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  • Não digas à tua mãe, dizias

    Dá-me a sensação, não sei, ainda estou naquela fase em que ainda negoceio a minha infância comigo mesmo, Dá-me a sensação que o paleolítico já não é como antigamente, aliás nada é como antigamente. O antigamente é uma espécie de Éden muito diferente do que é agora (na altura o Éden era melhor e, já não me lembro bem, mas dá-me a sensação que nesse paraíso a Eva nem a maçã mordia, e as cobras até eram lagartixas) onde os meus meniscos nem existiam e o meu corpo,  - Sabes? quando eu era mais novo nem dava por ele e agora ele é mais que eu e a meteorologia não a sentia nas articulações. E agora - Sabes, palavra, dá-me a sensação que a calçada portuguesa é uma puta. Sempre a rasteirar os andarilhos das nossas velhas. até a calçada, e é que antigamente estavas cá e lá ia eu de tarde correndo para aquele segundo andar sem elevador que cheirava sempre a sopa e a humidade a fazer um bordado aos tetos quase imperfeito com que se media as saudades que tínhamos da primavera, a fechadura da porta à altura da minha cabeça, e depois dos meus ombros e depois já não sei porque deixei de medir. Os degraus ultrapassando-se uns aos outros com a percussão dos meus calcanhares interrompidos por um teu - Quem vem aí? E era sempre eu que vinha aí e agora, (palavra que invejo esse tempo que não é agora) nem com os óculos te deixaram ficar, nem com a tua bata e aquele quadriculado em brumas de azul cor daquele mar que de noite uma lua às escamazinhas que se mexe, mas sempre no mesmo sítio (vai-se andando, não é mesmo?) e os bolsos dessa bata onde nasciam os chocolates mais doces - Não digas à tua mãe, dizias tu como se fosse eu a pedir-me isso a mim mesmo pela tua voz e onde jaziam os papeis de rebuçados. E depois os caules das tuas mãos de viúva a arranharem-me a nuca de carinho. E agora quem é que reza por mim? As mezinhas? Ainda por cima agora que me começaram a nascer dores nas costas e nem te deixaram levar a tua bata (e o terço com que algemavas os pulsos antes do lanche)  palavra que agora os chocolates nem os como, já bem gosto deles, são só uma hortaliça com memória e a noite, que não sei se chegaste a reparar, mas começa sempre lá no fundo, agora vou para a cama às nove para que as insónias me comecem mais cedo e pelas quatro da manhã, pelas cinco, olhando para o despertador a comer-me os segundos como não comia antigamente e com este meu bigode a tremer equilibrado num sorriso raro, e agora de noite (antigamente era diferente, palavra)  são quatro da manhã e juro que não sinto a tua falta, não sinto falta de quando a ternura em pequeno me beliscava as bochechas, dos beijos cheios de carne, da minha cara, tão linda, limpa nos pormenores pelo teu dedo enxugado, das tuas amigas que cheiravam todas a água de colónia e que competiam contigo na missa das seis para ver quem rezava melhor o Pai Nosso e que me dá a sensação que se chamavam todas Lurdes.  Naquela fotografia onde aparecias com um senhor muito homem, alto e com aquele olhar que os mortos têm nas fotografias e que, presos numa moldura, parecem ter sempre qualquer coisa para nos dizer, mais ou menos da minha idade agora se eu usasse gravata, ele e como que nos sentimentos que eu não sabia porque era criança e ainda me estava a habituar a mim - Sabes, tenho tantas saudades dele e eu a ouvir aquela tua boca aberta, e a úvula uma gota de lágrima ao fundo da boca, e o teu quarto era quente, eu sei, porque as janelas transpiravam humidades sem panos que as contivessem e para que serve um pai senão para nos ensinar a perdê-lo? Como uma mãe serve para nos obrigar a camisolas mais grossas. E nem com a bata te deixaram ficar. E eu cheio de vergonha, calado, entretido a tomar comprimidos e um senhor, um senhor ali que eu não conhecia a desabar-se, e com os olhos aumentados pelo desgosto que deixava escorrer pela cara, porque a emoção tem tantas dioptrias, não é? E eu agora, naquela minha cólera sabor morando daquele batom que me dá às pupilas, que eu acreditava já baças, apetite de cão de rua. Eu não a queria ela a ela, queria só a sensação daquele nervoso tímido, quase encarnado, com que aceitas sem gosto o meu humor veloz de homem branco (já não me lembro se ela era bonita quando a conheci) e que me dê maior entretém que ir engolindo estas cápsulas, que antigamente havia tanto para eu brincar, e a culpa de te usar agora, de te inventar para isto, à espera que ao menos chegue um vento que faça parecer aos plátanos onde te encostavas, um vento que faça os plátanos fazer-me uma vénia  (venlafaxina, dulxetina) e que as dores no joelho sejam de cair na calçada - Antigamente a calçada não era tão puta, palavra. (amitripltina, ariprazol) e um joelho esfolado eu que nunca fui assim, que nem nunca gostei de chocolate, e que nem sei se tenho útero para que regressar num sono quente e com certezas (tenho voz de pai antigo, sou arrogante e tenho-me em muito boa conta. Escitalopram.) mas antigamente, antigamente era bom, melhor (tenho que aprender a fazer nós como deve ser) e fui tentando e não conseguindo, mas ei de conseguir, nem que seja de pesado, que o plátano onde eu escolher ficar me faça, sem vento só eu, uma vénia, agora.

