiagudos do buraco. A infiltrar o meu dedo indicador no mesmo, a passá-lo por entre o que restou do incidente que orquestrou esta brecha. A evitar encalhá-lo com as outras camadas da parede. A conduzi-lo rumo ao seu destino. Rumo ao toque, ao contacto, à proximidade. À descoberta, à suma e total entrega à aventura, a vivências nunca antes experienciadas ou vivenciadas por qualquer outro Classe C, a uma vida real- Um estrondo faz-me retirar o dedo do furo e virar-me para trás quase por instinto. Os meus olhos movem-se de um lado para o outro com urgência maníaca. Rastreio o cenário. As outras duas paredes. A parede à minha direita. A parede à  minha esquerda. Todas brancas. Olho rapidamente para o chão. Limpo, salvo as impressões digitais dos pés descalços dos prisioneiros que evacuaram o recreio há demasiado tempo atrás. Há quanto tempo é que sequer estou aqui? Perdi a noção do tempo. É a pensar neste tema que passo o olhar pelo solo debaixo de mim, indo desde os meus dedos gordos e nus até à  fronteira que demarca o fim do recreio, até à cancela de metal pintada de vermelho levantada, até aos portões de ferro encarnados, até ao corpo de costas no chão e envolto numa poça de sangue. Os meus olhos não só repousam na visão à minha frente. Eles cravam-se nela. Cravam-se como nem se cravaram na rosa. Fincam-se naquela imagem nova para mim. Nova ao ponto de nem ter ouvido falar dela durante o dia de ontem, nesta minha curta vida.  Um homem. Careca. De estatura média. Massa muscular mediana. Com ar de duas dezenas de anos de idade, mas que sei não ter vivido mais de dois dias. Enfiado num uniforme branco comprido a cobrir-lhe os braços, pernas, tronco, tudo exceto a cabeça, as mãos e os pés. Um ser vivo. Metido numa poça do próprio sangue. Escarlate sangue a envolvê-lo, a molhar as suas costas e nuca. Vermelho sangue a abraçá-lo, a sair-lhe pelos cantos da boca e a escorrer para junto da foz que banha toda a secção anterior do corpo. Rubro sangue a acolhê-lo e a espalhar-se, centímetro a centímetro a afastar-se da fonte que é o corpo. Ruivo sangue a fazer do solo branco um canvas, oriundo de um incidente que eu nem consigo imaginar. Encarnado sangue a escapar-lhe do corpo como o mundo exterior nos escapa à vista, a manchá-lo e a marcar aquilo que presumo ser o seu fim. Carmesim sangue a traí-lo, pois o fluído que outrora estava dentro dele agora escolhe vazar e trazer o seu fim. O fim, pois reparo que o seu peito não sobe nem desce, os seus dedos estiraçados não têm espasmos em reação a serem molhados, as suas pupilas estão imóveis, o seu nariz petrificado, a boca aberta a demonstrar os seus dentes amarelados, as sobrancelhas permanentemente presas na exata mesma posição, os glóbulos oculares...baços...baços como os vidros das janelas pelas quais os indivíduos de bata observam as experiências às quais expõem as suas cobaias...às quais nos expõem. Acontece é que desta vez, a cobaia não foi submetida a nada. E o mundo trouxe-lhe o que presumo que seja... ... a morte. Na verdade, eu não o conheço. Nunca o vi. Deve ter estado numa cela longe da minha. Não sei, não estou vivo há tempo suficiente para perceber. Porém, sinto pena dele.  Afinal, olhar para ele é como olhar-me no espelho da cela. Então, eu quebro a minha passividade. Desato a andar. Reconheço que a rosa e o vislumbre do mundo exterior distraiu-me da minha tarefa de seguir a rotina que me foi atribuída e a todas as outras cobaias. Logo, teria de fazer por regressar aos eixos. Depressa. Antes que os guardas dessem pela minha falta. Em passada larga, eu circundo a poça de sangue em crescimento sem que suje os meus pés. Por muito que tenha dó dos restos mortais do homem, sei que, se não me despachar, mais tarde ou mais cedo terei o mesmo destino às mãos dos guardas. Podem não esbanjar muito, mas os cientistas asseguram-se de avisar-nos sempre relativamente à  abundância de armas de fogo no arsenal dos soldados. Lá no fundo, agradeço-os por estas advertências ocasionais. Neste momento começo a ver o uso delas em trazer-nos de volta ao caminho certo a levar. Como são úteis em retirar-nos das distrações hipnotizantes que encontramos no caminho. A andar rapidamente, deixo para trás o recreio. O buraco. A fenda com um vislumbre inédito do outro lado. De um novo mundo, de um novo início. A vista igualmente inédita que tive da morte. De um fim cuja existência desconhecia. Não me esqueço do que vi. Limito-me a empurrar tudo para um canto da minha mente. Para um local que seja acessível, facilitando a minha consulta num momento mais oportuno.  No entanto, enquanto caminho, não consigo deixar de me abstrair do cenário. De me retirar do presente e recostar nos meus pensamentos frontais. Os meus pensamentos acabados de surgir, aqueles que ainda não tive tempo de negligenciar e organizar. E dou por mim assoberbado pelas questões e pelo quão semelhantes são com as que já tenho. Aquilo era a natureza? Leo mentia? Para que serve a flor? De onde é que veio o buraco? Quem é que o fez? Quem poderá ter sido o autor, sabendo que esta pessoa causou a brecha muito provavelmente consciente de que seria punido? Será que esse indivíduo foi apanhado? A morte é mesmo um fim? O que é que aquele homem fez para ficar assim? O que é ao certo a morte? Porquê logo aquele homem em específico naquele instante em específico? E, acima de tudo, a resiliente e teimosa questão: o que é que um ser vivo e uma rosa têm em comum? Pensei, pensei e pensei, mas não cheguei a lado nenhum. Quando chegou a altura em que julgava estar a fazer algum avanço, os gritos dos soldados À  frente da fila de Classes C cortou-me o raciocínio. A seguir, infelizmente somente me ocorriam linhas e linhas de texto preenchidas com o meu nome. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Orlo. Depois de uma pausa reflexiva é que dei por mim a pensar na poça de sangue.  No quão vívida era apesar de ser um sinal do contrário. No quão sedutora era. No quão viscosa parecia. No quão fria devia ser, quase tão fria como o chão em que piso. No quão vermelho era. Tão carmesim. Carmesim como a rosa que vi através da fresta que nunca deveria ter lá estado.