  • Comunicação Social em Portugal: de Escudo a Arma Contra a Ditadura

    No passado dia 10 de fevereiro, o Jur.nal reuniu-se com o jornalista António Borga na Casa da Imprensa, para discutir o panorama da Comunicação Social antes, durante e após o 25 de abril. De uma conversa estimulante retiraram-se as lições de quem viveu sob a égide da ditadura e os avisos que pressagiam um futuro desafiante para o Jornalismo em Portugal. Quem é António Borga? Jornalista desde tenra idade, António deu os primeiros passos no universo da Comunicação Social nas mãos do Diário de Lisboa , hoje extinto. Como muitos outros da sua geração, começou como colaborador no seu jornal suplementar, especificamente designado para atrair os jovens para a prática jornalística, o Diário de Lisboa Juvenil . Já na faculdade o bichinho da escrita manteve-se, levando-o a dedicar-se simultaneamente à imprensa associativa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) – ainda com uma breve passagem pela poesia, “como todos os jovens vivem”. Contudo, este período não foi fácil. A iminente Guerra Colonial travada pelo regime Salazarista nas suas colónias impunha-se como obstáculo a todos os estudantes universitários. Derivado desta sua condição era-lhes concedida a possibilidade de adiamento do serviço militar para que seus estudos não fossem atrapalhados. Contudo, como castigo para todos os estudantes que, como António, participavam ativamente no movimento associativo, o Governo decidiu terminar com essa possibilidade, forçando-os a todos a combater na Guerra Colonial. António, enquanto membro da Associação de Estudantes da FLUL, intervinha nas suas ações de greve e outros protestos antirregime, pelo que se tornou alvo do mesmo. Assim, perante o “acaso” – como o próprio lhe chama – de não conseguir adiamento do Serviço e ter de ir combater para a Guerra, decidiu autoexilar-se para Inglaterra onde pretendia seguir Antropologia. Anos na BBC: a Contraposição entre Portugal e Inglaterra O interessante do tempo é que este é incerto e reserva-nos surpresas quando menos esperamos. No caso de António, uma entrevista com um contacto que tinha na BBC e um excessivo período de espera até ao começo das aulas culminaram na sua candidatura ao trabalho de verão nessa emissora, que precisava de substitutos para os seus colaboradores que iam de férias. Segundo o próprio, esse foi o fator impulsionador para começar a fazer “jornalismo a sério”, já que se lhe “tomou o gosto por aquilo e a Antropologia foi-se”. Os seus anos no serviço português da BBC – onde se dedicava ao jornalismo de emissões para língua portuguesa, tanto em Portugal como em África – permitiram-no observar “ao estado a que chegou” Portugal: a censura prévia, o mecanismo de propaganda, a repressão, o esforço para manter a população ignorante e à deriva…Tudo aquilo que em Portugal sentia, em Inglaterra confirmou-o. António recorda a dualidade da Comunicação Social europeia nos anos 60 e 70, pois se em Inglaterra se vivia o surgimento de tendências progressistas, em Portugal a prioridade do regime era o seu retrocesso. Aliás, não era raro jornalistas portugueses deslocarem-se até à redação da BBC, para se inteirarem das novidades (sem escrutínio da PIDE) e pedirem esperançosas opiniões acerca do fim da nuvem negra que assolava Portugal. Por sua vez, os próprios militares que começavam um movimento de reivindicação organizada na Guiné deslocavam-se até Londres, a duras penas, para darem a conhecerem o seu plano de ação diretamente aos jornalistas. Os mais de dois mil quilómetros que separam as duas nações não são suficientes para ilustrar o fosso político-cultural entre Inglaterra e Portugal. A mão Salazarista fazia dos Portugueses os seus fantoches para protagonizar a sua fantasiosa trama ultranacionalista e imperial, enquanto o seu público – toda a Europa de camarote –, apesar disso ter consciência, se consumia no sentimento de impotência de quem sabe que o ato só poderia terminar quando alguém forçar as cortinas a fecharem. Portugal Salazarista: a Prisão da Própria Casa António aponta como o dever de informação facilmente se reduzia a instrumento de propaganda. Dentro das redações, os editores incentivavam os seus jornalistas a fazerem um exercício de autocensura, de modo a agilizar o processo de censura prévia, e assim evitando atrasos e perdas de lucro. Já na emissão televisiva, tanto a Emissora Nacional – como, mais tarde, a RTP – estavam sujeitas a um exame prévio pela PIDE de tal forma acentuado, que a prática jornalística de então dificilmente seria assim considerada atualmente. Quanto à Rádio, as mesmas entidades televisivas exerciam o monopólio das transmissões. Sendo estas criadas e controladas pelo Estado, facilmente hoje se entende que o seu trabalho se comprometia simultaneamente à tarefa de preservação da imagem do regime como à sua própria exaltação. Aquilo que é atualmente tomado por característico da atividade jornalística era, na altura, um verdadeiro atentado à Sociedade. A máquina de propaganda era de tal forma funcional, que foi capaz de imprimir a ilusão de que no Estado Novo Portugal era um país pacífico. António ilustra esta ideia com remissão para a curiosa “inexistência” de um conjunto de fenómenos que contrariassem essa ideia. “Por exemplo, ninguém se suicidava: era proibido as pessoas suicidarem-se; se se suicidavam, não se podia dizer – dizia-se que tinha morrido por outras causas. O mesmo com divórcios, isso não se podia noticiar sobretudo sobre pessoas públicas (…) Também era completamente proibido falar de criminalidade. Portanto, no país não haviam crimes. Isto tudo para dar a ideia que havia uma atmosfera de harmonia universal entre as pessoas.” Também o jornalista relembra outras matérias totalmente censuradas e, portanto, escondidas dos portugueses. Desde a informação recebida – por exemplo, acerca dos países Socialistas ou da luta dos estudantes americanos contra a Guerra do Vietname –, à forma como esta era transmitida – as emissões em direto eram inconcebíveis, face a impossibilidade de controlo prévio do discurso – e a “linguagem engravatada” de tom formal para reforçar a dinâmica hierárquica e autoritária que sustentava o regime, inconscientemente. Face ao exposto, a propaganda fazia-se sentir nos mais diversificados aspetos da vida, singrando nos mais pequenos detalhes. O regime Salazarista beneficiava do reforço positivo de apoio ao regime, encurralando os Portugueses ao ponto de estes sentirem não ter outra escolha senão com ele compactuar. Lentamente, pela sombra, os sussurros da censura foram-se tornando cada vez mais fortes até os seus gritos sufocarem. Censura que Dura e Perdura António relembra o efeito que os anos de repressão tiveram para a Sociedade, ainda hoje lidando com os seus resquícios. Porém, confessa que coexistiam realidades. Por um lado, havia jornalistas que se esforçavam para combater o regime e tentar divulgar ações contra o mesmo. Por outro, havia profissionais da área que se conformavam, interiorizando de tal modo este comportamento que dificilmente dele se desprenderam, mesmo após o 25 de abril. E era precisamente destes últimos que o regime beneficiava, pois efetivavam o último passo: a censura de costumes. A verdadeira prova de que, como tudo, a censura prévia primeiro estranha-se e depois entranha-se. Naturalmente, as consequências daqui resultantes constituíram uma verdadeira ameaça à essência do Jornalismo: a partir do momento em que a agenda governamental era a  prioridade, das entidades diretamente controladas pelo regime, os jornalistas, receosos, optavam por se reprimir a si mesmos e tomar a palavra estadual como dogma único. Assim, o regime viu o seu sucesso consolidar-se: a máquina da propaganda salazarista finalmente funcionara sozinha.  “Não é demais acentuar o papel totalitário da censura: todos os aspetos da vida passavam pelo crivo da censura…por aquela máquina de controlar a vida das pessoas. E, naturalmente, muitos jornalistas se adaptaram a isso, porque começaram a trabalhar nesse regime e não sabiam o que era fazer jornalismo em liberdade.” Mesmo após o 25 de abril sentia-se a sua herança. Como António afirma, foi imperativo fazer a desconstrução desse “filtro” que pairava sobre o consciente coletivo e individual, num processo que apelida de “democratização da linguagem”, como o próprio explica – “a linguagem corresponde a uma estrutura mental que traduz como cada pessoa se relaciona com outras e encara a vida”. Logo, fazer esse exercício, além de essencial para devolver a vitalidade à Comunicação Social portuguesa, era também crucial para os portugueses poderem (realmente) viver sob a Liberdade que reivindicaram. Censurar a Censura Desde o seu emprego descarado à silenciosa herança que perdura, como foi e pode ser a censura combatida? Na Rádio, na época operavam a Emissora Nacional (do Estado), o Rádio Clube Português (propriedade de família simpatizante) e a Rádio Renascença (da Igreja). Inicialmente, nenhuma delas contava com qualquer secção de noticiário – somente a Emissora Nacional divulgava os comunicados da ANI (Agência Nacional de Informação). Mais tarde, no Rádio Clube Português uma série de jornalistas começou a divulgar informação oficiosa, além da oficial. Foi a partir da rádio religiosa que se conseguiu ter acesso a informação menos perscrutada, como o próprio o explica: “a Igreja tinha um corpo mais diversificado, sendo-lhe dado maior margem. Por isso as tendências progressistas surgidas na Igreja Católica foram transmitidas pelos seus jornalistas, tendo grande importância na luta contra a ditadura”. A Rádio era igualmente importante para a transmissão de informações, emitida a partir do estrangeiro e ouvida pelos Portugueses por onda curta, que, apesar de ter pior qualidade, conseguia um maior alcance. Porém, este exercício exigia sigilo aos ouvintes, uma vez que arriscavam atentar o regime. A Televisão contava com a Emissora Nacional e posteriormente a RTP. De acordo com António, era sabido que Salazar era grande opositor à criação da RTP por temer o poder disruptivo do regime que a difusão da informação pudesse induzir. A par da sua principal função de divulgar o programa do Governo, reforçando a identidade do regime, a RTP apresentava também programação cultural, expandido e fomentando o conhecimento na Sociedade. Este último, aliado à antiga prática de assistir Televisão em comunidade, foi abrindo caminho para uma consciência reivindicativa da liberdade há muito tirada. Jornalismo após Abril Após uma longa noite escura, Portugal acordou com o sol a brilhar a 25 de abril de 1974. Contudo, a liberdade recentemente conquistada trouxe os seus próprios desafios, e não tardou até que o caos se instalasse. António recorda como isso se refletiu no próprio Jornalismo. O 25 de abril marca o seu regresso a Portugal – já não podendo sofrer as repercussões do seu autoexílio, o seu país mostrava-se (finalmente) próspero ao desenvolvimento da sua profissão. Assim, assumiu o cargo de chefe de redação do Telejornal na RTP, onde se deparou com os desafios característicos da transição da emissora num instrumento de Comunicação Social livre, longe da sombra do seu passado enquanto aparelho de poder do Estado.  Do lado do público, as acusações da radicalização da RTP eram constantes, porém António discorda das mesmas, explicando que esta se limitava a transmitir os acontecimentos correntes. Logo, se estes tinham uma dimensão altamente política, então cabia ao próprio órgão (no seu compromisso com a informação) dá-la a conhecer – “Há a opinião de que antes do 25 de novembro a RTP era muito revolucionária. Mas as coisas não eram assim: a RTP dedicava-se ao acompanhamento daquilo que se estava a passar no país e, se este estava em ebulição (o que é normal após ter vivido cinquenta anos de uma ditadura), então isso era mostrado”. É precisamente a curiosa dicotomia entre a realidade e a perspetiva do público que talvez evidencie os desafios enfrentados pela RTP que, tal como os Portugueses, sofria com a censura internalizada e inconsciente. Assim, o seu processo de “democratização” e dessacralização mostra como, apesar de a Liberdade ter sido finalmente conquistada, os seus efeitos liberatórios estavam ainda por ser inteiramente sentidos. O surgimento das televisões privadas foi um importante impulsionador deste processo, até no seio da RTP. Vintes anos depois do 25 de abril nasceu a SIC e, consigo, trouxe uma “inovadora”  abordagem: “Em 1992, quando a SIC apareceu, a linguagem da RTP ainda era uma linguagem de “Sua Excelência” e, de facto, foi a SIC que a dessacralizou e, enfim, democratizou sob vários aspetos a divulgação da informação, priorizando o exercício de dar voz às pessoas. Por exemplo, a RTP não fazia diretos porque era impensável fazer uma transmissão em que não era possível analisar o que as pessoas diziam de antemão, era tudo gravado de antemão. Nisto, foi a SIC que criou o programa Praça Pública , onde os jornalistas iam até uma certa localidade onde montavam um painel com os seus habitantes para discutirem um certo problema”. Atuais Perigos António não esconde a sua preocupação com o panorama jornalístico atual. Reconhecendo a saturação dos órgãos de Comunicação Social – que, como afirma, já não são meras emissoras, mas sim complexos grupos de media , transversais a todas as dimensões da área –, reforça os perigosos efeitos que daí surgem. “O espaço para o jornalismo nos media  é cada vez mais reduzido. Hoje, enfrentamos problemas diferentes de antes do 25 de abril, que nem sequer são comparáveis. Antes, estávamos sujeitos à censura; agora, há os perigos dos poderes de influência política, financeira e económica na Comunicação Social…, mas não é como a censura prévia, pois contra isto pode-se lutar!” Nesta linha, alerta para a progressiva desvitalização da carreira jornalística: estes poderosos conglomerados de media  estão em constante competição, o que se revela contraproducente para uma prática jornalística de qualidade. Em vez dessa, é-nos apresentado o infotainment  – uma mistura entre informação e entretenimento que, numa tentativa de captar o máximo de espectadores, sacrifica o brio do trabalho desenvolvido nas redações e subvaloriza os jornalistas.  Simultaneamente, a aparente facilidade de acesso à informação, proporcionada pelas redes sociais e pela sua tecnologia apologista da instantaneidade, leva o público a crer que o trabalho jornalístico é dispensável, reduzindo-o a um mero selo de credibilidade. A partir daqui surgem riscos, nomeadamente a falta de escrutínio a que estão sujeitas as notícias divulgadas nas redes sociais, o que facilmente gera situações de desinformação e, consequentemente, uma progressiva perda da capacidade de exercício crítico entre as massas. E Agora? Face ao panorama desanimador, António exorta todos os jornalistas à ação, relembrando que os resultados positivos dependem diretamente deles. “Não houve nenhuma entidade externa que tenha produzido esta realidade a que chamamos Jornalismo, portanto têm de ser os jornalistas a defender isto também. Têm de lutar por isso. Isso passa por mostrar à Sociedade como é fundamental a tarefa desta profissão e, portanto, a sua proteção também. Honestamente, os poderes democraticamente eleitos têm obrigação disto ter consciência, mas não a tendo, se não forem os jornalistas, a tendência é a substituição destes por outros formatos menos credíveis e, naturalmente, mais arriscados para o desenvolvimento da Sociedade”. No fundo, fazer Abril é lutar. Lutar contra a censura. Lutar contra a manipulação. Lutar contra os dogmas. Lutar contra quem nos queira tirar o nosso lugar . Os jornalistas contribuíram de forma decisiva, estando desde sempre na vanguarda da reivindicação da Liberdade. A ameaça do seu papel é portanto um presságio de uma Sociedade intolerante e repressiva, que prefere a comodidade da ilusão aos desafios da evolução. Será a nossa geração a catalisadora desse cenário ou, alternativamente, a força contra o mesmo combate? A escolha é nossa. Fotografia: Google

  • Entrevista à Lista B, candidata ao Conselho da Faculdade

    No passado dia 26 de março, a Coordenação de Entrevistas do Jur.nal reuniu-se com os representantes efetivos da Lista B, candidata ao Conselho da Faculdade, em busca de conhecer melhor o seu programa. O Jur.nal relembra que a eleição terá lugar dia 7 de abril. Francisco de Jesus:  Em nome da Lista B queremos agradecer esta iniciativa do Jur.nal. Bem sabemos que as eleições para o Conselho da Faculdade passam um bocadinho ao lado dos estudantes e é sempre proveitoso termos iniciativas que mostram, também, o que é este órgão, o que ele faz e a importância que tem na nossa comunidade académica; portanto obrigado pela vossa disponibilidade. SN: De uma forma breve, descrevam qual é a função do Conselho da Faculdade e qual a importância de os alunos nele participarem. Francisco de Jesus: O Conselho da Faculdade tem uma importância quase global e, basicamente, tudo o que é a nossa faculdade passa pelo Conselho da Faculdade de uma forma muito mais macro e depois é executada por outros órgãos da faculdade de uma forma muito mais micro. Por exemplo, se o Conselho da Faculdade entende que é uma prioridade da faculdade o anonimato nos exames, então delibera nesse sentido e emite uma orientação de que os exames têm que ser anónimos. Depois, a partir daí, o órgão competente para fazer medidas pedagógicas que é, neste caso, o Conselho Pedagógico, faz a execução deste tipo de medidas, ou seja, como é que vamos garantir o anonimato dos exames. Portanto, tudo o que é a faculdade e tudo o que são bandeiras e estratégias da faculdade é feito pelo Conselho da Faculdade. Não obstante, esta função quase geral depois tem competências específicas, nomeadamente aprovar o orçamento da faculdade, aprovar o relatório de gestão da faculdade, aprovar o relatório de atividades da faculdade, eleger e destituir o diretor (portanto tem esta função de supervisão e controlo político do que é a organização e a gestão da faculdade e da direção em si) e depois aprova e altera os estatutos da faculdade. Portanto tem esta competência quase legislativa-constitucional se quisermos numa analogia. São estas as competências que tem.  TS: E que benefício substancial é que tem esta participação? Mariana Resende: Como o Francisco já explicou, de facto o Conselho da Faculdade tem este papel muito essencial em toda a definição das estratégias que vão ser postas em prática na nossa faculdade. E, portanto, nós enquanto estudantes somos os principais afetados por estas estratégias. Por isso, nós garantirmos que existe representação estudantil no Conselho da Faculdade, é garantir que as pessoas que são, efetivamente, impactadas pelas medidas estratégicas possam ter um ponto a dizer, possam ter uma contribuição e uma voz naquilo que os vai afetar diretamente.  Portanto, é no fundo garantir que as inquietações, a voz dos estudantes, é ouvida naquele que é o maior órgão de gestão estratégica que nós temos na faculdade. SN: Que problemas identificam no funcionamento deste órgão e como é que a resolução dos mesmos pode beneficiar da vossa participação? Francisco de Jesus:  É uma pergunta bastante complexa porque desde logo nós não temos informação desde 2024 sobre propriamente o que é que o órgão tem deliberado. Não sabemos sequer se tem deliberado porque, e também é interessante mencionar isto também para a comunidade académica, porque  algures em 2025, se não estou em erro, a ex-presidente do Conselho da Faculdade, doutora Catarina Albuquerque, faleceu e, portanto, eu presumo que isso tenha suspendido as deliberações do Conselho da Faculdade. Mas, não obstante, sei que existem atas que ainda não saíram, portanto, nós só temos perceção do que é que o Conselho da Faculdade tem feito desde 2024, que é quando as sínteses de atas estão disponibilizadas. Um problema que os nossos últimos representantes dos estudantes identificaram foi efetivamente a pouca representação estudantil, e também numa lógica informativa, estas são as primeiras eleições do Conselho da Faculdade que têm quatro pessoas (dois efetivos e dois suplentes em cada lista) porque era só um representante do estudante, portanto um efetivo e um suplente. Portanto é uma pergunta muito difícil de responder com as informações que temos. Não vos conseguindo responder sobre os problemas que nós conseguimos identificar no Conselho da Faculdade em si, obviamente que há problemas na faculdade que conseguimos identificar e acho que também fomos capazes de traduzir isso nas nossas propostas. Acho que os representantes dos estudantes no Conselho da Faculdade não podem estar separados ou não podem estar quase que isentos de responsabilidade perante a comunidade académica, portanto temos de aproximar os representantes da comunidade académica e efetivamente fazer com que este cargo de representante dos estudantes no Conselho da Faculdade exija auscultação, exija conversa com os estudantes Portanto, acho que possa ter sido um problema e que deva ser melhorado. Nesse sentido também nos fez sentido, ao construir o plano eleitoral, propor as reuniões trimestrais alargadas, no sentido em que de três em três meses, no mínimo, temos conversas com toda a gente, quase numa lógica de senado, de representantes da associação de estudantes, representantes dos estudantes no conselho pedagógico, os representantes de turma, os representantes dos mestrados… portanto num sentido de garantir que as suas preocupações chegam até nós, porque só chegando até nós é que nós podemos efetivamente dar voz às preocupações dos estudantes e não só às nossas preocupações enquanto indivíduos. Depois, lá está, acho que há uma pouca visibilidade do que são estes documentos que eu estava a falar que eram relevantes do Conselho da Faculdade. Há pouca importância e há pouca visibilidade nestes documentos, portanto trazê-los à Assembleia Geral acho que é algo fundamental. Obviamente que a Assembleia Geral da Nova Law SU não vai deliberar sobre o orçamento da Faculdade, não tem essa competência, mas quem vai às assembleias gerais deve poder estar informado: “Senhores, este foi o orçamento, estes foram os problemas que nós identificámos, este foi o nosso sentido de voto.” Isso, obviamente, quando o dever de sigilo nos permitir divulgar estes documentos. Depois, com a faculdade identificamos problemas, claramente, que depois vão para o âmbito pedagógico. Por exemplo, a questão da revisão de prova, que é um problema que as listas à Associação de Estudantes têm vindo a discutir, e que os próprios estudantes discutem entre si, portanto, reconhecem como um problema, e nós estamos a tentar puxar para o Conselho da Faculdade esta discussão, tendo em conta a questão do anonimato. Ou, por exemplo, a questão dos examinadores, que foi algo que foi largamente discutido na última época de exames, e que nós vemos como um problema de estratégia, portanto um problema estrutural, e que deve ser discutido no Conselho da Faculdade, para depois os órgãos competentes executarem estas diretrizes claras.  TS: Dando continuidade a esta pergunta, que aspetos positivos é que destacam e que gostariam de dar continuidade ou fomentar e de que maneira é que os planeariam fazer. Mariana Resende:  Em primeiro lugar, uma coisa que achamos que faz sentido ser mantida e continuar é o e-mail dos representantes dos estudantes. É importante que haja um canal direto de comunicação e de diálogo entre os representantes dos estudantes no Conselho da Faculdade e a nossa comunidade estudantil. É importante que os estudantes se sintam ouvidos e sintam que têm um espaço aberto e seguro para demonstrar as suas preocupações de forma direta àqueles que os representam. Um outro aspeto que achamos que faz sentido manter, considerando algumas alterações é relativamente aos relatórios que são divulgados, porque nós temos uma transparência a nível orçamental e sabemos que as coisas nos relatórios estão bem discriminadas e não há propriamente dúvidas no sentido de onde é que vêm as receitas ou de onde é que estão a sair as despesas. No entanto, sabemos que à data da elaboração das propostas, neste mês de março, o relatório de gestão de 2025 ainda não foi publicado e, por norma, é publicado em fevereiro. Portanto sentimos que estes relatórios devem, efetivamente, continuar, mas é importante que a sua divulgação se mantenha recorrente. Estamos já no final de março a passar para abril e ainda não temos este relatório de gestão, e teria sido algo importante para nós podermos estar ainda mais a par daquilo que se passa no Conselho.  Depois, relativamente aos relatórios de gestão, em 2023 este relatório estava condensado com o relatório de atividades, portanto tínhamos 188 páginas de relatório e em 2024 passamos a ter apenas 25 páginas, porque em 2024 houve apenas a publicação do relatório de gestão e não houve a publicação do relatório de atividades. Portanto, achamos que esta publicação deve ser mantida e, também, perceber o porquê de não termos tido um relatório de atividades a ser publicado, porque é importante que os estudantes e toda a comunidade estejam a par das atividades que foram efetivamente desenvolvidas.  SN: De que forma pretendem promover a relação entre a comunidade estudantil e o Conselho? Francisco de Jesus: Ora, pretendemos aproximar o cargo do representante dos estudantes no Conselho da Faculdade à própria comunidade estudantil. As ideias que surgiram nas nossas propostas, por exemplo, foi esta questão das reuniões tripartidas. Obviamente que estamos para descobrir e, se formos eleitos, temos todo o gosto em fazê-las e descobrir, se isto efetivamente é representação suficiente. Se não for, nós somos indivíduos e vamos comunicando com os estudantes no nosso dia a dia, e recebemos as suas preocupações. Mas não nos opomos, por exemplo, a reuniões quase como uma reunião aberta, em que toda a gente que quiser pode ir lá expressar as suas preocupações, discutir coisas da competência do Conselho da Faculdade e nós queremos ouvir as vossas reclamações. Em 4 anos que eu vivi nesta faculdade, sei que toda a gente tem reclamações e ainda bem que as têm porque significa que querem uma faculdade melhor e querem melhorar o ambiente onde vivem todos os dias e, portanto, passa por aproximarmo-nos dos estudantes e ouvirmos as suas preocupações, e depois ponderarmos como é que as vamos apresentar ao Conselho da Faculdade e como é que as vamos resolver.  Também há a questão que a Mariana mencionou há pouca da manutenção do email, que foi criado no mandato passado e que sempre esteve disponível aos estudantes, portanto o nosso objetivo é mantê-lo e fomentar a participação e interesse dos estudantes na visão estratégica da faculdade. Acho que não há melhor forma de fomentar a relação com a comunidade académica. TS: Que propostas apresentam que vos singularizam? Por que sentem que a Lista que apresentam é a mais acertada para representar os estudantes? Mariana Resende: Esta pergunta dá para desenvolver bastante. Em primeiro lugar, a gestão de recursos financeiros da nossa faculdade, nomeadamente a nível de receitas. Se formos ver o plano de atividades e orçamento de 2025/2026 percebemos que houve uma estagnação daquilo que é o orçamento atribuído à nossa faculdade, e isto já tinha sido uma preocupação mostrada pela faculdade no seio da Universidade Nova relativamente a estas contribuições financeiras que estagnaram. Nós achamos que a forma de contrariar esta estagnação não pode ser nunca através dos estudantes. Não pode ser através das propinas que nós damos a volta a nível de estagnação daquilo que é o orçamento da faculdade.  Deve ser, de facto, feita pressão a nível da Universidade Nova, no sentido em que precisamos de mais orçamento do que aquilo que nos está a ser dado, e não podemos sobrecarregar os nossos estudantes, precisamos que seja feito um orçamento melhor a nível da Universidade.  Francisco de Jesus:  Gostava de acrescentar: concordo plenamente que a nossa candidatura se destaca por termos tido este cuidado extra de analisar documentos. orçamentos e posições orçamentais; e estas medidas que nós temos a nível orçamental não são medidas dos estudantes. Portanto, se nós analisarmos o relatório de contas de 2026 da faculdade podemos ler expressões como “subfinanciamento”, “a faculdade teve de adotar uma política de autogestão porque não pode confiar no financiamento que lhe dá”, “está subfinanciada”, e a própria faculdade no seu orçamento refere que precisa de reivindicar no seio da Universidade Nova de Lisboa uma maior dotação orçamental porque já não é compatível com a realidade da nossa faculdade. Se nós formos ver, temos cerca de 2,1 milhões de euros de dotação orçamental do Estado, ou seja, receita direta do Estado, e temos cerca de 2,9 milhões de propinas. Mas mesmo que não falemos de propina, temos apenas cerca de 2,1 milhões de 6,2 milhões (aproximadamente) de orçamento do Estado, portanto estamos a falar de mais ou menos 33% do orçamento da faculdade é atribuído pela Universidade Nova de Lisboa, e isto é claramente insuficiente e a própria faculdade sabe e reconhece isto. Só para deixar mesmo claro este ponto, isto não é uma reivindicação apenas dos estudantes, é uma reivindicação da faculdade e da comunidade académica como um coletivo (faculdade, docentes, não docentes). A verdade é que este problema do orçamento afeta-nos a nós, obviamente, com o pagamento das propinas, mas também afeta os docentes que estão sobrecarregados e precisavam de contratar mais colegas e não podem; afeta a faculdade que se calhar gostava de investir em infraestrutura e não pode; afeta tudo o que é gastos, e a própria faculdade no seu orçamento diz que teve de fazer uma contenção no que foi despesas de pessoal, se não estou em erro, porque pura e simplesmente não temos orçamento para isso. Quero deixar claro que é uma reivindicação da Lista, mas não é uma reivindicação completamente inovadora, é uma reivindicação da própria faculdade. Na nossa opinião é um ponto que joga a nosso favor e nos singulariza, que é que nós queremos também fazer passar à faculdade que os estudantes estão com ela no que toca a esta reivindicação do orçamento. Mariana Resende:  Outro aspeto que sinto que também nos singulariza é a nossa vontade de ligar os estudantes à prática, numa perspetiva de juristas do futuro.  