  • Quando o laço cai

    Nem sempre posso fazê-lo. Mas quando tenho a possibilidade de desamarrar o laço e vê-lo lentamente a tornar-se num só fio contínuo, enquanto anseio rasgar o embrulho de forma a preservar, ainda que mal e porcamente, a sua integridade, os meus olhos viram estrelas, mesmo aquelas que já morreram, mas que para nós continuam a brilhar. O que vai ser desta vez? Os meus pais mantêm a cara vazia de sempre, provavelmente para eu não descobrir o que se esconde por detrás dos quilos de papel que vão diretamente para o lixo (ou, com sorte, para a reciclagem). Começa a aparecer um fio de cabelo, parece-me algo familiar. Com nuances castanhas, mas despenteado, nota-se que andou bastante tempo a abanar dentro da embalagem. Um rosto sereno sobressai, como de quem se encontra agora em paz. A roupa dela era perfeita, exatamente aquilo que eu estava à espera. Rosa, cintilante, vinda diretamente de um conto de fadas – ainda que a minha fada madrinha se tenha esquecido do dinheiro debaixo da almofada, continuo a acreditar nela. Agora que a vejo por completo, tenho de ter muito cuidado para não a estragar. Seguro-a bem perto de mim e peço baixinho que me proteja, que nos proteja, a mim e à minha família. Espero. O silêncio devolve-me apenas a respiração dos meus pais. Espero mais um pouco. Nada. Só me resta imaginar um “vai ficar tudo bem” da parte dela. Mas já ouvi essa frase antes, e sei que nem sempre é verdade. Ainda assim, ela é tudo o que sonhei. Há tanto tempo que pedia uma boneca. Agora está finalmente aqui, comigo. Mas, por mais que tente, a minha imaginação não consegue enganar os sentidos. Primeiro é o cheiro. Não é perfume doce de loja, não é o aroma plástico das bonecas das revistas. É um cheiro a terra húmida, a pó entranhado, a palha seca. Tento afastar esse detalhe, mas o toque confirma o que o nariz já sabia: a pele dela é áspera, feita de fibras e cordas que me arranham os dedos quando tento entrelaçar os meus nos dela. O meu coração aperta. Levanto os olhos à procura de uma explicação. Mas os meus pais não se movem. Continuam a olhar-me com aquele rosto gasto, cheio de rugas que parecem histórias não contadas. Histórias que eu não sei se quero ouvir. É nesse instante que compreendo, talvez isto é tudo o que resta de um mundo onde ainda se oferecem presentes. E então decido: ela é perfeita porque tem de ser. Abraço-a com mais força contra o peito e digo-lhe em segredo o nome que escolhi. Porque, se eu acreditar o suficiente, ninguém me poderá convencer de que esta não é a boneca mais linda que já existiu. E talvez, se eu acreditar ainda mais, ela me consiga devolver aquilo que o mundo insiste em tirar: a esperança de que, um dia, vai mesmo ficar tudo bem.

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