Nós queremos que os estudantes sintam que na faculdade têm uma oportunidade de enriquecer ainda mais o seu percurso académico.  Portanto, para aproximar de facto os estudantes de uma prática jurídica de excelência temos alguns exemplos, nomeadamente a elaboração de protocolos para o estabelecimento de clínicas legais. Para quem possa não saber, as clínicas legais são programas académicos que permitem aos alunos realizar trabalho jurídico real sob supervisão docente, e isto promove claramente uma aprendizagem prática dos estudantes e seria muito benéfico.  Outro exemplo é a maior colaboração com sociedades parceiras, por exemplo com a possibilidade de fazer estágios curriculares nestas entidades. Isto permite uma valorização curricular e profissional dos alunos que seria extremamente benéfica. Também mesmo a criação de programas de valorização do estudante e complementares ao plano curricular.  Isto seria através de, nomeadamente, desenvolvimento de competências transversais e extracurriculares, as chamadas “soft skills”. SN: Quais são as vossas prioridades mais imediatas após a eleição? Francisco de Jesus: A prioridade clara e imediata é termos a primeira das nossas reuniões alargadas, também para nos porém a par do que está a acontecer nos seus órgãos, isto obviamente dentro dos limites que o dever de sigilo os permite.  Depois, será nitidamente auscultar a comunidade académica. Portanto tudo o que são propostas que nós temos que tenham a ver com comunicação com os estudantes, vão ser colocadas em posto se formos eleitos a partir do dia um. Depois, tal como respondi na primeira pergunta, as nossas prioridades vão depender de quem encontrarmos, porque a informação é limitada e sabemos disso. Mas lá está, as nossas prioridades vão ser as reivindicações que existem desde que eu sou caloiro ou desde que a Mariana é caloira, desde sempre. Por exemplo, a questão da revisão de prova, toda a gente fala disto desde que eu cheguei à faculdade e que pede para que isto seja possível, isso tem de ser uma prioridade. Na questão dos pedidos de prova e do seu pagamento tem de ser prioridade procurarmos formas para que os estudantes consigam ver os seus exames. Lá está, isto vai depender do Conselho da Faculdade que encontrarmos. Também, e sendo honesto, não vai ser possível na primeira reunião do Conselho da Faculdade chegarmos e pedirmos para discutir isto tudo, quase de certeza. Até porque, e dando um contexto informativo, na primeira reunião do Conselho da Faculdade são eleitos o Presidente, Vice-Presidente e o Secretário do Conselho da Faculdade dentro dos eleitos, e são nomeadas as três pessoas que são chamadas nos estatutos e no regimento como as Individualidades de Reconhecido Mérito, portanto são nomeadas pelo Conselho da Faculdade. Obviamente que vamos ter cuidado e o nosso objetivo vai ser tentar discutir logo na primeira reunião este tipo de coisas. Estamos sujeitos, obviamente, às imposições estatutárias que têm de acontecer na primeira reunião. Portanto não conseguimos garantir com certezas de que medidas e que tópicos é que podemos falar numa primeira reunião. Agora, prioridade imediata é, sem dúvida, auscultar a comunidade académica.  TS: Em que consistiria mais concretamente o que vocês falam de “Programas de valorização do estudante”?  Francisco de Jesus: Esta pergunta relaciona-se com algo que a Mariana já densificou um bocadinho, mas para deixar claro: o Conselho da Faculdade não vai instituir, e não é isso que nós propomos, clínicas legais numa reunião do Conselho da Faculdade. Isto porque o Conselho da Faculdade analisa a visão estratégica da faculdade e as questões de maneira muito macro. Esta medida, e isso que é preciso perceber, traduz-se em a faculdade ter de ter a prioridade de aproximar o jurista ao futuro profissional e de preparar os futuros licenciados para os desafios que vão receber no futuro. Esta é uma possível deliberação do Conselho da Faculdade, com esta densificação. Depois, cabe não ao Conselho da Faculdade, mas no caso da instituição de parcerias cabe à Direção; no caso de instituição de clínicas legais dentro da faculdade e dentro do que é a pedagogia cabe, por exemplo, ao Conselho Científico, que aprova unidades curriculares, cabe ao Conselho Pedagógico, que aprova tudo o que é pedagogia. Portanto, nós temos de ter a humildade, ao fazer esta candidatura, de saber que nós não podemos propor nem decidir tudo. As nossas propostas estão densificadas para mostrar, também, não só à faculdade mas como aos próprios estudantes que foram pensadas com cuidado, ou seja, não podemos simplesmente propor valorizar o estudante e depois não dizermos porquê, mas também é importante esclarecer que não é competência do Conselho da Faculdade decidir porquê, a competência é emanar esta orientação; e por outro lado, mostrar à faculdade, e esta é que é parte relevante, que é possível. Vou dar outro exemplo que se relaciona com isto: a questão da revisão de prova. Não é o Conselho da Faculdade que vai dizer, por exemplo, como nós propomos, que o estudante vai falar diretamente com os serviços académicos, e como não passa pelo docente garantimos o anonimato. Não é essa a competência do Conselho da Faculdade. A competência do Conselho da Faculdade é dizer que o anonimato, que foi uma vitória excelente da nossa faculdade, tem que ser compatível com o direito de ter uma avaliação justa e clara. Esta é a orientação. A partir daí, por exemplo, o Conselho Pedagógico decide e toma decisões neste sentido.  Tendo em conta que o grande argumento sempre foi não ser possível por causa do anonimato, o que nós queremos mostrar desde já é que podemos emanar esta primeira orientação de que tem de ser compatível, porque temos uma sugestão de como é que isto é possível. Se não for como nós sugerimos e for de outra forma, tudo bem, o nosso foco é que seja possível fazer-se, e que deva fazer-se. Isto é tal como a valorização dos estudantes e a medida dos juristas do futuro, que é termos de aproximar o estudante da sociedade civil das sociedades profissionais no que toca à advocacia, magistratura; temos que aproximar o estudante das profissões com que ele se vai encontrar na vida profissional porque a própria conceção do mercado de trabalho atual o exige e é necessário que assim aconteça.  Não podemos apresentar isto sem dizer que concretamente como é possível fazer as clínicas legais, a possibilidade de fazer estágios curriculares nas sociedades de advogados para a disciplina de Trabalho e Estudo Curricular, por exemplo. Mas isto são exemplos que não podem ser vinculativos do Conselho da Faculdade, porque isso tira a autonomia do órgão próprio para isso. É neste sentido e queria deixar isto claro, é através disto que nós propomos esta medida dos juristas do futuro. SN: Na secção de “Gestão de Recursos – Receitas”, sugerem como possível solução para maior investimento na faculdade, para que esta não fique dependente dos próprios Estudantes, que se façam parcerias com outras entidades. Não vos preocupa que isso possa, de algum modo, condicionar a experiência dos Estudantes e sujeitá-los a um ambiente académico comercializado? De que forma julgam ser possível manter a integridade da faculdade através dessas parcerias? Francisco de Jesus: Nitidamente isso é uma preocupação. Aliás, o meu percurso nesta faculdade foi em larga escala marcado com essa preocupação, marcado com críticas à forma como se faz essa comercialização, que eu acho que é absolutamente revelante. Não obstante, há duas coisas que têm de ser tidas me conta aqui, que são: nitidamente, temos um problema, que é falta de dotação orçamental. Pura e simplesmente, não há dinheiro. É insuficiente para a faculdade o orçamento com que se gere. Depois temos de ter uma solução. A solução que todos os estudantes adoravam ter e devem reivindicar é maior dotação estatal para as universidades públicas. Mas a curto prazo, e nas nossas competências do Conselho da Faculdade, o que é que nós podemos fazer? Nesse sentido, podemos efetivamente estabelecer estas parcerias. Obviamente que estas parcerias têm de ter o cuidado de serem feitas de forma isenta ou imparcial, e têm de ter o cuidado de impedir esta comercialização e a “venda” do estudante às entidades que estão a financiá-la.  O estabelecimento destas parcerias não é só benéfico para o estudante e para a faculdade a nível orçamental. É benéfico porque lá está, estas parcerias implicariam que estas entidades investissem na faculdade, e nós precisamos desse investimento, querendo ou não; mas é benéfico também para o estudante que se aproxima destas entidades. Esta medida está muito ligada com a medida dos juristas do futuro na medida em que aproximar as entidades da faculdade também é aproximar a faculdade e os estudantes destas entidades. Portanto, há aqui uma relação bilateral. Obviamente que não pode ser imposto ao estudante ser obrigado a ir para a sociedade X porque a sociedade X financiou a faculdade. Mas isso não acontece, e a faculdade já estabelece estas parcerias, e eu acho que isso também é relevante ser dito porque, por exemplo, temos dois centros de investigação na faculdade que são orçamentalmente e a nível de iniciativas e parcerias apoiados por entidades parceiras. Por exemplo, o Nova Business Human Rights and the Environment é apoiado pela PLMJ, isto está em orçamento, e o Nova Green Lab que é apoiado pela Abreu Advogados, portanto isto existe. Por outro lado, no âmbito curricular, na disciplina de Prática Jurídica Individual são os estudantes de último ano da Licenciatura que são separados em quatro turmas e cada uma é entregue a uma sociedade de advogados, portanto isto existe. Estamos a propor que isto se expanda porque funciona, e não criou até agora problemas de imparcialidade e de comercialização do estudante.  Nitidamente que isto é uma solução de último recurso, quase um “Hail Mary”, pela falta de orçamento que se tem, e é uma solução que eu gostava de dizer que é de curto prazo. Mas nós temos de ter a humildade de saber que há coisas que nós não controlamos, e que enquanto estudantes podemos ter opinião sobre isto, enquanto candidatos a representantes dos estudantes no Conselho da Faculdade temos de nos cingir ao que nós podemos mudar e ao que podemos fazer. Obviamente que isto é uma preocupação, obviamente que têm o nosso compromisso enquanto Lista de que há linhas vermelhas que não se podem passar. Mas, aliás, acredito que a faculdade sabe que linhas vermelhas não passar.  Obviamente que tenho de ter uma perspetiva otimista e tenho de acreditar nos colegas, docentes, colegas estudantes, colegas externos, se nós formos eleitos serão meus colegas no Conselho da Faculdade, confiando que eles vão ter essa preocupação. Se não, obviamente que se não interessa ao estudante, não nos interessará a nós, com certeza, como representantes dos estudantes no Conselho da Faculdade. TS: Gostaria de terminar a entrevista a agradecer em nome do Jur.nal, desejamos um belíssimo período eleitoral. Mariana Resende: Obrigada mais uma vez ao Jur.nal pela iniciativa. Reforçar que as eleições serão no dia 7 de abril, portanto mobilizem-se, façam-se ouvir, venham votar, vejam as propostas, tomem uma decisão ponderada. Qualquer dúvida podem sempre falar connosco. De facto nós queremos que a voz dos estudantes seja efetivamente ouvida, nós trabalhamos para isso, nós investigamos e sabemos aquilo que estamos a defender e a propor. Investigamos os números, quisemos ter mais mas houve coisas que ainda não foram publicas e, portanto, fizemos aquilo que estava ao nosso alcance com base nas informações que foram divulgadas. Fizemo-lo a pensar em vocês, fazemo-lo a pensar em vocês, e espero que possam confiar em nós e que no dia 7 escolham. Francisco de Jesus:  Acrescentando ao comentário sobre a eleição, não fazemos um apelo ao voto em nós, fazemos um apelo ao voto geral, e eu comecei por dizer isto e por isso acabo por dizer isto: esta eleição às vezes é um bocado invisível no contexto da comunidade académica. Portanto é mesmo importante que haja participação nestas eleições, Se quiserem até dia 29 de março podem requerer o voto em mobilidade. Isto está disponível no site da própria faculdade, nos slides das fotos, uma delas diz “Representantes dos Estudantes no Conselho da Faculdade”, portanto isso está disponível.  Dar uma última nota de agradecimento, não só ao Jur.nal, mas à Comissão Eleitoral, que tem sido excelente, e também à Lista A, seria muito injusto se não fizéssemos este agradecimento, a cooperação entre as duas Listas está a ser excelente e está a correr mesmo muito bem. Portanto fazer também este agradecimento, acho que é sempre muito mais proveitoso para toda a comunidade académica ter eleições colaborativas. Obrigado!

  • Entrevista à Lista A, candidata ao Conselho da Faculdade

    No passado dia 28 de março, a Coordenação de Entrevistas do Jur.nal reuniu-se com os representantes efetivos da Lista A, candidata ao Conselho da Faculdade, em busca de conhecer melhor o seu programa. O Jur.nal relembra que a eleição terá lugar dia 7 de abril. SN: De uma forma breve, descrevam qual é a função do Conselho da Faculdade e qual a importância dos alunos nela participarem? Francisco Freire: O Conselho da Faculdade é o órgão administrativo superior, que de entre as suas competências encontra-se a aprovação do orçamento, do relatório de atividades, o plano de atividades, a eleição do diretor da faculdade, a alteração dos estatutos da faculdade... São, portanto, competências com bastante relevância mas ao mesmo tempo é um órgão que não gere os problemas do dia-a-dia da faculdade. É um órgão que se reúne com pouca periodicidade, uma vez por semestre, mas dentro das competências que referi, dá para perceber que é de extrema relevância estarem lá os alunos representados. Existem representantes dos alunos, do corpo docente, do corpo não docente e ainda existem também individualidades externas, mas a importância dos alunos, para mim é a defesa dos seus principais problemas e preocupações, mas sempre atendendo ao facto de que as reuniões não acontecem com muita periodicidade, não acontecem várias vezes ao longo do semestre, portanto aqui as prioridades dos alunos a meu ver devem ser bastante filtradas, e daí não termos muitas propostas no nosso plano, porque simplesmente não iremos ter tempo para nos debruçarmos sobre todos os problemas dos estudantes, portanto aqui é bastante importante termos os estudantes representandos, mas que sejam filtradas as prioridades por um lado, e depois também que se participe ativamente em todas as discussões que iram acontecer, por exemplo a nível de orçamento. Não havendo no nosso plano propostas relativamente a todos os assuntos que se discutem na faculdade, pois aí há sempre uma palavra que os alunos podem vir a ter, por exemplo quando for a eleição do novo diretor da faculdade, que vai acontecer este ano, vão ser apresentadas uma ou mais candidaturas e aí cabe aos estudantes analisar qual é que é o diretor que melhor vai defender os interesses dos estudantes. Há muitas outras competências, que apesar de não haver propostas plasmadas propriamente no nosso plano, a voz dos estudantes será sempre fundamental. SN: Que problemas identificam no funcionamento deste órgão e como é que a resolução dos mesmos pode beneficiar da vossa participação? Francisco Freire:  Dentro dos problemas que eu identifico no órgão diria que o mais importante é a sub-representação dos alunos. Esta vai ser a primeira vez que vamos ter dois representantes no órgão (antigamente tínhamos só um) e isso foi possível através da alteração do regimento, os antigos representantes conseguiram - o que acho que foi uma importante conquista. A forma que nós identificámos para resolver este problema é precisamente voltar a fazer uma revisão do regimento e conseguir aumentar mais uma vez o número de representantes, e acho que aqui é importante ter em conta que deve haver representantes de todos os cursos de estudo, como acontece nomeadamente com o Conselho Pedagógico, em que cada ciclo de estudos elege os seus representantes – mas de facto, para nós, não nos é razoável termos mais individualidades externas, que apesar de importantes no Conselho, dando uma perspetiva exterior de quem não está na faculdade, não nós é mesmo razoável que tenhamos menos estudantes do que as individualidades externas. Logo, diria que a sua representação é o principal problema. Quanto a outros problemas, nós também acreditamos que vamos encontrá-los se viermos a ser eleitos, portanto vamo-los identificando ao longo do caminho, mas eu acho que acima de tudo é importante promovermos o diálogo com todos os representantes no Conselho da Faculdade, dos professores, do corpo não docente, etc. Mesmo que seja difícil chegar a soluções – procurar equilíbrios – se isso for um problema é importante estarmos lá para apaziguar, para promover o diálogo. Acho que a cima de tudo é termos em conta que estamos lá para defender o interesse da faculdade, o interesse comum. Cada representante pode ter interesses diferentes, os estudantes podem ter interesses diferentes dos professores, mas no final do dia temos é que chegar a uma solução que promova o bem-estar de todos, da faculdade e de todos! SN: Por outra, que aspetos positivos destacam que gostariam de dar continuidade ou até mesmo fomentar? De que forma o planeiam fazer? Francisco Freire : Muito sinceramente, tanto quanto sei a maior conquista no anterior mandato dos representantes foi efetivamente a alteração regimental, portanto o aumento do número de representantes, que é um aspeto que nós gostaríamos de continuar como referi na resposta anterior. Depois há aspetos mais instrumentais, que são reiteradamente prometidos nas campanhas, por um lado refiro-me à representação dos estudantes através de uma via de contacto permanente, para que haja o contato direto entre o representante e os representados. Por outro lado, a transparência. São propostas bastante simples que costumam estar presentes em qualquer plano e qualquer órgão, que parecem mesmo vulgares, mas que quando implementadas trarão resultados bastantes positivos. SN: De que forma pretendem promover a relação entre a comunidade estudantil e o Conselho? Francisco Freire: Como eu disse, é importante haver uma via de contacto entre os representantes e os representados, portanto nós não desejamos que haja aqui um ato eleitoral e que a comunidade estudantil vá ouvir falar do Conselho daqui a dois anos. Isto é algo que claramente acontece, e portanto, também encaramos este desafio com este objetivo, de precisamente conjuntamente abrirmos esta reflexão sobre o que deve ser o Conselho da Faculdade, portanto é uma discussão que nos procura a nós refletir, mas também aos estudantes - também queremos saber o que os estudantes querem no Conselho da Faculdade. Para esse efeito gostaríamos de, ao longo do mandato, podermos reunir, por exemplo, com a Associação de Estudantes; a nível da avaliação também perceber o que é discutido no Conselho Pedagógico; portanto, ter uma visão lata sobre as várias áreas e domínios que se encontram em discussão na faculdade. O Conselho da Faculdade acaba por ser um órgão que reflete sobre a faculdade em geral, não problemas em concreto, mas para que se possa discutir os problemas em geral, é em primeiro lugar necessário naturalmente que se tenha uma perspetiva do que se está a fazer nas varias frentes, o que os demais órgãos estão a desenvolver, dentro da faculdade, dentro da direção, dentro Conselho Científico e depois também naturalmente ao nível dos estudantes, cujo principal meio de representação é a Associação de Estudantes. Rita Marques: Eu queria apenas acrescentar a este ponto que, para além de se criar um email institucional  dos representantes no Conselho da Faculdade, o nosso objetivo é recuperar uma medida que já houve que é divulgação das atas do que se vai passando no Conselho da Faculdade – dar esse nível de transparência e de abertura para depois de uma reunião poder dar a conhecer o que se passou e o que é que foi decidido. Se as atas não puderem ser comunicadas, sei que houve uma discussão na faculdade sobre a comunicação das atas, sugerimos então que, enquanto alunos representantes, possamos divulgar o que propusemos - como temos no Conselho Pedagógico, em que não houve abertura da parte do órgão para publicar as atas mas, quem representa os alunos diz “Eu sou representante dos alunos, apresentei tal, a discussão foi X”.  Propomo-nos a fazer isso para abrir esse diálogo com a comunidade. SN: Que propostas apresentam que sentem que vos singulariza? Porque sentem que vocês em específico e a lista que apresentam é a mais acertada para representar os estudantes? Rita Marques: Como o Francisco bem salientou, desde o início a intervenção deste órgão é pouco frequente, mas isso não quer dizer que não seja importante, o facto de intervir pouco não significa que quando intervém não seja importante. Como nós sabemos que este órgão só vai intervir uma ou duas vezes por ano, mas que por outro lado tem competências muito importantes como o Francisco diz, para a eleição do Diretor da Faculdade, para aprovação do plano de atividades, do orçamento, das contas e depois está muito ligada às relações institucionais que estão criadas entre a faculdade as outras unidades orgânicas e a reitoria, nós temos que selecionar de tudo aquilo que é discutido na faculdade aquilo que é mais importante e que esteja a pôr mais em causa a qualidade da vida estudantil. Portanto o que nós selecionamos daquilo que entra nas competências deste órgão, não estamos a dizer que não há outras questões, mas nas competências deste órgão, nós selecionamos a questão dos espaços de estudo e depois a questão das bases de dados para a investigação ao nível dos mestrados, licenciaturas e doutoramentos. Nós não quisemos apresentar propostas que, embora digam respeito a preocupações dos alunos, não entram claramente, portanto não vamos discutir métodos de avaliação, formas de correção de exames, porque nada disso pode ser discutido neste órgão, para nós não faz sequer sentido colocar essas questões. Então o que nós preferimos fazer foi apresentar menos propostas, mas tentar perceber de tudo o que poderia fazer sentido, o que é que efetivamente entra neste órgão dentro da pouca oportunidade que vamos ter para intervir. E estes dois aspetos parecem ser aqueles que entrando nas competências do órgão podemos ter algum sucesso. Relativamente aos espaços de estudo, desde o 1º ano da faculdade para quem faz a licenciatura até ao último grau, doutoramento e pós-doutoramento, toda a gente tem um problema de falta de espaços de estudo, e a reflexão que fizemos foi “Como é que nós, independentemente do ano em que estamos e do grau académico, podemos tentar resolver isto?”, portanto nós pensámos em criar um método automático de seleção de salas (que é algo que se faz já noutras faculdades), e que não implica a utilização de recursos humanos da faculdade – um bocado como um sistema de pods, que existe na parte debaixo da faculdade para se poder fazer uma chamadas: é exatamente a mesma coisa mas para salas que ficam vazias, do gênero de exames, como não há aulas, todas as salas de aulas estão vazias e não são usadas durante o período dos exames, porque os exames são sobretudo feitos no Anfiteatro A ou no Anfiteatro B ou numa outra sala, mas todas as outras ficam sem ninguém, às vezes durante três meses e até no final de cada semestre é muito tempo: ao todo estamos a falar de seis meses praticamente ou mais em que essas salas poderiam ser aproveitadas porque não têm aulas. Logo, uma das nossas propostas é aproveitar isso com um sistema automático de reservas para os alunos, o que permitiria fazer trabalhos de grupos, videoconferências - coisas que não podemos fazer noutros espaços, como na biblioteca ou nas salas de estudo que existem atualmente, porque temos de fazer silêncio. Para a faculdade que dá uma grande tónica à parte prática, nós depois não temos onde nos reunirmos, não temos até forma de responder aquilo que a faculdade nos pede. Depois da segunda parte, começa a ser sobretudo importante para quem entra no Mestrado. Eu sou de doutoramento, portanto eu sinto este segundo problema também muito bem, mas já quem entra no mestrado sente isto: que há uma grande falta de acesso a artigos e livros online. Isto é um problema que já foi identificado e tem a ver com a relação entre a faculdade e as outras - isto é tipicamente uma coisa que deva ir para o Conselho da Faculdade, ou seja o acesso às bases de dados, em vez de ser discutido centralmente pela reitoria , como se faz noutras universidades como por exemplo em Coimbra, na Clássica, no Minho, é tudo feito centralmente. Não é cada faculdade que vai discutir as bases de dados, se fizer isso tem menos peso e as faculdades com menos alunos são prejudicadas, pois estão unicamente dependentes do seu orçamento. A partir do momento em que toca noutras áreas, Saúde, Economia, o que for, muitas dessas bases de dados só são acessíveis pelas unidades orgânicas respetivas, ou seja a Nova Medical School, Nova SBE, Nova IMS e nós ficamos de fora, no entanto, estamos a falar de uma licenciatura e programas que são transversais: queremos formar juristas que pensam fora da caixinha muito restrita do Direito. Portanto isto é um entrave para fazermos o que a própria faculdade nos esta a pedir para fazer. O próprio Reitor tendo identificado que, efetivamente, existe uma desigualdade no acesso às bases de dados, já assumiu que tem que corrigir isto. Logo, acho que é papel do Conselho da Faculdade chamar à atenção da Direção para que exija um plano executável à Reitoria para resolver este problema, pois isto está a pôr em causa a qualidade do ensino e do estudo. Nisto o que nos singulariza foi termos procurado identificar, o que é que nós podemos efetivamente levar ao Conselho da Faculdade das preocupações todas dos alunos e que neste momento tenhamos alguma oportunidade de resolver! Francisco Freire: Eu acho que o que nos singulariza são as premissas que estiveram por trás do desenho do nosso plano. Por um lado, tivemos em atenção quais são as competências do Conselho da Faculdade – há muitos temas como a revisão de prova, os pedidos de prova ou o método de avaliação, que são temas também de importância extrema, mas que acreditamos que faça mais sentido levar a outros órgãos com outras competências, como por exemplo o Conselho Pedagógico. Isto, embora possa vir a ser discutido, não é o principal foco do órgão. Por outro lado, acho um aspeto importante o facto de procurarmos ver refletidos o interesse de todos os ciclos de estudos, como referi no Conselho Pedagógico, temos representados todos os ciclos de estudo e aqui estamos a representar todos os ciclos de estudos. Acho que esta é uma questão que nos singulariza, é este facto de atendermos aos problemas de todos e não apenas aos problemas mais correntes da licenciatura. SN: Quais as vossas prioridades mais imediatas após eleição? Rita Marques: Acho que a prioridade mais imediata pós-eleição é saber quando é que vai ser a primeira reunião do órgão. Por um lado, para podermos rapidamente ter a certeza das posições dos estudantes para as nossas propostas, mas também à reunião que é expectável. Imaginemos que na primeira reunião será eleito o reitor, temos que ver qual seria a posição dos vários grupos de estudantes. Por outro lado, temos que preparar a apresentação das nossas propostas. Temos que começar a preparar com tempo este tipo de proposta para termos a certeza que temos um apoio maioritário, porque nós somos minoritários no conselho, é assim qu o conselho está formado. Portanto, para nós termos alguma forma de provarmos estas propostas. Temos que nos preparar com antecedência para falar com as pessoas que fazem parte deste órgão e começar a mostrar-lhes porque são importantes para nós e executáveis. Nós queremos levar propostas que já tenhamos previamente discutido e ir adaptando as propostas para perceber se são efetivamente executáveis. A questão das salas de estudo, como propomos um sistema automático, o que faria sentido era falar previamente com os serviços informáticos e outros serviços da faculdade, para ter a certeza que é executável. Na questão das bases de dados, como implica o contacto com a Reitoria e com outras unidades orgânicas, isso leva tempo. SN: Na vossa proposta de reforço de espaços de estudo no campus, como evitam conflitos entre reservas, aulas de última hora ou outras utilizações prioritárias? Rita Marques: Este sistema automático de reservas, já foi utilizado em outras faculdades e teve bons resultados. Há dois anos, estive no Instituto Universitário Europeu, e este problema levanta-se muito, tem imensos estudantes da Europa e de fora dela e a biblioteca não é suficiente. E este sistema foi construído de modo a que, sendo ele automático, as salas que são identificadas por aquilo do que se pode ou não fazer na mesma e pela sua capacidade máxima de estudantes. Por exemplo, quando se está a falar numa determinada sala, se tiver outra pessoa a falar já é muito barulho, e devemos ponderar isto no piso de baixo e de cima. Depois as salas, a partir do momento em que estão reservadas pelo sistema, este tem que as bloquear automaticamente, já não podendo outro selecionar aquela sala. Se houver necessidades de última hora, há várias possibilidades. Uma é, por exemplo, existir sempre um número mínimo de salas que a faculdade mantém para ter a certeza que se existir alguma urgência da parte dos professores, saber que aquelas salas poderão ser sempre utilizadas. Outra seria o apoio ao ensino ter a possibilidade de revogar as reservas das salas, e dizer aos alunos que apesar da reserva a sala não pode estar disponível. Fora estas exceções, o sistema funciona muito bem! Francisco Freire: Os problemas técnicos são facilmente resolvidos, e este é um aspeto importante das nossas propostas, olharmos para os aspetos de uma forma inovadora e criativa. Por exemplo, a faculdade está fechada aos fins de semana, e também não vejo porque não estender a possibilidade destes espaços de estudo estarem também abertos ao fim de semana. Aos sábados temos sempre o Colégio Almada Negreiros aberto, mas não temos a sala de estudo ao lado da Associação de Estudantes pois não há segurança para a abrir. Poderíamos envolver o Segurança da residência e até mesmo estender o limite de utilização que é posta ao uso da sala de estudo da residência aos não residentes. O próprio sistema de reserva também permite perceber o interesse dos alunos e uma maior organização da agenda. SN: Propõem um e-mail institucional como via de contacto, o que distingue isso de soluções já existentes que muitas vezes têm baixa adesão? Francisco Freire: Francamente desconheço de algum email institucional dos representantes da faculdade. Compreendo que muitas vezes é anunciado e que depois acabam por não recorrer ao mesmo. Para o efeito é importante existir alguma divulgação, por exemplo no site da faculdade, na página do Conselho de Faculdade. Por outro lado, as redes sociais acabam por ser mais fáceis para transmitir as nossas mensagens, e por isso podemos sempre manter a página ativa depois das eleições. A Associação de Estudantes, como eu referi, também pode ser um ator importante na transmissão das mensagens aos alunos, mesmo para tentar perceber, auscultar as preocupações dos mesmos. De resto, mesmo sabendo quem nós somos, podem sempre contactar de forma individual. Apesar de haver o email acho importante manter esta proximidade com os alunos. Rita Marques: Uma dificuldade que sentimos é que não temos canais de comunicação com os alunos, portanto tirando os repetitivos grupos onde estamos, é difícil chegar aos demais.  A palavra que estamos a tentar passar é de que estamos aqui, estamos a tentar dar um primeiro passo, na próxima semana, quarta-feira, fazermos uma sessão online para nos darmos a conhecer. Queremos começar agora, para que as pessoas nos conheçam! Se não ganharmos, acho que já ganhamos todos em saber que o Conselho da Faculdade existe e que os alunos vão ter representantes no Conselho da Faculdade. É positivo que os alunos saibam que se podem fazer representar. Na faculdade, especialmente nos graus posteriores como mestrado e doutoramento, muitas vezes os alunos sentem-se sozinhos, que não teêm representação na faculdade e que não sabem a quem se sirigir, a quem colocar as suas questões... Pelo menos, o facto dos alunos saberem que há representantes e que se podem informar já é muito bom! Por fim, agradeço que nos tenham dado a oportunidade de fazer chegar esta informação.  Francisco Freire: Agradecemos a ti e ao Jur.nal. Acho que estas eleições são bastante importantes para todos, não acontecem com muita frequência, apesar do atraso, pois estamos há mais de seis meses sem representantes. Vamos ter pela primeira vez dois representantes e temos duas listas, o que não é frequente. São sinais que nos devem levar a votar e a procurar alguma mudança naquilo que é o debate democrático, nas propostas apresentadas pelas duas listas e o mais importante é ir votar dia 7!

  • A polémica em torno da ida dos Bandidos do Cante à Eurovisão

    Como sabemos, no passado dia 7 de Março os Bandidos do Cante venceram o Festival da Canção, o que significa que o grupo representará Portugal na Eurovisão deste ano, que decorrerá em maio. Uma edição que, mais uma vez, será marcada pela contínua presença de Israel, sendo que países como a Espanha, Países Baixos, Irlanda, Eslovénia e Islândia anunciaram boicote ao concurso face ao genocídio que ocorre na Faixa de Gaza.  Quanto aos participantes do Festival da Canção, foram oito aqueles que face ao cenário de uma potencial vitória, abertamente afirmaram que boicotavam a ida de Portugal à Eurovisão, sendo que outros dois participantes não se pronunciaram sobre este assunto. Os Bandidos do Cante terão sido mesmo os únicos a afirmar publicamente que, caso fossem os vencedores desta edição, representariam mesmo Portugal no festival. O desfecho todos já conhecemos, a vitória acabou mesmo por pertencer a este grupo. Para quem não está familiarizado, os Bandidos do Cante, cujos integrantes são em grande parte originários de Beja, são um grupo musical criado em 2022, distinguindo-se pela fusão do tradicional cante alentejano com sonoridades contemporâneas. O seu grande pontapé de saída terá sido mesmo com a gravação do tema “Casa”, editado também em 2022, cuja autoria pertence aos D.A.M.A, juntamente com a colaboração de Buba Espinho. Não obstante a qualidade musical e artística dos Bandidos, acho no mínimo intrigante a conquista ter pendido precisamente para o único grupo que defendeu a ida e respetiva representação de Portugal no concurso. Logo na edição em que o voto do júri tem mais peso do que qualquer edição antes realizada. É verdade que o papel do público é também preponderante nesta escolha, porém, não tem o mesmo peso que o dos jurados. Aliás, após uma análise de dados, ter-se-á concluído que esta edição do Festival da Canção terá sido a menos assistida nos últimos anos.  Ora, são vários os motivos que podem justificar este decréscimo nas audiências, mas aquele que à partida salta logo à vista é a constante conivência da organização do concurso, neste caso a União Europeia da Radiodifusão (UER) para com os atos desumanos e bárbaros de Israel. É de se criticar ainda a passividade da RTP perante este tema, sendo de se louvar a atitude das organizações dos respetivos países que boicotaram a ida à Eurovisão. Na minha perspetiva, é de se condenar tanto a posição dos Bandidos do Cante, como a da RTP, reconhecendo também que o boicote por parte desta seja todo um processo mais complexo (tratando-se pois de uma entidade pública). Já quanto à postura adotada pelo grupo musical, refiro que desde sempre a cultura e inclusivamente a música estão intrinsecamente ligadas àquilo que foi e é a política, sendo estas as formas mais puras de expressão que existem, até mesmo no que toca a marcar uma posição.  É igualmente importante sublinhar que, historicamente, o cante alentejano original surgiu como uma forma de resistência e ativismo, sendo uma expressão cultural que reflete as vivências, contestações e dores do povo alentejano. O cante foi no fundo uma forma do povo manter a sua identidade e coesão social face à constante fustigação e desigualdade que o Alentejo foi enfrentando ao longo da sua história. É este o impacto que a cultura pode ter, servindo como um verdadeiro pilar da expressão humana e servindo inclusivamente como um derradeiro escape à realidade. Posto tudo o que acabei de referir, seria de esperar que os Bandidos do Cante tivessem “desafiado” a sua ida à Eurovisão, numa altura em que é cada vez mais urgente uma tomada de posição relativamente ao estado do mundo em que nos encontramos. Agirmos é indubitavelmente necessário.

  • Não deixem o GR morrer!

    Em celebração do Dia Mundial do Teatro (assinalado a 27 de março), o Grupo de Retórica deliciou a faculdade com um conjunto de dinâmicas teatrais: em bom estilo de GR, invadiram as aulas e deram espetáculo.               Para surpresa de muitos, e regozijo de outros, o trabalho desenvolvido não foi o alívio cómico que estamos habituados a que este grupo proporcione. Antes, a sua aposta foi de um tom mais sério (quem sabe até, num presságio sobre a sua própria entidade), abordando a temática de sonhos deitados a perder pela conjetura social que, como se verifica em muitos casos, leva à morte do artista.  De certo modo, a abordagem foi refrescante, é bonito ver o GR a reinventar-se, provando que o seu teatro vai além da jocosa representação do bobo da corte e que, contrariando os mais céticos, é capaz de se alinhar no espírito artístico do teatro e tornar um aborrecido momento de aula numa chamada de atenção em tom de crítica social.               Quando questionada acerca da escolha deste molde e do tema abordado, Beatriz Geraldi, membro da coordenação do núcleo, confessou que a ideia de um flash  teatro partiu da sua fantasia pessoal de poder dar vida às peças que constrói. Contudo, reforça a importância de atividades como esta que mostram que o “GR não é só comédia”, e que a sua versatilidade se molda ao gosto de cada um, que o integre e que o assista.               Neste sentido, somos relembrados do quão essencial é o envolvimento da comunidade em núcleos deste género, de como é a partir dela que vive e respira e, só assim, lhe consegue soprar as doces brisas de recompensa em retorno.               Desde o seu começo, pelas mãos da, atualmente jubilada, Professora Ana Prata, o GR afirmou-se como lugar de fuga: entre códigos, doutrinas, corpus  e animus  que arrastam os alunos, a cultura seria uma forma de os levar a viajar, num escape idílico em que a expressão artística se sobrepunha a qualquer tédio jurídico. Inicialmente, ainda longe dos seus dias comédia e riso, o GR tinha um tom mais sisudo e erudito, dedicando-se ao aprimoramento da arte do bem falar, honrando o seu nome civil . Porém, não sendo um corpo estático, foi-se moldando ao génio das diferentes coordenações que por si passavam: ora mais culto ora mais espirituoso, o GR sempre abraçou a mudança na comunidade. O fator comunidade é, para como muitos outros núcleos, o elemento que dá vida ao GR. Tendo sido para si criada, é natural que só consigo se edifique: é na comunidade académica que se encontram os atores, o público, os apoiantes…é neles que se encontra a arte; portanto, sem o seu suporte, o GR desvitaliza-se e a vida na faculdade perde o brilho que ele traz. A bonita relação simbiótica entre os Estudantes e o GR só se sustenta havendo reciprocidade de contribuição. A existência de um núcleo (atualmente) de teatro é uma mais-valia numa faculdade dedicada a uma área tão densa como é o Direito, em que facilmente nos perdemos na frieza das normas a que o Bento – pessoa média, mas, ainda assim, assassino, ladrão, menor incapaz, entidade coletiva pública e juiz – está sujeito constantemente: a leveza do teatro e da cultura trazem a “lufada de ar fresco” que todos merecemos e precisamos. Contudo, o cenário ideal de contribuição mútua está cada vez mais longe da realidade. Como a própria coordenação afirma, por vezes é difícil encontrar quem partilhe o mesmo entusiasmo pelo projeto, antes preferindo colher os seus frutos que ajudar a plantar as sementes. A inércia da comunidade perante o núcleo é algo que a atual coordenação teme, pois vê um projeto que com tanto carinho cuidou arriscar cair na doce nostalgia dos “bons velhos tempos”. Neste sentido, exorta todos os Estudantes a saírem das suas bolhas e se desafiarem a abraçar os seus  Tchaikovski ou Beatriz Costa interiores, e libertarem a sua alma no GR  (agradecer-lhe-ão depois, confiem) O GR não está fora da zona de risco: os esforços que atualmente tem feito vêm de um amor profundo que os seus membros e coordenação têm por si; contudo, não é de amor que a arte se sustenta, portanto é essencial que haja um maior envolvimento. Quando questionados acerca do que os mantém motivados, a coordenação relembra como o GR é o lugar onde vivem os seus sonhos de menino: de ser ator, de ser trágico e cómico simultaneamente…enfim, de serem livres. O “lindo caos”, como os próprios coordenadores a si se dirigem, é o espaço seguro que todos nós buscamos, mas não sabemos onde encontrar. É o lugar onde podemos pousar a fatigada máscara da seriedade e vestimos a nossa verdadeira personagem. O GR é mais do que Martelo . O GR é dos poucos espaços que ainda se encontram, que oferecem a genuinidade e simplicidade do ser humano a ser ele próprio. É o sonho do Gil Vicente dos nossos dias, que pega na sua própria Barca e a leva para libertar os prisioneiros do fastidioso dia-a-dia burocrático, sugado pela esmagadora oferta de escapes e fugas momentâneas que se tentam substituir à genuína conexão que só a criação em comunidade traz. Hoje, mais que nunca, espaços como o GR são essenciais: são resquícios da vida humana que se afirmam contra a fugacidade da vida fabricada pela constante estimulação digital. São pequenos oásis em que a criatividade flui e o ser humano reencontra-se no seu ser. Portanto, não condenem o GR ao destino dos soldados que esta semana pela sua mão conheceram e apareçam! Apareçam no Slam Poetry , no Fanimus , no Moot Court do Improviso , no Cluedo , no Quiz Cultural e em todas as outras iniciativas do GR que, muito mais que teatro, são hoje um marco de resistência.

  • A minha miséria não gosta de companhia

    Digo isto sendo uma pessoa que carrega uma mala muito pesada e nunca sabe onde a largar, ou quando... Existem teorias, palpites e talvez até diagnósticos; não sei, não lembro. Tudo para mim é casa, nunca foi essa a questão. Moldo-me sempre na esperança de saber quem sou, quando sou, como sou... Em busca de respostas, ora me desfaço, ora me reinvento, sempre mantendo fragmentos de tudo e de todos que por mim trespassaram.  Porém, com um cérebro desventurado e incapaz sequer de acompanhar o quotidiano do coração, e uma alma que anseia por diligência mas se recusa a despir a carcaça miserável de ferro, torna-se fisicamente impossível e pungente ressumar esse trautear, pois transbordo fervor da mesma forma que carrego dormência e lacunas na memória.

  • Osteogénese imperfeita

    Os pecadores ao inferno pertencem, e os santos ao seu céu. O céu chora pela sua solidão e este chão perfura pacientemente a planta dos meus pés e o sal das marés que fluem como o tempo e ardem incessantemente pela minha carne exposta. Tempo. Eterno. Escasso. Flui como este mar que me tortura. As ondas calmas de um oceano de outrora, procuram agora revoltante conforto na costa hostil, para além de onde se estende a vida. A maldição de Cronos é a procura incessante da paz. A maldição da eternidade de uma vida que nem Santos, nem Pecadores, pediriam para ter. A eternidade consome-me. Entra por mim dentro num projétil puro. A lei que perdura é esta. A obrigatoriedade de carregar o peso do corpo desfeito. Feito de rocha. Imóvel como montanha que suporta o caos nos ombros. Nasci assim. Nasci Rocha. Sedimento que quebra com o bater das águas revoltadas que uivam perguntas e esperam respostas que não consigo dar. E ainda assim caminho. Deixo que me esfolem por inteiro e exponho o músculo que tenho até que seja apenas osso. Vejam, senhoras e senhores! Isto é Atlas nascido com osteogénese imperfeita. É nele em quem confiam a vossa vida. Os vossos segredos e sentimentos. As vossas preocupações, casas, empregos, a saúde e a doença. E a terra fica obesa de pecado, obesa de pedidos e abundante de responsabilidades. É nesta vértebra desfeita onde vêm descansar os moribundos, aqueles às portas da morte e os devedores em insolvência. Não é nada mais que pó e cinza, este esqueleto que vos segura. As súplicas que o vento leva, todos os favores e promessas cumpridas, são agora irrelevantes. O fardo é singular e corrói lentamente seus ossos de porcelana. As partículas que ficam, servirão para os adictos. Não basta moer o esqueleto até ao átomo. Há que o consumir por inteiro até que nada mais reste da sua existência. Quem foi, quem é, quem poderia ser. O mundo que é carrasco de si mesmo por executar quem o suporta, não conhecerá futuro. Caem Santos e Pecadores, Homens e Mulheres, Dia e Noite, Deuses e Demónios. O céu não existe, tem rachas por onde entra esta luz a que chamam de estrelas, que são na realidade réstias de labaredas que nos consumirão nesta calamidade. Cai um, caem dois, caem cem. Os Deuses já não vos ouvem. Haveis morto Atlas sob o peso do mundo. Rocha oca. Ainda areia. Talvez um pouco de gratidão pudesse curar esta osteogénese imperfeita.

  • Dia Nacional do Estudante

    “A unidade de hoje pela união de amanhã” A história do movimento estudantil em Portugal é marcada por ciclos de contestação, repressão e conquista de direitos. Desde os primeiros levantamentos no século XX até às reivindicações atuais, os estudantes têm desempenhado um papel central na luta por melhores condições no ensino superior. Um histórico de resistência Os primeiros sinais de mobilização estudantil remontam a 1928, em Coimbra, com levantamentos universitários que se repetiriam em 1931 e, mais tarde, em 1945, já em Lisboa e no Porto. No entanto, foi em 1956, com a publicação do Decreto-Lei n.º 40 900, que a contestação ganhou uma nova dimensão. A legislação retirava autonomia às associações académicas, colocando-as sob tutela do Ministério da Educação Nacional, o que desencadeou protestos generalizados. A tensão culminaria na Crise Académica de 1962, um dos momentos mais marcantes da oposição estudantil ao regime do Estado Novo. A proibição das comemorações do Dia do Estudante, a 24 de março, pelo então ministro Lopes de Almeida, serviu de rastilho para uma onda de contestação. Reuniões foram impedidas pela polícia, estudantes ocuparam a Cantina da Universidade de Lisboa e, a 9 de março, Coimbra acolheu o I Encontro Nacional de Estudantes. O luto académico foi decretado e, apesar de uma autorização inicial para celebrar o Dia do Estudante em abril, uma nova proibição reacendeu os protestos. A repressão intensificou-se, a polícia invadiu a Associação Académica de Coimbra, a PIDE realizou detenções em massa de estudantes e docentes, professores foram despedidos e muitos alunos foram forçados ao serviço militar ou presos em Caxias. A crise levou mesmo à demissão do reitor da Universidade de Lisboa, Marcello Caetano. Repressão e mobilização na década de 60 A contestação não terminou em 1962. Em 1965, o Governo promoveu a prisão de líderes estudantis, numa tentativa de desarticular o movimento associativo. Ainda assim, multiplicaram-se greves, manifestações e confrontos com as autoridades. Em 1968, já sob tutela de José Hermano Saraiva no Ministério da Educação, a repressão manteve-se, com a ocupação policial de associações de estudantes e novo luto académico em Lisboa. O ano de 1969 marcaria outro momento decisivo. Durante uma visita do Presidente Américo Tomás a Coimbra, o estudante Alberto Martins foi impedido de discursar, desencadeando uma greve geral que mobilizou cerca de 85% dos estudantes. A resposta governamental foi o encerramento da Universidade de Coimbra a 6 de maio. O movimento acabaria por perder força nos meses seguintes. O declínio e a reorganização Em 1971, a reforma educativa conduzida por Veiga Simão levou ao encerramento das associações estudantis e à fragmentação do movimento, em parte devido ao surgimento de múltiplos núcleos ideológicos nas faculdades. Este período marcou o enfraquecimento da mobilização estudantil organizada. Entre as figuras mais relevantes deste ciclo destacam-se Salgado Zenha e Jorge Sampaio, então dirigente associativo, que viria a ter um papel importante na defesa jurídica de estudantes perseguidos pelo regime. Já em democracia, o reconhecimento institucional do movimento estudantil chegou com a Lei n.º 19/87, que consagrou o 24 de março como o Dia Nacional do Estudante. Novas gerações, velhos problemas Décadas depois, os estudantes voltam a mobilizar-se, agora em torno de questões como saúde mental, habitação, bolsas e custo de vida. Estas são reivindicações que nos levam do Rossio à Assembleia da República no dia 24 de março. Falta de apoio psicológico Na Universidade Nova de Lisboa, com mais de 22 mil estudantes, existem apenas quatro psicólogos nos serviços de apoio. Os tempos de espera ultrapassam os 30 dias, enquanto programas alternativos apresentam baixa adesão, gerando críticas quanto à eficácia das respostas institucionais. Crise no alojamento estudantil O problema da habitação é uma das principais preocupações. Cerca de 30% dos estudantes deslocados enfrentam dificuldades financeiras relacionadas com o alojamento, uma das principais causas de abandono escolar. Apesar de cerca de 120 mil estudantes deslocados em Portugal, existem pouco mais de 16 mil camas em residências públicas. Na Universidade Nova de Lisboa, metade dos estudantes encontra-se deslocada, mas a oferta de camas é extremamente limitada. Protocolos com entidades externas, como pousadas da juventude, têm sido apontados como solução insuficiente. Estudantes denunciam más condições, ausência de espaços de estudo e custos acrescidos. Acresce ainda a polémica sobre a perda de apoios sociais quando estudantes recusam este tipo de alojamento. Bolsas insuficientes Mais de 75 mil estudantes recebem bolsas em Portugal, mas estas cobrem, em média, menos de 20% dos custos reais de frequência no ensino superior. A proposta de reforma em discussão prevê alterações profundas, incluindo a integração do complemento de alojamento nas bolsas, o que poderá reduzir apoios para alguns estudantes. Alimentação mais cara Outro foco de descontentamento é o aumento do preço da refeição social, que não tem sido acompanhado por melhorias na qualidade. A limitação deste apoio a s algumas faculdades, agrava as desigualdades dentro da própria universidade. Um movimento que regressa às ruas As reivindicações atuais mostram que, apesar das mudanças políticas e sociais das últimas décadas, persistem dificuldades estruturais no ensino superior. Tal como nos anos 60, os estudantes organizam-se e preparam novas manifestações, exigindo respostas concretas para problemas que consideram urgentes. A história repete-se, ainda que em moldes diferentes: da luta contra a repressão política à exigência de condições dignas de estudo, o movimento estudantil continua a afirmar-se como uma força ativa na sociedade portuguesa.

  • A eutanásia

    Há uma máquina, Uma máquina que apita constantemente,  Que bate constantemente, Que vibra constantemente,  E que não sente constantemente,  E depois há outra máquina, Que não apita constantemente,  Que não bate constantemente,  Que não vibra constantemente,  Que sente constantemente,  A primeira pode apitar, bater, não sentir, Não carrega uma pedra, a pedra. A segunda não pode apitar,  Não pode bater,  Não pode vibrar, Mas pode sentir, Tem a sorte de poder carregar uma pedra, a pedra Mas sorte de uns, azar de outros. Eu sou a máquina, Mas a máquina errada, Eu não apito, não bato, não vibro. Sinto. Sinto e carrego. Sinto e carrego uma pedra. Sinto e carrego a pedra. Sorte de uns, azar de outros. Se eu pudesse desligar a minha máquina, Deixar de sentir, Deixar a pedra rebolar, Poderia apitar constantemente, Poderia bater constantemente, Poderia vibrar constantemente.  Eu posso, Só preciso de desligar a máquina,  a minha máquina. Deixar a minha pedra rebolar, A pedra que nunca foi minha, Mas poder e querer são coisas diferentes...

  • 19 de março e o retrocesso

    Lamentemos, juntos, a regressão na conquista dos direitos. Se há algo que devemos ter em conta quando discutimos a vida das pessoas queer é que não podemos ter como garantia os direitos de todos quando alguns se sentem ameaçados no seu quotidiano por simplesmente sair à rua. Não podemos celebrar a vitória quando a identidade de certas pessoas e a sua liberdade de concretizar a vida da forma mais feliz está limitada, algemada e amarrada por acusações de ideologia, sendo a sua opinião banida do espaço público sob a égide de proteção dos valores. A aprovação da Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, foi uma conquista para todos os membros da comunidade LGBT que têm, independentemente do rótulo com que se possam rever, andado de mão dada, recordem-se os eventos de Stonewall. Mas aquando a ascenção de uma maioria de direita no Parlamento, especialmente quando essa direita é caracterizada por posições intencionalmente polémicas e pouco sustentadas, contrariando as conclusões do debate científico internacional, corremos o risco de voltar atrás.  No dia 19 de Março por proposta do Chega será novamente discutida a temática. Mesmo o CDS já comeu da fatia transfóbica, apresentando um diploma que visa proibir o acesso a terapia hormonal e bloqueadores de puberdade a menores de 18 anos. O argumento é, como sempre, a integridade das famílias, a perceção de que a identidade de género é um assunto demasiado obsceno e impassível de ser compreendido por uma criança, e uma espécie de consciência coletiva de que se trata de uma medida para o bem de todos os portugueses. No entanto, terá algum destes partidos apresentado medidas para diminuir a elevada taxa de suicídio que se observa para jovens transgênero precisamente nesta faixa etária? Virá a ser matéria de debate no Parlamento a melhor forma de trazer apoio psicológico àqueles que se sentem ostracizados pela próprias famílias? Ademais, o que tiveram os deputados do Chega a dizer sobre o caso de Noori Torres, um jovem transgénero que tentou escapar ao ambiente familiar tóxico onde vivia somente para acabar morto, com exposição mediática nacional a divulgar um nome com o qual não se identificava? Para além das alterações feitas à disciplina de Cidadania e desenvolvimento, o guia "Direito a Ser nas Escolas", que pretendia dar a conhecer a todas as crianças transgénero a legislação que sustentava e permitia a sua expressão livre na escola – de acordo somente com os sentimentos da própria pessoa –, assim como medidas destinadas a docentes e funcionários para impedir a discriminação por identidade sexual ou de género, foi retirado do site da DGE e deixou de circular nas instituições de ensino portuguesas.  É evidente que o objetivo é a instalação do medo, do preconceito, de uma moralidade que vê pessoas trans, jovens e adultos, como monstros, como matéria tabu, como uma parte da população que precisa de limpeza.  O que significa isto para o casamento gay? O que significa isto para os direitos de adoção por parte de casais homossexuais? O que significa isto para o sentimento de comunidade que se tem vindo a construir ardorosamente, tijolo por tijolo, em Portugal, numa tentativa de unir todas as pessoas queer contra as adversidades impostas por governos conservadores?  É inadmissível que em 2026 estas matérias sejam vistas como algo ainda por decidir. Mas parece-me cada vez mais que caminhamos para um ponto sem volta, tendo em conta o contexto global. Nos EUA a opressão das pessoas LGBT tem se tornado cada vez mais gritante, especialmente em estados vermelhos; noutros lugares do mundo a luta foi cortada pela raiz com a tesoura da pena de morte. O facto de que a autodeterminação das pessoas transgénero é sequer visto como uma questão política e não como uma questão de direitos humanos é especialmente assustador. Lamentemos, juntos, a regressão na conquista dos direitos.

  • Desvinculação do CNED aprovada em Assembleia Geral por maioria esmagadora

    A Assembleia Geral da AEFDUNL reuniu no passado dia 12 de março (quinta-feira) para discutir a desvinculação do CNED proposta pela Direção da AEFDUNL, tendo sido aprovada a desvinculação com 43 votos a favor e 2 contra.  O CNED é o Conselho Nacional de Estudantes de Direito , fundado em 2012. A sua criação partiu de um princípio de representação, no sentido de dar voz aos estudantes dos cursos de Direito, em Portugal e, desta forma, é composto, essencialmente, pela maioria das associações académicas, de estudantes e núcleos de estudantes de Direito do país (de todos os sistemas de ensino superior). Com efeito, o CNED atua, principal e simultaneamente, em dois espectros diferentes : a representação destes estudantes, com enfoque na defesa e proteção contínua dos seus interesses, mediante uma conduta de compromisso com os estudantes; e a potencialização das capacidades dos mesmos na área do direito, assente numa vertente mais prática, de modo a aprofundar os seus conhecimentos jurídicos.  Adicionalmente, a associação, que pugna pelo bem-estar académico e profissional dos estudantes, fomenta a criação de laços e relações interpessoais dentro do universo nacional do direito. Este diálogo confere uma base empírica daquelas que são as verdadeiras preocupações, flagelos e interesses dos estudantes e, neste sentido, a conjugação destas bases formam orientações a que o CNED está vinculado, prosseguindo-as com valores de transparência, calibre-ético e responsabilidade. Além do mais, o CNED, tem forte peso no plano nacional, personificando os estudantes de direito no debate político  e almejando a concretização prática dos objetivos que deve prosseguir nas opções de Política de Justiça em Portugal. Em última instância, o CNED é a entidade responsável por atuar como interlocutor junto das instituições de ensino superior e órgãos governamentais , prezando pelas melhores políticas educativas a adotar, mas também lutando pelo acesso à profissão justa e qualidade de ensino digno.  No passado dia 10 de março de 2026 a Mesa da Assembleia Geral da AEFDUNL convocou a primeira Assembleia Geral Extraordinária  do ano para o dia 12 do mesmo mês. Sendo vários os pontos da ordem de trabalhos da reunião, era de destacar o quarto ponto que dizia respeito à desvinculação do Conselho Nacional de Estudantes de Direito por proposta pela direção da AE. No documento denominado “Proposta de Desvinculação do CNED pela AEFDUNL” , apresentado em AG pela presidente da direção Mariana D’Almeida, a direção da AE explica os vários motivos que os levaram a apresentar esta proposta. Por um lado, é apontada a “ausência material de um verdadeiro Relatório de Atividades” , acusando ainda a direção do CNED de uma falta de responsabilização e compromisso com as suas funções. O documento aponta ainda a disponibilização tardia e incompleta da documentação para a preparação das AGs do CNED, sendo ainda criticado o não envio prévio do parecer do Conselho Fiscal. A direção da AEFDUNL criticou ainda a falta de transparência na utilização dos fundos do CNED, concluindo com a afirmação de que a Direção não está disposta a “sacrificar mais por um projeto com problemas estruturais e intrínsecos ao seu próprio funcionamento (...)” .  No decorrer da Assembleia Geral foram várias as intervenções, sendo de destacar a contribuição em peso da Presidência da Direção cessante da AEFDUNL (a Presidente, Vice-Presidentes e Tesoureiro) que defendeu os méritos da desvinculação do CNED, realçando as falhas estruturais dessa instituição e reforçando a ideia de que esta desvinculação era algo já ponderado anteriormente. Alguns estudantes criticaram, no entanto, a extemporaneidade desta proposta de desvinculação, apontando para a possibilidade de transformar “por dentro” o CNED, e argumentando que esta decisão se traduziria numa grande perda para a política educativa da AEFDUNL. Apesar da discussão, que por vezes se revelou acesa, a proposta de desvinculação acabou por ser aprovada de forma esmagadora pela AG com 43 votos a favor e apenas 2 contra.  A AG teve ainda a participação e intervenção de Francisco Leão, Presidente da Direção da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito da Católica de Lisboa , dando o seu testemunho e apoio à posição da direção da AEFDUNL. É de recordar que esta desvinculação segue-se à desvinculação seguida anteriormente tanto pelas Clássicas como pelas Católicas de Lisboa e do Porto, sendo que, assim, o CNED passou a representar um universo substancialmente inferior à maioria dos estudantes de direito do país. Nesta Assembleia Geral foi ainda aprovada a reativação do Núcleo NOVA MUN  que assim regressa após vários meses de inatividade, desta feita sobre a liderança de Gonçalo Santos, aluno do 3º ano de licenciatura. Para além disso, foi ainda lida a carta de renúncia da vogal de Direção Maria Botelho  que é assim substituída por João Freire que era vogal suplente na lista vencedora à direção do ato eleitoral realizado em dezembro do ano passado.

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